O LETAL MORTE BRANCA

Um homem de apenas 1m52cm e porte físico de aparência frágil foi o mais preciso franco atirador que se tem notícia na história. Simo Hayha nascera em uma pequena localidade chamada Rautjarvi, que atualmente tem cerca de quatro mil habitantes, na província finlandesa da Carélia do Sul. A família de camponeses era luterana e vivia do plantio de cevada e da caça. Essa necessidade, por questão de sobrevivência, tornou o jovem exímio atirador. Tal habilidade foi depois aprimorada em trajetória como atirador esportivo, até que ele terminou engajado no exército de seu país, justamente em função do conflito que terminou por torná-lo uma verdadeira lenda. Agindo sozinho, durante a guerra entre Finlândia e Rússia, ele foi responsável direto pela morte de 545 soldados inimigos. Ou seja, se além de matar esse número absurdo de comunistas ele também os tivesse torturado antes, provavelmente desbancaria o coronel Brilhante Ustra da posição de maior ídolo de JB.

Este confronto ficou conhecido como Guerra de Inverno, tendo sido travado entre 30 de novembro de 1939 e 13 de março de 1940 – como esse foi um ano bissexto, durou exatos 105 dias. Esse curto espaço de tempo torna ainda mais significativo o feito de Simo, que lutou por 98 deles e teria então abatido 5,56 inimigos a cada 24 horas, em média. Mais de um por hora, uma vez que lá a luz do dia, durante a estação mais fria, perdura apenas por cerca de cinco horas. Agindo sempre bem distante dos demais soldados que resistiam à tentativa de invasão russa, ele se camuflava com roupas brancas e se enterrava parcialmente na neve. Muito resistente, conseguia ficar imóvel em condições adversas severas, esperando o exato momento de, com um único e certeiro disparo, acrescentar novo número à relação de suas vítimas. Essa invisibilidade e a letalidade sem igual lhe renderam o apelido de Morte Branca – ou Belaya Smert, em russo transliterado –, que foi dado pelo exército inimigo. As temperaturas por ele enfrentadas variavam entre -20 e -40 graus centígrados, durante as operações.

A Finlândia fez parte da Suécia por cerca de 700 anos. Depois acabou incorporada ao território russo, em 1809, tendo assim permanecido até 1917. Quando da Revolução Russa, aproveitaram para declarar sua independência, em 6 de dezembro daquele mesmo ano. Uma breve guerra civil chegou a acontecer, entre forças favoráveis e contrárias à iniciativa. Mas Lênin aceitou a independência do território vizinho, assinando declaração nesse sentido em março de 1918. Entretanto, anos mais tarde, quando a ameaça alemã se tornou uma realidade para os russos, eles decidiram ocupar outra vez o território finlandês, por razões estratégicas de defesa contra Hitler. Como não tiveram permissão para implantar bases suas pacificamente, isso desencadeou o conflito.

A gigantesca União Soviética não esperava encontrar resistência alguma por parte da pequena Finlândia. Mas não foi o que aconteceu. Seus 450 mil homens, centenas de tanques e aeronaves de combate rumaram com objetivo de formar posterior cinturão contra os alemães, desconhecendo a alta dificuldade do terreno muito acidentado, com densas florestas, lagos e pântanos. As estreitas vias de acesso ajudavam as forças de defesa, favorecendo ações quase de guerrilha. Nesse cenário, os invasores começaram a cair às centenas, diante da bravura das linhas de defesa. Lá estava também Simo e ele usava uma arma própria, que adquirira anos antes: um fuzil SAKO M28/30, modelo antigo, porém de reconhecida precisão e estabilidade. Sem luneta, ele tinha sistema de ferrolho, cada projétil tendo que ser extraído manualmente.

Em 6 de março de 1940, apenas uma semana antes da assinatura do tratado de paz que pôs fim à guerra, um infante russo finalmente conseguiu divisar e atingir Morte Branca, com uma bala explosiva que acertou o lado esquerdo do seu rosto, destruindo mandíbula e vários dentes. Posto de bruços, para não se afogar com o próprio sangue, foi levado para Helsinki, onde ficou desacordado por sete dias. Um jornal chegou a publicar seu obituário. Mas salvaram sua vida, após o paciente ter enfrentado 14 meses de internação e passado por 26 cirurgias. Nunca se vangloriou dos seus feitos, preferindo sempre dizer que apenas fez o que precisou ser feito. Tornou-se um pacato fazendeiro e faleceu com 96 anos, em abril de 2002.

28.09.2020

Simo Hayha, o Morte Branca

Bônus: um exemplo da moderna música popular finlandesa, cantada por Jenni Vartiainen. O título Missä Muruseni On pode ser traduzido livremente para Cadê Meu Querido. Mas muruseni também significa migalha.

NOSSA MÚSICA TEM SEUS DIAS

Existem tantas datas comemorativas que a grande maioria delas sequer é conhecida de boa parte da população. Não necessariamente por falta de merecimento a o que ou quem seja homenageado, mas apenas de informação. E existem também dadas em duplicidade, sem que se saiba a razão. Uma destas é o Dia da Música Popular Brasileira, que segundo algumas fontes ocorre amanhã, 27 de setembro. Teria sido instituído por ser esse o aniversário da morte de Francisco Alves, em 1952. Outros apontamentos garantem que correta é a lembrança coincidir com o 17 de outubro, por ser quando ocorreu o nascimento de Chiquinha Gonzaga, em 1847. Nesse caso não importa quem tem razão, pois ambos de fato merecem ser associados a esse fenômeno cultural tão expressivo.

Francisco de Moraes Alves nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de agosto de 1898. Conhecido primeiro como Chico Viola e depois como Chico Alves, foi um dos mais expressivos cantores de nosso país, na primeira metade do século passado. Apelidado de “Rei da Voz”, pelo radialista César Ladeira, vendeu cerca de cinco milhões de discos, a partir de 1919, quando fez sua primeira gravação. Nessa estreia foram apenas três canções, mas sem ter alcançado muito sucesso: Pé de Anjo, Fala Meu Louro e Alivia Estes Olhos. Fenômeno numa época anterior ao surgimento da televisão, fez sua carreira graças a emissoras de rádio e apresentações, especialmente a partir da segunda metade dos anos 1920. E seu ápice profissional foi alcançado em 1932, quando passou a integrar o cast exclusivo da Rádio Mayrink Veiga, ao lado de Carmen Miranda e outros nomes consagrados.

Foi de Chico Alves a gravação pioneira de um disco elétrico feita em nosso país. Antes eram apenas mecânicas, com uso de cilindros e sem a possibilidade de armazenar som nos dois lados do mesmo disco. Também foi ele o responsável pela primeira gravação de Aquarela do Brasil, do seu parceiro Ary Barroso. E atingiu recordes absurdos de audiência com Ai! Que Saudades da Amélia, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Um dos cinco filhos de casal de imigrantes lusos, começou a se interessar pela música ainda criança, ao ganhar uma guitarra de presente de Ângela, sua irmã mais velha. Durante a adolescência e o início da vida adulta, trabalhou como engraxate, guarda-livros e numa fábrica de chapéus. Perdeu pai e irmão com a chegada da gripe espanhola, em 1918, mesmo ano em que começou a tentar a vida como cantor. Homem ligado a causas populares, foi responsável por impulsionar e tornar conhecidos compositores negros como Heitor dos Prazeres, Cartola e Ismael Silva. Também conviveu com Pixinguinha e Lupicínio Rodrigues, a quem conheceu durante longa excursão que fez pelo Rio Grande do Sul. Faleceu em um acidente de automóvel, no interior de São Paulo, quando ainda era a voz número um entre todos os cantores de música popular brasileira, sambas e marchas.

A também carioca Francisca Edwiges Neves Gonzaga, conhecida como Chiquinha Gonzaga, foi oficialmente a primeira compositora de música popular brasileira. Era também pianista e regente, tendo sido a mulher pioneira no Brasil em pelo menos mais duas coisas: reger uma orquestra e colocar letra numa marchinha de carnaval, a eterna Ó Abre Alas. Era filha de um marechal de campo do Exército Imperial Brasileiro e sua avó materna fora escrava, depois alforriada. Afilhada de Duque de Caxias, precisou conviver longo tempo com a rigidez militar e aristocrática de sua família paterna. Mas jamais deixou de frequentar rodas de umbigada, lundu e outros ritmos africanos, graças à influência da mãe. Com apenas 16 anos casou com um oficial da Marinha Mercante, por imposição do seu pai, matrimônio que não poderia mesmo dar certo. Alguns anos mais tarde abandonou o marido e não pode, pelo escândalo que isso ocasionou na época, levar consigo dois dos três filhos que havia tido.

Professora e musicista, trabalhava para manter-se e sustentar o filho que ficou com ela, enfrentando enorme preconceito. Mas foi se tornando cada vez mais respeitada como compositora. Trabalhou adaptando o som do piano para o gosto popular. Na política, passou a militar em defesa da abolição e pelo fim da monarquia. Lançou-se no teatro e foi fundadora da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Compôs músicas para 77 peças e mais de duas mil outras em gêneros como valsa, tango, maxixe, fado, choro, mazurca, polca e lundus. Com 87 anos, em 1934, assinou sua última composição: Maria. Faleceu em 1935, na data da abertura do Carnaval.

Pelos breves e incompletos relatos, torna-se possível entender que o ideal seria “fechar os olhos” e manter ambas as datas comemorativas. Até por ser a música popular brasileira muito ampla, abarcando com certeza perfis diversos e muitos talentos distintos e dignos de serem a ela associados.

26.09.2020

Francisco Alves, o Chico Viola

Bônus: música Corta-Jaca, um maxixe de Chiquinha Gonzaga e Machado Careca, interpretado por Lysia Condé, em show de lançamento de CD, em 2014. O local da gravação foi a Casa da Ribeira, em Natal, Rio Grande do Norte.