LULA NÃO, DITADOR AFRICANO SIM

O Código Penal tipifica o crime de homicídio como podendo ser doloso ou culposo. No primeiro caso estão aqueles em que comprovadamente há intenção de matar. O autor pode ter premeditado o crime ou ter agido no momento, querendo o resultado morte. Também se enquadra como doloso quando a pessoa, mesmo não desejando diretamente matar, assume o risco de que a consequência de sua conduta seja a morte de alguém.

No segundo caso, quem tirou a vida não pretendia que esse fosse o desfecho da situação, nem assumiu o risco de produzi-lo. A morte ocorre em razão de imprudência, negligência ou imperícia. É o que pode acontecer em determinados acidentes de trânsito, por exemplo. O motorista não saiu de casa com o propósito de cometer o crime que acabou cometendo, mas o seu descuido resultou na morte de alguém.

Na última segunda-feira, quando fez a cobertura da primeira noite de desfiles das escolas de samba do Grupo Especial, do Rio de Janeiro, a Rede Globo de Televisão inaugurou a “transmissão culposa”. Isso porque a fez, mesmo sem desejar de modo algum fazer isso. Aliás, para sermos precisos nessa afirmação, foi enorme o seu esforço para que ela não acontecesse. E a razão mais pura e simples reside no fato de que a primeira das escolas que percorreu o Sambódromo da Marquês de Sapucaí homenageava o atual Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.

Primeiro houve um pequeno e nada acidental atraso no programa que a antecedeu, o Fantástico. Assim, quando passaram a mandar imagens direto da avenida, a Acadêmicos de Niterói já havia iniciado o seu desfile. Então, o repórter Pedro Bassan apresentou quase que um editorial da Globo, cheio de explicações sobre discussões judiciais prévias – como as tentativas de impedir o desfile, questionamentos sobre repasse de verba e a possível presença de Lula no local. Foram vários minutos relatando o que havia sido buscado, sem sucesso, por partidos políticos como Novo, PL e Republicanos. Assim, houve uma contextualização jurídica em excesso, em momento que deveria ser meramente festivo e artístico. O deslocamento do foco do espetáculo para a controvérsia. E a inegável inserção de um posicionamento institucional implícito.

A emissora, que detinha os direitos exclusivos sobre a transmissão, de modo deliberado esvaziou a cobertura. Cortou o esquenta, não mostrou os primeiros movimentos, evitou comentários técnicos que fossem além do básico, fez cortes de imagem que não privilegiaram a beleza do desfile, entregando uma narrativa fragmentada e incompleta. Sequer mostraram atrizes e atores, alguns da própria Globo, que estavam nos carros alegóricos. Fafá de Belém substituiu Janja. Mas Hildegard Angel, Paulo Betti, Chico Dias, Denise Fraga, Bete Mendes, Antônio Pitanga, Dadá Coelho, Júlia Lemmertz e Malu Valle, entre outras e outros, assim como o cineasta Zeca Brito, desfilaram. Repórteres e comentaristas não contextualizaram as referências históricas e políticas do enredo, que se referia à trajetória de um nordestino pobre, retirante, operário, sindicalista que se tornou um dos maiores políticos brasileiros de todos os tempos.

O intérprete do samba-enredo da escola, que se apresentou com uma caracterização de Lula, praticamente não foi mostrado nas imagens. E, em determinado momento, a emissora chegou a creditar como cantor o filho dele, que também estava presente. Assim, o público que via tudo de casa, se dependesse das informações repassadas, não entenderia nada do que estava acontecendo. Pouco foi falado do enredo, das alegorias, dos carros, dos personagens representados. Mas, com certeza era essa a ideia mesmo. Apesar de liberado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que não aceitou estabelecer censura prévia ao espetáculo, se na avenida ele esteve bem, nos lares dos brasileiros ele foi patético.

Mas, vamos agora recuar um pouco no tempo. Onze anos, para sermos exatos. Em 2015 a Beija-Flor de Nilópolis trouxe o enredo “Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial”. Ele foi patrocinado com R$ 10 milhões destinados por aquele país para a escola que o exaltaria. Parte desses recursos foram aplicados na publicidade. E quem os enviou foi diretamente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, ditador que governa a Guiné Equatorial desde 1979 até hoje, com mãos de ferro. Ele assumiu através de um golpe militar e se mantém há 47 anos à frente, apesar de constantes e recorrentes violações dos direitos humanos e enorme corrupção.

