E QUEREM QUE A GENTE TENHA JUÍZO

Um vídeo de humor, encontrado nas redes sociais, faz uma brincadeira dizendo que é impossível que todos nós, adultos de agora e com boa idade, sejamos alguém com algum juízo. E baseia a afirmação em um apanhado que faz, citando as nossas referências de infância. Os gibis que se lia, os desenhos animados que se assistia. Fala, por exemplo, que o Tarzan vivia pelado, a Cinderela chegava em casa depois da meia-noite, Aladim era um ladrão, a Branca de Neve morava com sete homens, que Mickey nunca casava com a Minnie e nem o Donald com a Margarida, que o Gastão vivia da sorte e o Dick Vigarista de falcatruas. E tinha o Popeye, que fumava cachimbo e consumia uma erva que o deixava muito louco. Entre os desenhos brasileiros, a Mônica batia nos meninos, o Cascão não tomava banho e a Magali tinha sérios distúrbios alimentares.

Muitos outros casos semelhantes eu ainda poderia acrescentar aqui, nos quais não apenas a conduta dos “bandidos” era evidentemente errada, como também a de muitos dos “mocinhos”. E tudo isso que é mostrado no vídeo corresponde à verdade, o que não impediu que a gente tenha agora um comportamento que beira o aceitável. Só não vou dizer que nos tornamos pessoas de bem, porque isso pega mal. Então, será que referências não são tudo o que se imagina ou se tinha, na época, uma boa percepção do que era a realidade e a ficção? Porque hoje em dia, podem acreditar, essa noção está cada vez mais difícil. Muito graças às fake news, à degradação do sistema de ensino e ao hábito da leitura estar mais do que nunca sendo esquecido. Nos últimos quatro anos foram fechadas 800 bibliotecas no país. As editoras lutam pela sua sobrevivência. Grandes livrarias estão em processo falimentar. Afinal, porque perder tempo com textos que fazem pensar, quando o que de fato interessa está nos grupos de WhatsApp?

Atualmente a impressão que se tem é que essas duas – realidade e ficção – são como irmãs siamesas e estão coladas pela cabeça. Mas não me refiro à ficção qualificada, produzida por tantos grandes escritores. Pouco importa hoje tanto a prosa quanto o verso. Nada de Clarice Lispector, Kafka, Machado de Assis, Cervantes, Guimarães Rosa, William Shakespeare, Drummond, Charles Dickens, Virginia Woolf, Érico Veríssimo, Edgar Allan Poe, Cecília Meirelles e tantos outros e outras. As mãos desprovidas de livros fazem arminhas com os seus dedos. E a ficção que toma corpo é da maldade programada, da violência institucionalizada, da desesperança como recurso e da morte do sistema e das pessoas como fim. Sem ninguém vindo de Krypton para nos salvar, sem nenhum Homem-Morcego para circular nos becos escurecidos pela ignorância. Sem sequer aquela inteligência quase ingênua de João Grilo e Chicó, dois personagens de O Auto da Compadecida, obra do admirável Ariano Suassuna. São eles dois nordestinos pobres que vivem de pequenos golpes, numa eterna e necessária luta pela sobrevivência. O golpe que agora se teme é outro, nada inocente.

O fantástico nos últimos tempos não está em seres alados, em animais falantes. Ele agora habita espaços no imaginário, com mamadeiras em formato de acessórios sexuais ou uma divindade falando com sua escolhida, ao mesmo tempo em que saboreia uma deliciosa fruta tropical, lá em cima da dita árvore. Porque, afinal, deve ter sido por isso que subiu nela. E não era uma maçã, como aquela mordida inadvertidamente por Eva, a primeira das mulheres que, por ter vindo ao mundo muito antes da moda e dos pudores, circulava livremente e nua. Como a interlocutora na certa gostaria muito de fazer, sendo seus impulsos freados pela moral e os bons costumes. Diante de tudo isso e muito mais, como pretender que a gente tenha juízo?

07.08.2022

O bônus musical de hoje é Balada do Louco, com Rita Lee e participação de Armandinho.

DICA DE LEITURA

ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ

José Saramago – 328 páginas – R$ 38,10

Num país imaginário, um fenômeno eleitoral inusitado detona uma séria crise política: ao término das apurações, descobre-se um espantoso número de votos em branco – uma “epidemia branca” que remete ao Ensaio sobre a Cegueira (1995), do mesmo autor. Neste romance, José Saramago faz uma alegoria sobre a fragilidade do sistema político e das instituições que nos governam.

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CUIDADO COM O QUE VOCÊ PEDE

Não posso afirmar com convicção se “é verdade esse bilhete”, como foi posto tempos atrás pelo menino que escreveu mensagem para sua professora, em nome de seu pai, tendo “assinado” brilhantemente dessa forma. Ainda mais em tempos de pós-verdade, como agora. Mas a foto está lá, estampada na mensagem que viralizou nas redes sociais, sendo ou não a reprodução de um fato. Entretanto, como isso foi reproduzido inclusive por respeitáveis sites de notícias, se pode acreditar que tenha sido real a história. E ela merece ser contada e comentada. Ou recontada, uma vez que não se trata de algo assim tão recente.

