Assisti a um vídeo desses que ocupam as redes sociais e a nossa atenção, aparentemente sem propósito algum. Mas, seu conteúdo me pareceu tão absurdo que fui pesquisar se havia naquilo algum fundo de verdade. E, para minha surpresa, existia sim. A imagem mostrava uma pessoa segurando uma galinha enquanto outra, com um giz, traçava uma linha reta no chão, a partir do bico da ave. Após isso, ela era solta e reagia como se estivesse hipnotizada. Se acocorava no mesmo ponto, olhar fixo no traço, ficando tão imóvel que parecia estar morta.

Há uma explicação científica para o fato, que é um fenômeno real e tem o nome de “imobilidade tônica”. Embora pareça um truque de “hipnose”, a explicação é bem menos mágica e um tanto mais instintiva. Trata-se de um estado natural de paralisia temporária, usado por alguns animais na natureza. A tanatose (farsa da morte) é uma espécie de última linha de defesa, quando um predador captura sua presa. Esta, se fingindo de morta, consegue muitas vezes que o agressor afrouxe o aperto que seria fatal, justo por acreditar não ser mais necessário, uma vez que esta já estaria morta. Isso também ocorre porque muitos carnívoros evitam as carcaças por instinto, devido ao risco de doenças. E o breve momento de distração dá tempo e chance de ser tentada uma fuga.

No caso específico esse narrado, da galinha, a linha desenhada no chão serve como um estímulo sensorial de foco. Ao forçar que ela olhe para um ponto fixo e linear que parte de seu bico, você cria uma sobrecarga sensorial ou um foco visual extremo que o cérebro da ave interpreta como uma ameaça direta e inevitável. A linha “prende” a sua atenção de tal forma que o sistema nervoso entra em um colapso momentâneo, que aciona o medo paralisante. Diferente de um estado de relaxamento, a galinha está, na verdade, sob alto estresse. O coração dela continua batendo rápido e ela permanece em alerta máximo, embora o corpo não responda. É o famoso mecanismo de “luta ou fuga” que, ao ser levado ao extremo, resulta no “congelamento”.

A ave sai desse estado assim que o estímulo – a linha – é removido ou quando ela percebe que o ambiente está seguro novamente. Em geral, basta um estalo de dedos ou um movimento brusco por perto para que ela “acorde” do transe. Agora, esse efeito não é exclusivo de galinhas. Tubarões (quando virados de barriga para cima), coelhos e até alguns répteis apresentam reações similares de imobilidade tônica em ocasiões nas quais são colocados em posições específicas ou então submetidos a algum estímulo sensorial estranho.

No Brasil – e em alguns outros países, para sermos honestos – surgiram pessoas que foram incapacitadas por uma linha, nos últimos tempos. Ela não é física, mas foi traçada com o uso de um recurso psicológico perverso, de dominação. Não paralisa o sistema nervoso central, mas a capacidade cognitiva. Não deixa ninguém imóvel: ao contrário disso, faz com que as pessoas adotem comportamentos de alta excitação e pouca lógica, desorienta. Suas vítimas passam a ver coisas inexistentes como chips em vacinas, plantações de maconha nas universidades, Ets que se preocupam com eleições na Terra – que se tornou plana – e honestidade em quem compra dezenas imóveis sem possuir capacidade financeira compatível e pagando em dinheiro vivo. Mas, não enxergam culpa em quem, por total negligência, deixa morrer milhares de pessoas em uma pandemia.

Essa linha é virtual: amarra e neutraliza neurônios por meio de redes sociais e templos que, de cristãos, só têm o nome. Aliás, convence muitos de que rezar para pneus é lúcido e compreensível; de que patriota é quem faz de tudo para vender — e barato — a nação; de que luta pela família quem não respeita nem a sua própria; de que se defende a liberdade depredando; e de que se é corajoso quando se foge para o exterior. A certeza de que nenhum dos escravizados mentalmente se livrará dos ‘grilhões’ é tanta que, agora, há quem apresente um programa de governo baseado na destruição do poder de compra do salário mínimo e na retirada de recursos da saúde e da educação, sem temor algum de que boa parte da classe trabalhadora deixe de votar em quem antecipa esse absurdo — mesmo com isso a afetando direta e profundamente.

Lembro agora do meu amigo Augusto Franke Bier, jornalista e cartunista de mão-cheia. Dividimos por um período um apartamento, em época na qual trabalhamos juntos em um jornal no interior gaúcho. Quando por ventura surpreendido ao encontrar uma pessoa – digamos – de poucas luzes, ele comentava depois, mantendo discrição e elegância: “Se transplantassem o cérebro desse cara para uma galinha, ela ficaria retardada.” Quem diria que muitos anos depois se encontraria tanto cérebro de galinha em corpos de humanos.

24.04.2026

O bônus de hoje é clipe do Supertramp, com a música The Logical Song. Ela narra a jornada de alguém que foi ensinado a ser “lógico e responsável”, mas vê o mundo se tornar um lugar onde as perguntas fundamentais são substituídas por categorias e rótulos vazios. A letra sublinha o contraste entre a educação e a perda da capacidade de pensar por si mesmo, capturando a tristeza de ver neurônios “amarrados” por dogmas e fanatismos.


Descubra mais sobre VIRTUALIDADES

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário