O BEIJA-FLOR

Eu e minha irmã Maria Helena voltávamos de uma matinê – às vezes era um filme único, em outras ocasiões duas “atrações” em série –, no único cinema existente em Bom Jesus, minha pequena cidade natal, nos Campos de Cima da Serra, nordeste do Rio Grande do Sul. Tarde de um domingo qualquer, não faço a menor ideia de mês e ano. Um beija-flor passou voando na nossa frente e acabou se chocando contra um cabo preso a um poste, se estatelando no chão. Era tão bonito quanto frágil e ficou lá, asas abertas, jogado de costas na calçada. Apanhamos ele com todo o cuidado e levamos para casa. Acho que foi a primeira vez na vida que peguei uma criatura tão delicada nas mãos – eu ainda era uma criança e não passava pela minha cabeça o papel de pai: aproveitava a confortável situação de ser apenas filho.

Nossa mãe ficou tocada pela sensibilidade dos socorristas e ajudou a colocar a pequena ave numa caixa de sapatos. Até medicou, do modo que pode e entendia ser correto, a asa machucada. Ele ganhou ainda um recipiente com água e açúcar, ficando quieto por lá. Nós dois é que estávamos muito inquietos, querendo espiar o beija-flor o tempo todo. Não lembro com exatidão quanto isso demorou, mas acredito que uns dois ou três dias. Depois, ele foi conseguindo se movimentar aos poucos, criando coragem e readquirindo forças. No final, voou até o gradeado que existia na varanda, ficou algum tempo como se estivesse se despedindo e foi embora.

Outra vez tinha como visitar as flores da redondeza, cumprindo o seu destino. Nós ficamos orgulhosos, assim como devem ficar aqueles que hoje em dia lutam contra a destruição do meio ambiente e a preservação das espécies ameaçadas de extinção. Ou aqueles que trabalham duro e sob risco, tentando recuperar humanos hospitalizados, que não se chocaram contra o acaso, como o beija-flor, mas foram atropelados pelo descaso da vacinação atrasada e infectados pelo coronavírus.

Hoje eu sei que beija-flor é um nome popular e genérico. Na realidade denomina vários pássaros que constituem uma mesma família. E ela é numerosa: cerca de 360 espécies que se espalham desde o Alasca até a Terra do Fogo. Ou seja, do extremo norte ao extremo sul das Américas, apesar da imensa maioria estar concentrada junto aos trópicos. Metade deles estão no Brasil e no Equador. E, curiosamente, não existem no chamado “Velho Mundo”. Eles são todos como aquele que conheci tão de perto: pouco mais de seis ou sete centímetros e pesando apenas inacreditáveis quatro gramas, em média. Os mais gordinhos chegam a seis. Seus bicos são longos, para facilitar a extração do néctar das flores, a base de sua alimentação. E, para realizar esse trabalho, possuem uma língua bifurcada e extensível. Sua plumagem é de um verde metálico incomum e eles batem as asas com velocidade espantosa, conseguindo ficar parados no ar no momento em que realizam seu “trabalho” de polinização.

É incrível tudo o que se aprende na infância, mesmo que só venhamos a nos dar conta anos mais tarde, quando adultos. A emoção de encontros inesperados, a fragilidade da vida, a necessidade de cuidar dos outros tanto quanto de nós próprios e até mesmo as separações inevitáveis, mas que podem deixar marcas positivas. Tudo ali, passando na minha frente, como passaram na tela os filmes que eu e minha irmã fomos ver juntos. Mas deles eu não lembro nada.

29.09.2021

No bônus musical de hoje, Codinome Beija-Flor, de Cazuza. Quem canta no clip é Lucas Ricco, em gravação foi feita ao vivo em outubro de 2019, no Teatro CIEE, de Porto Alegre. Foi durante o show Tributo a Cazuza. Dante Júnior está na guitarra, André Sante nos teclados, Vico Grimberg no baixo e Mateus Mussatto na bateria.

ESTOU VIRANDO FÃ DOS URSOS

Ontem pela manhã, no momento em que acordei, os termômetros aqui em Porto Alegre marcavam três graus centígrados. Na minha cidade natal, que é Bom Jesus, na mesma madrugada também registraram três graus. Só que negativos. A sensação térmica, em ambos os locais, esteve abaixo de zero: -1,1 e -7,0 respectivamente. Você sai da cama por um lado e fica louco de vontade de voltar pelo outro. Mas, seria melhor mesmo se a gente pudesse hibernar, como fazem os ursos.

A hibernação é um processo biológico que permite a determinados animais ficarem de tal forma inativos, por um longo tempo, que as suas taxas metabólicas caem de maneira drástica. Ficam numa espécie de dormência, um recurso muito importante quando as condições do meio ambiente são extremamente desfavoráveis para eles, em geral devido ao frio e ao fato da alimentação ficar escassa. Mas é importante salientar que existem diferentes níveis nesse processo.

Algumas espécies têm apenas um adormecimento, como é o caso dos ursos e dos castores. Outras têm o que chamam de “letargo verdadeiro”, como acontece com determinados roedores, além de mamíferos como as toupeiras, os ornitorrincos e os morcegos. Os ursos, no entanto, se tornaram o exemplo mais conhecido. E eles conseguem ficar desse modo durante cinco a sete meses do ano. Como habitam o hemisfério norte, as temperaturas mais baixas ocorrem entre novembro e abril. Ao longo desses meses não se alimentam nem bebem água, não defecam nem urinam.

Depois de um bom café, aqui no meu escritório, fico ouvindo o assovio do vento contra ângulos do prédio. É um quase lamento que só não é mais triste do que o fato de tanta gente o enfrentar nas ruas, sem o abrigo e o agasalho que precisam. E torço para que ele ao menos me inspire como fez com Érico Veríssimo, que colocou o vento minuano no título da maior de suas muitas obras, O Tempo e o Vento. Ainda com a participação desse “elemento”, lembro de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Jane Brontë.

A primeira das obras citadas se trata de uma trilogia na qual o autor conta a saga das famílias Terra, Cambará, Caré e Amaral, desde a ocupação do Continente de São Pedro até o fim do Estado Novo. São 200 anos de história – de 1745 até 1945 –, sendo essa considerada a narrativa literária mais importante do Rio Grande do Sul. Já a escritora inglesa produziu uma história que faz um passeio sobre a transformação do caráter de seus personagens. Todos eles são expostos ao sofrimento e enfrentam ciúme, inveja, rejeição e morte. Algo bem apropriado para um clima ainda mais frio que o nosso, para um povo menos afetivo que o gaúcho.

Saindo desse breve passeio literário e voltando ao clima rigoroso da região sul do Brasil, que nos faz morrer de inveja do nordeste e suas maravilhosas praias, dias como hoje explicam muito bem as razões que levam nosso povo a correr para o litoral, mal a primavera dá as caras. Mesmo enfrentando por lá um mar marrom como meu casaco mais pesado e um soprar de areia contra as canelas que irrita tanto quanto as mães-d’água que sempre estão aguardando os corajosos banhistas. Como ainda falta muito tempo para isso, sigo aqui, como coloquei no título, cheio de inveja dos ursos dormindo em seus abrigos. Mas, como a minha “caverna” também é quentinha e meu edredom talvez nem tenha esfriado, pode ser que mais do que invejar eu possa imitá-los.

29.07.2021

No bônus musical de hoje, o áudio de Dia de Inverno, com a banda gaúcha Nenhum de Nós. A composição é de Carlos Stein e Thedy Corrêa.