COELHOS, CONEJOS, RABBITS, LAPINS, CONIGLI

O meu tio Chico, irmão mais velho da minha mãe, criava coelhos. Eu era uma criança quando os vi de perto pela primeira vez, no pátio da casa dele. Me assombrei com a beleza e a docilidade dos bichinhos. E fiquei chocado ao saber que ele os criava para abate. Eu sabia que isso era feito com galinhas: tínhamos algumas nos fundos da minha casa, em Bom Jesus. Mas, nunca imaginara que o seu destino poderia ser igual. Também fiquei surpreso quando ele me contou que os coelhos de forma alguma podiam comer as salsas que ele tinha em canteiros, com outros temperos e hortaliças. Isso porque morreriam, se as comessem.

Levei muito anos para descobrir que essa era uma verdade relativa e não absoluta. A salsa (Petroselinum crispum) não é venenosa para coelhos e pode, inclusive, fazer parte da alimentação deles. O problema está na quantidade e na frequência do consumo, não na planta em si. Ou seja, aqueles coelhos específicos não podiam era se empanturrar com o produto. Rica em cálcio e com relativa concentração de óleos essenciais, se consumidas por um período longo ou em excesso, considerado o metabolismo sensível dos coelhos para com esse elemento, isso pode levá-los à morte. Mas, jamais sendo morte súbita. Eles aos poucos iriam desenvolver cálculos urinários e teriam problemas renais.

Sendo justo, essa ideia não era exclusiva do tio Chico. O mito de fato existe e deve decorrer da confusão com outras plantas tóxicas para eles ou da generalização exagerada quanto à alimentos ricos em cálcio. As que os podem matar são Euphorbia pulcherrima (bico-de-papagaio), Dieffenbachia (comigo-ninguém-pode), Nerium oleander (espirradeira), Sansevieria trifasciata (espada-de-São-Jorge), vários tipos de lírios, as folhas e brotos de batatas, além da Ricinus communis (mamona) – ou seja, para eles as mamonas são realmente assassinas. Os sintomas de intoxicação em coelhos são falta de apetite, letargia, diarreia, salivação excessiva, tremores e dificuldade respiratória. Uma das dificuldades para diagnóstico é que coelhos não vomitam, então seus sinais digestivos em geral são sutis e podem evoluir rápido.

Historicamente, o coelho tem uma simbologia que atravessa milênios e culturas, quase sempre ligando sua figura a três eixos principais. São eles a fertilidade, a renovação e a astúcia. Mas, dependendo da época e do local, também foi muitas vezes associado com medo, fragilidade e até mesmo transcendência espiritual. No Egito Antigo, por exemplo, estava associado à renovação da vida e ao ciclo lunar, devido à reprodução muito rápida e seus hábitos noturnos. Existem registros de coelhos (ou lebres) como hieróglifos ligados à ideia da existência, do ser. Por outro lado, na Grécia Antiga e em Roma, por contingência, o animal era ligado a Afrodite, a deusa do amor e da fertilidade. Deste modo, era visto como símbolo do desejo erótico e do vigor sexual. Oferecer um coelho chegou a ser considerado um gesto de cortejo amoroso.

Os celtas acreditavam que os coelhos transitavam entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, sendo ambíguos: ora sagrados, ora ligados a feitiços. Na mitologia chinesa até hoje têm imagem fortíssima, especialmente no Festival do Meio-Outono. Haveria o famoso Coelho de Jade, vivendo na Lua ao lado da deusa Chang’e, preparando o elixir da imortalidade e da pureza espiritual. E para os povos da América do Norte, o coelho é um trickster (trapaceiro), semelhante ao coiote. Ele simboliza inteligência prática, astúcia e capacidade de sobreviver, apesar de sua fragilidade física.

Mais ou menos na mesma época na qual conheci os coelhinhos do meu tio Chico, me interessava também e muito o coelho da Páscoa. Nesse caso, não pelo bicho em si, mas pelos chocolates que ele me trazia. O que ainda hoje adoro consumir, mesmo que sua “fonte” não seja mais nenhum ninho e sim lojas especializadas, capazes de satisfazer essa minha necessidade saborosa. Aliás, a Páscoa cristã tem sua origem na tradição judaica do Pessach (passagem). E, no cristianismo primitivo, o seu foco era litúrgico e teológico. Sua associação com outros símbolos aconteceu gradualmente na Europa medieval, quando suas festas passaram a incorporar elementos culturais locais.

O coelho pascal tem sua primeira menção documentada na Alemanha protestante do século XVII. Em 1682, o médico alemão Georg Franck von Franckenau descreveu a tradição do Osterhase — o coelho que trazia ovos para crianças bem-comportadas. O bicho “botava” ovos pintados e os depositava em ninhos que elas faziam para recebê-los. Com o tempo passaram a ser de açúcar e depois de chocolate. Isso foi ótimo para a indústria confeiteira, que consolidou o bicho como um ícone comercial no século XIX. Amanhã, espero que ele apareça por aqui.

02.04.2026

O bônus de hoje é a música Run, Rabbit, Run (Corra, Coelho, Corra), de Noel Gay e Ralph Butler, lançada em 1939. Embora pareça uma música infantil inofensiva, ela carrega um contexto histórico fascinante e uma longevidade impressionante na cultura pop. Ela fazia parte de uma revista musical londrina chamada The Little Dog Laughed. No entanto, se tornou um fenômeno de propaganda e resistência durante a Segunda Guerra Mundial. Sua letra foi adaptada para zombar da Luftwaffe (a força aérea alemã). Quando os aviões inimigos faziam incursões ineficazes sobre o território britânico, os civis cantavam Run, Adolf, Run (Corra, Adolf, Corra). Da letra original, o coelho que corre do fazendeiro para não virar ingrediente de um ensopado, tornou-se uma metáfora para a suposta “covardia” ou falta de sucesso dos ataques nazistas.

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