Em meados do ano passado, escrevi crônica sobre ditados e expressões populares, aqui no blog. No parágrafo final citei mais cinco, além dos que haviam sido “destrinchados” no texto, sem entrar em detalhes sobre as suas origens e seus significados. Depois disso, vários amigos leitores me mandaram mensagens cobrando que eu fizesse esse complemento. Demorei a responder, admito. Mas hoje finalmente vou tentar atendê-los.

Entregar de bandeja: Permitir que algo aconteça com extrema facilidade, sem opor qualquer resistência. Origem: No palácio de Herodes Antipas ocorria uma festa e sua sobrinha e enteada Salomé dançava para ele que, por estar bêbado, concordou em satisfazer um desejo dela em troca do espetáculo que oferecia. E seu pedido foi a cabeça de João Batista, entregue numa bandeja de prata. Isso está descrito nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. Ela fez a solicitação orientada pela mãe Herodias, que odiava João Batista desde que esse a acusara de adultério, quando abandonou o esposo Herodes Filipe para ficar com o irmão dele, Herodes Antipas. O pedido foi fácil de atender porque o profeta estava preso, nas masmorras do palácio. Fora detido porque sua enorme popularidade entre os camponeses estava fazendo com que temessem uma sublevação popular.

Meia-tigela: Alguém ou algo que tem um valor insignificante; usado para desmerecer outros ou suas iniciativas. Origem: A expressão veio da época da monarquia portuguesa. Ao povo da corte (criados, pajens, oficiais) que não morava no palácio servia-se comida observando as rações previstas no “Livro da Cozinha del Rei”. O manual estipulava a porção de cada um de acordo com a importância do serviço que prestava. E assim alguns ganhavam tigela inteira; a outros cabia apenas meia tigela. Ou seja, quem mais trabalhava menos comia. Qualquer semelhança com dias atuais, não é mera coincidência.

Para bom entendedor, meia palavra basta: A pessoas com um mínimo de discernimento, não se faz necessário uma explicação muito grande. Origem: Essa expressão, que na verdade é um conselho sobre o valor da concisão, não poderia ter outra origem que não na palavra escrita, na literatura. Os dois registros distintos mais antigos encontrados estão ambos em obras de autores espanhóis. Na comédia A Celestina, de Fernando de Rojas (1465-1541) e também em Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616), estão grafados como “a buen entendedor, breve hablador”. Os franceses, assim como os brasileiros, também usam muito essa expressão. Mas aqueles retiram o “basta” da frase, sendo nisso um exemplo prático do próprio ditado.

Quando a esmola é demais o santo desconfia: Quando alguém é mais generoso do que se esperava, em quaisquer circunstâncias, pode estar com segundas intenções. A origem: Nas igrejas católicas, antigamente havia uma caixa onde os fiéis poderiam depositar pequenos valores, que somados geravam fundos para administração da paróquia. Era para os doadores de menor poder aquisitivo, que não os “beneméritos” de quem muito mais esperavam e conseguiam. E sobre essas caixas em geral repousava a imagem de um santo. Então, quando o esmoler exagerava no valor depositado era como se estivesse barganhando, querendo algo em troca do santo ou da igreja.

Saco vazio não pára em pé: Sem estar devidamente alimentado, não se pode esperar do corpo que realize as tarefas necessárias no dia-a-dia. A origem: Essa enfrenta controvérsias sobre onde teria sido usada pela primeira vez. A versão mais provável faz referência a grandes armazéns no antigo serviço portuário, com o carregamento e descarregamento de mercadorias, que levava à exaustão muitos dos homens que nisso trabalhavam antes de ser quase tudo mecanizado. Havia sacos de reserva, para eventual necessidade de troca. Esses, justamente por estarem vazios, ficavam amontoados. Daí a analogia.

07.02.2021

O bônus musical de hoje é com Homem de Pedra, Ditados Populares. O clip foi gravado nas cidades de Cavalcante (GO) e Planaltina (DF), ainda em 2012. O compositor é o próprio André Homem de Pedra, que é de Brasília e profissional da música desde o anos 2000, sempre com um estilo todo próprio de reggae.  

 

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