A pessoa teria notado que um vizinho ou vizinha em um condomínio em Brasília havia deixado os faróis do carro ligado, na garagem do prédio. Quando se preparava para ligar avisando, se deparou com um adesivo no mesmo veículo, reivindicando o “voto impresso auditável”. Então, tratou de avisar de um outro modo quem se descuidara: deixando um recado por escrito preso junto ao limpador do para-brisa. No próximo parágrafo, a reprodução exata da mensagem.

Me preocupei com as luzes acesas do seu carro, pois elas consumiriam sua bateria e demandaria uma ‘chupeta’ ou até mesmo a troca se não fossem desligadas. Quando fui perguntar ao porteiro em qual apartamento o senhor morava, notei o adesivo. Por isso, ao invés de optar pela notificação por meios eletrônicos (interfone, ligação telefônica, SMS ou WhatsApp), decidi atender aos seus anseios e deixar esse aviso impresso auditável para o que o senhor não se sentisse enganado, ou que seria um trote. Espero que esse aviso o encontre a tempo de ser evitado o esgotamento de sua bateria”.

Essa situação hilária serve para ilustrar o quanto pode ser contraditório esse pedido, que andava meio esquecido, mas agora deve voltar com força, conforme se aproxima o pleito e a derrocada. A começar pela confusão mais óbvia: quem acusa ter havido fraude nas eleições que tiraram Trump do poder, nos EUA, realizada naquele país com cédulas em papel e não com urnas eletrônicas, jura que aqui o problema aconteceu e voltará a acontecer porque é feita com urnas eletrônicas e não com cédulas em papel. Um autêntico “dançar conforme a música”. Ou vociferar conforme os interesses.

Se tem algo que o morador aquele de Brasília não pode reclamar é que seu desejo não tenha sido atendido. Muito provavelmente essa sua vontade esteja expressa também em suas redes sociais e nas conversas que mantêm com outras pessoas. Ele é um convicto, mesmo que sua convicção seja em algo absurdo. Também é provável que ele tenha que se cuidar, quando dirigir aquele seu carro ou qualquer outro, para não chegar muito perto da borda da terra plana que deve acreditar existir.

Muitas pessoas de razoável fé e boa leitura já devem ter visto em algum lugar aquela clássica recomendação de que devemos ter cuidado ao expressar nosso desejo, pois pode ser que Deus o atenda. E algo impensado, uma coisa que no fundo não seria boa para nós, pode escapar da mente e da boca, se materializando. Daí, não adianta se lamentar depois, pois as consequências virão. Nada de ficar culpando o Universo se, por exemplo, o candidato eleito se revelar logo depois de eleito uma fraude absoluta. A atual escolha errada foi feita com as teclas das urnas eletrônicas. E teria sido igualmente equivocada tivesse ela brotado do antigo e superado sistema de cédulas de papel, esse sim muito fácil de permitir adulteração de resultados.

02.07.2022

O bilhete deixado para o vizinho, para servir de lição

O bônus de hoje é Creedence Clearwater Revival, com a música Long As I Can See The Light (Enquanto Eu Puder Ver a Luz). Retrata uma época na qual andar de motocicleta em grupo não associava ninguém ao fascismo bolsonarista. Essa banda de rock californiana formada por John Fogerty, Tom Fogerty, Stu Cook e Doug Clifford tocava com a mesma formação original desde 1959, mas teve outras denominações antes. Com esse nome, manteve-se em atividade entre 1967 e 1972, sempre com enorme sucesso. Ao longo da carreira conquistaram nove discos de ouro e sete de platina, vendendo apenas nos EUA mais de 26 milhões de cópias de seus singles e álbuns.

DICA DE LEITURA

COMO AS DEMOCRACIAS MORREM, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt

(272 páginas – R$ 46,99)

Essa é uma análise crua e perturbadora das ameaças às democracias em todo o mundo.

Democracias tradicionais entram em colapso? Essa é a questão que Steven Levitsky e Daniel Ziblatt – dois conceituados professores de Harvard – respondem ao discutir o modo como a eleição de Donald Trump se tornou possível.
Para isso os autores comparam o caso de Trump com exemplos históricos de rompimento da democracia nos últimos cem anos: da ascensão de Hitler e Mussolini nos anos 1930 à atual onda populista de extrema-direita na Europa, passando pelas ditaduras militares da América Latina dos anos 1970. E alertam: a democracia atualmente não termina com uma ruptura violenta nos moldes de uma revolução ou de um golpe militar; agora, a escalada do autoritarismo se dá com o enfraquecimento lento e constante de instituições críticas – como o judiciário e a imprensa – e a erosão gradual de normas políticas de longa data.
Sucesso de público e de crítica nos Estados Unidos e na Europa, esta é uma obra fundamental para o momento conturbado que vivemos no Brasil e em boa parte do mundo e um guia indispensável para manter e recuperar democracias ameaçadas.

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