O filho do ditador, de apelido Teodorin (1), desde sempre vice-presidente do pequeno país, que tem hoje menos de dois milhões de habitantes, veio pessoalmente ao Rio de Janeiro acompanhar o desfile. Que, aliás, teve uma cobertura exemplar feita pela Globo. A narração naquele ano foi de Luís Roberto, o mesmo do futebol. Ele e os comentaristas estavam muito inspirados. Sobre o enredo, elogiaram a “abordagem visualmente rica e muito poética”. A comissão de frente, representando espíritos da floresta com uma “árvore da vida”, foi chamada de “deslumbrante e orgânica”.

Isso enquanto, no mundo real, se tinha denúncias documentadas com rigor de assassinatos, torturas e outras violações graves, como prisões arbitrárias e perseguição a opositores do regime vigente no país que fica na África Central, banhado pelo Atlântico e vizinho de Camarões e Gabão. Não sei se houve transmissão televisiva para seu território. Mas, tendo ela ocorrido, nem precisaria de tradução, uma vez que o país tem três línguas oficiais, sendo uma delas o português (2). Eles entenderiam os elogios feitos aos materiais utilizados – como serragem simulando a pele de elefantes –, assim como as entrevistas feitas com mestres da bateria e personalidades que estavam no desfile, como a atriz Cláudia Raia, que também foi bajulada. No dia seguinte, no noticiário matinal da televisão, foi afirmado categoricamente: “Colorida, florida e cheia de detalhes, a Beija-Flor emocionou”. Deve ter conseguido isso mesmo, ao menos em relação aos jurados. A escola venceu aquela edição do Carnaval do Rio, com apologia à uma ditadura.

Detalhe: Globo e Beija-Flor tinham – ou ainda têm? – outras relações de proximidade. Em 1988 Roberto Marinho vendeu a cobertura onde morava, no bairro de Copacabana, justamente para Aniz Abraão Davi, uma figura pública bastante conhecida por sua ligação com o jogo do bicho e com essa escola de samba. O imóvel fica no edifício Chopin, em plena Avenida Atlântica. E a negociação não era do conhecimento público até muitos anos depois, quando reportagens investigativas entre os anos 2000 e 2010 se debruçaram sobre ligações de contraventores cariocas com autoridades, políticos e empresários, desnudando complexas relações, em termos sociais e econômicos.

18.02.2026

Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, ditador da Guiné Equatorial

(1) Em setembro de 2018, autoridades brasileiras apreenderam dinheiro em espécie e joias, no aeroporto de Viracopos, em valor estimado em mais de US$ 16 milhões que estavam na bagagem de 11 membros da delegação que acompanhava Teodorin em visita ao Brasil. Também houve o sequestro, pelo Poder Judiciário, de automóveis e imóvel na cidade de São Paulo, no âmbito de um inquérito policial, instaurado em março daquele ano para apurar eventual crime de lavagem de dinheiro. Como represália, o governo da Guiné Equatorial reteve o equivalente a US$ 156 milhões (R$ 750 milhões), segundo informado pelo Itamaraty, em bens de quatro empresas privadas brasileiras que atuam naquele país. 

(2) A Guiné Equatorial é o único país africano que tem o Espanhol como língua oficial, ao lado do Português e do Francês. Além dos três idiomas herdados dos colonizadores e invasores, o povo local fala uma série de outras línguas nacionais africanas, consideradas as diferentes etnias do país: Fang, Bubi, Ndowe, Annobonês, Bisio e Bujeba.

O bônus de hoje é clipe da música Super Nzalang, com o grupo Pop Star Barby, da Guiné Equatorial.

Você gosta de política, comportamento, música, esporte, cultura, literatura, cinema e outros temas importantes do momento? Se identifica com os meus textos? Se você acha que há conteúdo inspirador naquilo que escrevo, considere apoiar o que eu faço. Contribua por meio da chave PIX virtualidades.blog@gmail.com ou fazendo uso do formulário abaixo:

Uma vez
Mensal
Anualmente

FORMULÁRIO PARA DOAÇÕES

Selecione sua opção, com a periodicidade (acima) e algum dos quatro botões de valores (abaixo). Depois, confirme no botão inferior, que assumirá a cor verde.

Faça uma doação mensal

Faça uma doação anual

Escolha um valor

R$10,00
R$20,00
R$30,00
R$15,00
R$20,00
R$25,00
R$150,00
R$200,00
R$250,00

Ou insira uma quantia personalizada

R$

Agradecemos sua contribuição.

Agradecemos sua contribuição.

Agradecemos sua contribuição.

Faça uma doaçãoDoar mensalmenteDoar anualmente