LIMPOL É DE ESQUERDA
Muita publicidade produzida nos anos 1970 e 1980 não poderia de modo algum ser veiculada nos dias de hoje. Porque os costumes mudaram e há uma fiscalização muitas vezes feroz exigindo alteração de padrões que, admito, não raramente eram de fato inadequados. Exemplos clássicos podem ser citados: em 1974, a General Electric publicou anúncio na revista Manchete promovendo a venda de eletrodomésticos, e a peça colocava explicitamente que, além de comida e casa boas, o homem deveria ter uma mulher bonita e não uma “nem tanto”. Atualmente seria um fracasso absoluto em termos de venda.
Pelo menos cinco transformações de sensibilidade se consolidaram e não têm mais volta — o que ao menos mostra um tantinho de evolução nossa. Negros necessariamente associados a posições subalternas, mulheres apresentadas como de intelecto inferior ou como objeto sexual, a homossexualidade sendo motivo de piada e comportamentos nocivos — como fumar e beber — mostrados como símbolos de sucesso, sofisticação e virilidade. Aliás, a publicidade de cigarros foi literalmente banida. Inclusive o garoto-propaganda da Marlboro morreu de câncer, não porque o anúncio deixou de circular, mas como prova de que boa saúde e fumo não andam de braços dados.
Na contramão dessas mudanças, no entanto, tem surgido um problema diferente e alarmante. Refiro-me ao “patrulhamento ideológico”. A pressão de agora é sobre “de que lado está a empresa” — sobre alguma referência qualquer que, mesmo falsamente, aponte nesse sentido. E se não existe mais o preconceito escancarado, ele parece estar dando lugar à burrice. Com as Havaianas sugerindo que as pessoas não entrassem no ano novo com o pé direito apenas, mas com os dois pés — como quem arromba a porta, vai com tudo, acredita em si —, a extrema-direita entendeu que isso era uma mensagem subliminar para valorizar a perna esquerda. Pior do que essa insanidade, tratou de desencadear uma campanha para que não se comprassem os chinelos. Pensei aqui, com os meus botões: devem em breve fazer outro apelo, no sentido de que casados não usem mais suas alianças na mão esquerda.
Uma marca de produtos de limpeza teve que recolher lotes que estavam contaminados, segundo o bom trabalho da Vigilância Sanitária, e os mesmos malucos disseram ser perseguição, porque os proprietários da empresa haviam financiado a campanha de Jair Bolsonaro. Teve gente que fez vídeo — falso, evidentemente — bebendo detergente de coco, em tese para mostrar que eles eram seguros. Nada de todo absurdo para quem já usou Cloroquina e Ivermectina para combater o vírus da Covid.
Lembrei disso tudo porque uma das minhas manias é procurar anúncios antigos na internet. Fazia isso para usá-los quando dava aulas, algum tempo atrás, e não perdi o hábito. Foi assim que me deparei com um feito para a Bombril. Era um dos quase 400 anúncios protagonizados pelo ator Carlos Moreno, entre 1978 e 2004, para inúmeros produtos que a marca tinha e tem no mercado. O personagem havia sido criado pela agência DPZ e os textos seguidamente eram paródias, como neste caso. Agora, ironia das ironias, era do detergente Limpol, concorrente direto do recém-recolhido Ypê. Pior ainda: Moreno o recomendava vestido como se fosse Che Guevara. Ou seja, a piada pronta, o contraponto perfeito. Um deles para as cozinhas da extrema-direita e outro para as da esquerda. Tudo para que os delirantes mais delirem.
No fim das contas, a polarização já esteve calçada na areia das nossas praias e chegou ao balcão da pia. O consumidor radical agora precisa checar a ficha partidária do fabricante antes de lavar uma frigideira. Até descanso e faxina viraram palanques. Muitos rótulos talvez tenham que trazer informações adicionais, além de fórmulas e prazos de validade. Assim, em breve nem mais sabão neutro poderá alegar neutralidade. E as gôndolas dos supermercados serão trincheiras na campanha eleitoral que se avizinha.
11.08.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é o vídeo do anúncio da Bombril feito para seu produto Limpol, conforme relata a crônica.