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SENDO DA BOA, É DANADO DE BOM

Se alguém, neste brasilzão velho de Deus, convidar você para provar uma virgem, danada, imaculada, faz-xodó, penicilina, veneno ou perigosa, não se apoquente que não se trata de nenhuma proposta indecorosa. Se a sua maioridade já foi alcançada e a coisa for feita em local apropriado e com parcimônia, pode aceitar que não há problema. Esses são apenas sete dos mais de 400 nomes que já foram listados, em nosso país, para identificar a cachaça. Essa é uma bebida destilada, nascida aqui, mesmo sem ter registro de data e paternidade. Sabe-se apenas, por relatos, que isso aconteceu em algum engenho no nosso litoral, entre os anos de 1516 e 1532. No século XVI, portanto, o que a configura como sendo também o primeiro produto do gênero produzido na América Latina.

O período estimado se justifica através dos registros históricos que nos revelam que as primeiras mudas de cana de açúcar haviam chegado ao país entre 1502 e 1504, trazidas pelo navegador e explorador Gonçalo Coelho. E o primeiro engenho entrou em operação em 1515, na Feitoria de Itamaracá, que fora criada pelo Rei Dom Manuel, no litoral de Pernambuco. Depois deste pioneiro, em uma década e meia muitos outros entraram em operação.

Mesmo tendo surgido em terras coloniais de Portugal, se tem como certo que seu nome vem do espanhol cachaza, que significava uma bagaceira inferior, feita a partir da uva. O nome teria sido também aqui adotado, de modo pejorativo. Isso porque se tratava de um subproduto do açúcar. E também porque o seu consumo não era aceito nas classes altas, que se deliciavam com outras bebidas, consideradas de mais qualidade e que vinham de fora. O que não é mais a realidade atual, com a cachaça brasileira competindo sem problema algum com os melhores destilados de todo o mundo. Mesmo ainda habitando a parte inferior de balcões dos bares mais sórdidos, aquelas produzidas com o requinte tecnológico que agora existe, ocupam o alto de prateleiras de clubes e restaurantes que estão entre os mais caros e bem frequentados do mundo.

Hoje a cachaça tem denominação de origem, semelhante ao que fez a França com o champanhe e a Rússia com a vodka. Assim, a aguardente de cana só pode ser assim chamada se a sua procedência for o Brasil. E dentro do nosso país existem regiões determinadas, cada uma com sua característica, sendo também editado um ranking que as classificam de acordo com a qualidade alcançada. Também são consideradas a matéria prima e sua excelência, o tempo de envelhecimento e o uso de barris de madeiras especiais, como carvalho, amburana, bálsamo e canela. Uma listagem recente, apesar da merecida fama das mineiras e das feitas no interior de São Paulo, deu ao Rio Grande do Sul destaque a três delas de Ivoti e uma de Bento Gonçalves.

Isso posto, nada de ter vergonha de receber amigos com uma pinga. Se eles forem do exterior, podem até se surpreender, mas jamais sairão decepcionados. O mais difícil talvez seja explicar a eles que poderão pedir a mesma bebida usando expressões tão variadas. Branquinha e branca, pura e purinha, água-benta, amorosa, apaga-tristeza, bichinha, birita, braba, canha, capote-de-pobre, concentrada, cura-tudo, dindinha, dormideira, elixir, fogosa, forra-peito, grogue, januária, limpa-goela, lisa, mamadeira, mijo-de-cão, sete-virtudes, suor-de-alambique, talagada, tome-juízo e urina-de-santo. Só um último detalhe: se for beber em casa a pessoa fica dispensada de derramar um bocadinho no chão antes, para o santo. E, aqui entre nós, se fosse esse mesmo o destino dessas gotas desperdiçadas, lá no céu teríamos só pinguços.

07.10.2022

A cachaça brasileira alcançou qualidade apurada

O bônus de hoje é Moda da Pinga (também conhecida como Marvada Pinga), música de autoria de Laureano e imortalizada na voz de Inezita Barroso. Esse clipe é com Bruna Viola.

Esse blog recomenda que seus leitores conheçam o site da Rede Estação Democracia. Acesso através do link abaixo.

https://red.org.br/