NENHUMA KAREN REAL TEM CULPA
Isso é resultado da cultura dos memes, que invadiu o mundo todo com os celulares e a bisbilhotice. E surgiu nos Estados Unidos, como tantas outras coisas sem relevância e noção. De uma hora para outra o termo Karen passou a identificar pessoas supostamente descompensadas, do sexo feminino. Primeiro ponto, antes que me acusem de misoginia: sei perfeitamente que sair da casinha não é exclusividade de nenhum gênero. Estou apenas contando um fato, o surgimento de uma gíria pejorativa, que inclusive considero absurda.
Com ela é designada uma mulher que, em geral, termina sendo descrita como branca e seguidamente de meia-idade – ou pelo menos adulta –, que se comporta de maneira arrogante e autoritária, que se mostra excessivamente exigente ou indignada, mesmo em situações banais de atendimento ou convivência social. O estereótipo clássico é o da mulher que exige “falar com o gerente” por um problema trivial; faz uma cena pública desproporcional; trata funcionários com superioridade; acredita ter direito a tratamento especial; e tenta impor regras aos outros.
Com o tempo, o uso se ampliou mais. Em vídeos de redes sociais, por exemplo, alguém pode chamar uma mulher de “Karen” simplesmente porque ela está protagonizando um acesso de raiva ou uma discussão pública considerada absurda. Daí sua associação com alguém que parece “descontrolada”. E vejam: ficar com raiva e discutir nem sempre é algo errado, se bem que em geral não é recomendável. Entretanto, esse enquadramento se dá quando quem assiste considera absurda a motivação para o fato. O que não passa de um julgamento.
Portanto, numa tradução cultural aproximada, pode-se dizer que uma Karen seria uma mulher encrenqueira, autoritária e escandalosa. O que vai além de apenas emocionalmente comprometida. Agora, ainda há uma controvérsia interessante: se pode dizer que o termo é sexista, uma vez que ele pode ser usado indiscriminadamente para ridicularizar mulheres que reclamam ou protestam de forma legítima. Mas, ao mesmo tempo, há quem entenda que ele descreve especificamente aquele tipo de comportamento abusivo citado antes.
Agora, por que razão uma mulher inconveniente ganha um nome próprio depreciativo que se populariza mundialmente, enquanto um homem que age da mesma maneira não recebe um rótulo igualmente difundido? Essa diferença diz muito sobre a desigualdade com que a sociedade costuma julgar homens e mulheres. E não é por falta da existência de apelidos depreciativos para o gênero. Também nos EUA surgiram nomes – no plural, porque são vários – para identificar indivíduos arrogantes, inconvenientes ou descontrolados. Só que nenhum deles alcançou a mesma popularidade ou universalidade.
Por lá, chamam de “Ken” o homem arrogante e autoritário que, em geral, exige privilégios e cria conflitos por motivos banais. De “Kevin”, aquele que é inconveniente, ignorante ou incapaz de perceber o absurdo do próprio comportamento. E de “Kyle” aquele que, geralmente jovem, se mostra agressivo, imaturo e propenso a explosões de raiva.
Voltando ao relatado na abertura, há uma vítima colateral nessa história toda. Ou melhor, milhares delas. São as mulheres que realmente se chamam Karen e que, sem terem feito nada para merecer, passaram a carregar um nome transformado em motivo de deboche. Imaginem uma mulher educada, gentil, discreta, que nunca levantou a voz para um garçom ou exigiu falar com o gerente de coisa alguma. Pois basta que ela se apresente para correr o risco de provocar um sorriso malicioso. Como se o nome que seus pais escolheram, provavelmente com carinho, fosse uma espécie de atestado de mau caráter. Aqui no Brasil isso ainda não atingiu o peso que tem no norte. Mas, como se imita tudo, seja ou não algo positivo, não duvide que se ampliará em breve e muito.
E há algo de especialmente estúpido nisso tudo. Ninguém escolhe o nome que recebe ao nascer, mas pode acabar tendo de dar explicações por ele durante a vida inteira. A internet, essa extraordinária invenção que nos permite conhecer o mundo sem sair de casa, também consegue a proeza de transformar uma pessoa em piada. E o pior é que a brincadeira pode sobreviver por muito tempo à graça que um dia pretendeu ter. Portanto, se você conhece alguma Karen, trate-a pelo nome, sem preconceitos ou risadinhas. Afinal, nenhuma Karen real tem culpa.
31.10.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é a irreverente Pagu, composta em parceria por Rita Lee e Zélia Duncan. Ela foi lançada em 2000, no álbum “3001”, de Rita Lee. No vídeo a seguir, ambas interpretam a música ao vivo.