Eu moro em Porto Alegre, mas não nasci aqui. Sou um filho adotivo e orgulhoso desta nossa capital e, portanto, alguém que observa com profunda preocupação a situação na qual ela está mergulhada, nos últimos dias. Garanto que não se tratou de tentar fazer um trocadilho infame, uma vez que ela está literalmente debaixo d’água. Mas, esta é apenas uma forma de retratar verbalmente o quanto a situação impactou todos os seus habitantes.
Sei que as enchentes atingiram também e muito, outras regiões do Rio Grande do Sul. Como a Serra e os Vales, aliás dois locais onde também residi, ao longo da vida. Entretanto, tudo depois desemboca no Guaíba, que hoje chamam de lago, já chamaram de rio e se trata de certa forma quase que de um estuário. Porque ele e a Lagoa dos Patos se somam formando uma zona caracterizada como de concentração do fluxo das águas doces em seu caminho para chegar no mar.
A verdade é que o Guaíba recebe o que vem do Taquari, Jacuí, Antas, Gravataí, Sinos e tantos cursos d’água, que fazem aquilo que a maioria dos gaúchos também realiza em algum momento: se deslocar para uma simples visitação ou ficar numa Porto Alegre que se mostra apaixonante e acolhedora. Eu amo minha cidade e seus parques aprazíveis, como o Farroupilha, o Marinha do Brasil, o Germânia e o Moinhos de Vento, que já foi de todos; de praças como a Província de Shiga, da Alfândega, do DMAE e Japão. Que tinha o Estádio Olímpico e tem agora a Arena do Grêmio. Onde estão o Theatro São Pedro, a Casa de Cultura Mário Quintana, a Usina do Gasômetro e o Mercado Público. Amo muito a Porto Alegre do Orçamento Participativo, da Feira do Livro, do Fórum Social Mundial, do Brique da Redenção, das Feiras Ecológicas, das suas ruas que ainda resistem arborizadas, de seus cafés e livrarias.
É esse tesouro histórico, arquitetônico e cultural que está agora em parte ameaçado. Não porque São Pedro, justo o Padroeiro do Rio Grande do Sul, possa ter decidido unilateralmente punir seu povo, sabe-se lá por qual razão, com o envio de um volume de chuvas como nunca antes se viu. Também não se pode acreditar que seja uma vingança da Natureza contra a ação sistemática do homem, uma vez que ela não tem nenhum dos comezinhos sentimentos humanos. Ao contrário de todos nós, ela é absolutamente equilibrada e justa. Ou seja, suas reações são sempre lógicas, na mais pura aplicação da lei de causa e efeito. A suposta fúria que alguns atribuem a ela nada mais é do que a devolução, feita com a mesma intensidade, de agressão anterior que tenha sofrido.
O desmatamento na Amazônia, aplaudido por tantos hoje desabrigados, alterando todo o fluxo dos “rios aéreos”. A monocultura gaúcha, que é adotada em nome do lucro mais fácil, compactando o solo e dificultando a natural penetração da água da chuva no solo. A autorização para o plantio até tão perto das margens dos córregos que, para tanto, levou à retirada da mata ciliar, facilitando a queda de barrancos. O assoreamento dos leitos dos rios, justo por esse acúmulo de terra e entulhos, reduzindo sua profundidade e facilitando a expansão lateral, quando recebe mais água do que o normal. A agricultura desviando cursos para irrigação, muitas vezes de forma irregular e sacrificando um abastecimento que deveria priorizar o coletivo, para uso individual. O aquecimento global, com mais e mais dióxido de carbono sendo lançado na atmosfera pela indústria e nossos carros. As queimadas e o desmatamento sistemático e desnecessário.
Essas são “razões econômicas”. Mas, a irracionalidade tem grande apoio nas decisões políticas. As mesmas autoridades que agora aparecem em entrevistas, com jaquetas da Defesa Civil para aparentar preocupação e trabalho, propuseram e aprovaram leis que facilitam tudo isso que citei acima. Foi em Porto Alegre que nasceu a AGAPAN – Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, 53 anos atrás, com seu pioneirismo e lideranças visionárias, como José Lutzenberger. A partir dela, o nosso Estado se tornou modelo para o Brasil e o mundo, em termos de cuidado e legislação. Pois o atual governador, Eduardo Leite (PSDB), dizimou o Código Ambiental do Rio Grande do Sul, suprimindo ou alterando nada menos do que 480 pontos da lei. Foi por água abaixo a fiscalização, se tornaram desnecessários estudos de impacto para inúmeros projetos que afetam o meio ambiente. Ele também liberou o uso de agrotóxicos que são proibidos no exterior, ajudando a contaminar o solo e os lençóis freáticos, de onde aliás milhares de gaúchos retiram água para consumo.
