A ESPERANÇA E A DESESPERANÇA

Na década de 1950 o psicólogo estadunidense Curt Richter conduziu um experimento surpreendente. Ele colocava ratos em tubos longos cheios de água, dos quais não conseguiam fugir. Os animais  precisavam nadar continuamente, numa luta extenuante para manter a própria vida. A resistência não durava muito, com a exaustão os levando a abandonar a luta. Entretanto, algo notável foi constatado.

Algumas das cobaias, retiradas da água antes do esgotamento fatal, eram então secas, descansavam por um breve período e depois voltavam aos recipientes. Nessas condições, passavam a nadar por um tempo muito maior. Relatos apontam para casos nos quais suportaram horas, contra a média de minutos dos demais ratos, não retirados.

A interpretação que foi dada por Richter foi que a experiência prévia, de terem sido resgatados, lhes dava uma expectativa de que um novo salvamento iria acontecer. Bastava, portanto, que resistissem mais, suportando até que ele chegasse. Em outras palavras, esses ratos passavam a ser movidos por esperança, o que explicaria o aumento drástico de sua resistência. 

Outros pesquisadores, que se mostram céticos diante dessa explicação, tentaram encontrar justificativas diferentes para o fenômeno registrado no laboratório. Preferiam dizer que tal fato poderia envolver uma simples adaptação fisiológica ao estresse ou economia de energia, por exemplo. Os relutantes se opunham à interpretação de cunho psicológico. Mesmo assim, como não conseguiram comprovar essas outras hipóteses, tiveram que se dobrar a um dos exemplos mais conhecidos e utilizados desde então pela psicologia, quando essa deseja ilustrar a influência da expectativa sobre o comportamento.

Essa “Teoria da Esperança” sugere que também os seres humanos são capazes de suportar dificuldades extraordinárias quando acreditam que existe alguma possibilidade de mudança. Em guerras, prisões, doenças graves ou crises econômicas, a percepção de que ainda há uma chance costuma aumentar a persistência. Essa interpretação não pode, entretanto, deixar de considerar que somos muito mais complexos do que ratos – pelo menos a maioria de nós. Nossa resistência depende de inúmeros fatores, entre eles o apoio social, personalidade, saúde física, o significado atribuído à situação e recursos disponíveis.

Curiosamente, alguns anos depois outro psicólogo estadunidense, Martin Seligman, desenvolveu uma teoria oposta. Também realizando experimentos com animais, no seu caso cães, que eram expostos de modo repetitivo a situações dolorosas e incontroláveis, verificou que muitos deixavam de tentar escapar, mesmo quando a fuga era possível. Ficavam suportando o desconforto, imóveis.

A “Teoria da Desesperança” ou “Teoria da Impotência Aprendida” também teve aplicação sobre as pessoas, com o uso do conceito para explicar comportamentos. Assim, fracassos sucessivos, desemprego prolongado, violência doméstica, pobreza persistente, doenças crônicas, bullying e autoritarismo, entre outros fatores, seriam estados que aumentariam o risco de depressão, ansiedade e desmotivação. E seria comum muitos nem sequer lutarem para superar essas limitações.

Como se vê, a maior descoberta desses dois psicólogos não foi sobre ratos ou cães, mas sobre nós mesmos. Em determinados momentos da vida, basta uma pequena evidência de que vale a pena continuar para encontrarmos forças que nem imaginávamos possuir. Em outros, sucessivas derrotas podem nos convencer de que qualquer esforço será inútil. Sobre a esperança de Richter e a desesperança de Seligman, passamos todos os dias oscilando entre uma e outra, fazendo escolhas conscientes ou inconscientes. Agora, talvez a mais importante delas seja nunca permitir que a última experiência determine definitivamente a próxima.

01.08.2026

P.S.: A ilustração que acompanha essa crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é a música Cobaias de Deus, de Cazuza.