Em Porto Alegre, onde as comportas de contenção existentes junto ao Muro da Mauá são essenciais para a segurança do Centro Histórico, assim como também são fundamentais os diques instalados em outros pontos da cidade, a manutenção não vem sendo realizada. Não eram antes e não voltaram a ser, mesmo depois do alerta dado pela enchente de setembro do ano passado, que já foi de uma dimensão preocupante, apesar de muito menos assustadora do que a atual. Também nenhum projeto de escoamento através da rede de esgotos recebeu atenção. Vários alertas de técnicos sobre esta imperiosa necessidade sequer foram ouvidos. Há bairros da cidade que alagam com qualquer chuvinha. Uma outra providência que o prefeito Sebastião Melo (MDB) segue achando desnecessária é a compra e instalação de geradores junto às casas de bombeamento, para assegurar o abastecimento de água potável para a população.
Enfim, aqueles que como eu seguem amando Porto Alegre terminam tendo que conviver com governantes que não têm o mesmo sentimento. Com lideranças sempre atentas em oportunidades que surgem – e isso acontece muito – no sentido de auxiliar grandes empreendimentos da construção civil, que rendem uma suposta notoriedade e talvez outras benesses não passíveis de divulgação. Precisamos dar um jeito de reconstruir nossa cidade, com o respeito coletivo para com o meio ambiente. Mas, faríamos isso com maior possibilidade de sucesso e perenidade se esses citados e os deputados, vereadores e até um senador que os apoiam fossem retirados do caminho. E isso, acreditem, depende de cada um de nós, não da Natureza e nem de São Pedro.
05.05.2024
P.S.: O deputado gaúcho Lucas Redecker (PSDB) foi o relator de um projeto aprovado em março deste ano, na CCJ da Câmara, que autoriza o desmatamento de mais de 48 milhões de hectares de “campos nativos”, uma área que equivale a soma dos estados do Rio Grande do Sul e do Paraná. Alguém ainda tem dúvida de que a crise climática não é obra do acaso?

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Algumas coisas que os gaúchos ainda não se deram conta, com respeito ao desmatamento da Amazônia para criar gado, plantar soja e explorar madeira e minerais:
– As inundações, como a que vivemos agora, que antes poderiam ocorrer uma vez a cada 80 anos, agora poderão ocorrer uma ou mais vezes por ano. Imagine perder tudo a cada ano!
– As inundações estão mais violentas e destruidoras, atingindo a todos, não atingem mais apenas as pessoas pobres e miseráveis das periferias. Quando atinge a classe média e aos abastados, tudo repercute mais e até aparecem mais voluntários, sabiam?
– Aquele imóvel caro, mas mais em conta, que você comprou, não era por acaso. Aquela construtora tão boa, não iria empreender em um lugar de risco, mas não é que fez?
– Os milhares de atingidos, conscientes do risco aumentado, tentarão se mudar, colocando seus imóveis à venda e não conseguirão vendê-los.
– Os preços dos imóveis de áreas mais seguras aumentarão, afinal, a solidariedade do gaúcho acabará nesta hora. Ou não?
– Os verdadeiros beneficiados com o desmatamento, almas iluminadas dos fazendeiros e espíritos de luz que são os empresários ricos, têm condições de se mudar para qualquer lugar. A maioria não.
– Se fôssemos parte de uma sociedade avançada, de ética evoluída, onde os políticos eleitos defendessem o interesse da população em primeiro lugar, ao invés dos interesses dos ricos apenas, mesmo que agora iniciássemos o reflorestamento com a reversão daquelas propriedades rurais, levaria décadas para consertar o estrago no clima. Já era!
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Que sorte!
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Excelente crônica – verdadeira!!! Porém, além de Eduardo Leite dizimando o Código Ambiental do RS, temos Sebastião Mello subordinando-se aos interesses econômicos e imobiliários autorizando verdadeiro desmatamento do Parque Harmonia e no Edital de Revitalização do Cais Mauá (publicado em 18 de setembro de 2023), autorizando e pode-se dizer determinando a derrubada do Muro da Mauá.
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Espero que a agora a sociedade porto-alegrense se dê conta das consequências e freie essas iniciativas danosas, João Gilberto. Além disso, existe a esperança das urnas, em outubro. Abraço!
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