O VOO E A DOR INVISÍVEL
Manhã do domingo, 5 de julho de 2026. Em um Cessna C-150 o instrutor de voo Leandro Andrés Bertazzo, de 42 anos, está realizando um voo de treinamento com uma aluna. Ela já possuía licença de piloto privado, mas ainda precisava acumular horas. Estão em Córdoba, província argentina.
Em determinado momento ele se referiu à aluna, de nome Rosário e 22 anos: “Você sabe o que tem que fazer. Siga em frente”. A frase aparentemente denota confiança na capacidade da moça, que o comando poderia mesmo ser totalmente dela. Mas, foi algo além e muito inesperado. Na sequência, retirou os fones de ouvido, guardou o celular e alguns pertences e abriu a porta do avião. Então, jogou-se no espaço, sem paraquedas.
Tudo isso diante da perplexidade da moça, que ficou sozinha, em choque e tendo que levar o avião até o solo em segurança. Então ela comunicou a emergência pelo rádio e recebeu orientação para o pouso. Enquanto isso acontecia, equipes de resgate já partiam na busca do corpo de Bertazzo, localizado em área rural próxima ao município de Toledo.
O piloto havia chegado ao trabalho normalmente. Conversou com seus colegas como sempre. E já havia realizado outro voo de instrução pouco antes, sem qualquer anormalidade. Inclusive estava em bom momento na carreira, concorrendo a uma vaga em companhia aérea comercial. Ele já acumulava mais de uma década de atuação e possuía licença de piloto de transporte aéreo (ATP), o mais alto nível de certificação civil. Depois do fato, familiares revelaram que ele atravessava um período difícil na vida pessoal e fazia tratamento psiquiátrico. Ainda assim, seus exames psicofísicos obrigatórios para voar estavam em dia.
Especialistas afirmam que episódios desse tipo são excepcionalíssimos. Embora existam suicídios envolvendo pilotos — como aquele do voo da Germanwings, uma subsidiária do Grupo Lufthansa, em 2015, quando o copiloto derrubou deliberadamente um Airbus com 150 pessoas a bordo —, parece sem precedentes um instrutor abandonar uma aeronave leve em voo, deixando apenas uma aluna nos comandos. O caso reacendeu o debate sobre a avaliação de saúde mental de pilotos, tanto da aviação geral como de instrução.
Mas, o que leva uma pessoa a tomar atitude tão drástica? Mais inquietante ainda: por que tantas vezes ninguém percebe esse risco? Pode ser duro dizer isso, entretanto parece que enfrentamos uma incapacidade de enxergar o sofrimento do outro, o que deveria ser uma responsabilidade coletiva. Só que existe também a invisibilidade da dor. Há sofrimentos que não deixam hematomas, não aparecem em exames nem fazem barulho. Pessoas conseguem cumprir a rotina, sorrir, trabalhar, fazer planos e, ainda assim, travar uma batalha silenciosa dentro de si. E quando isso é de algum modo manifestado, pode ser de modo sutil. Um falar sobre coisas como desesperança, sentir-se um peso para os outros, despedir-se de maneira incomum, abandonar projetos, isolar-se ou mudar bruscamente de comportamento. O problema é que esses sinais costumam apenas ser compreendidos depois dos acontecimentos.
No final, se esbarra na limitação humana. É importante evitar a ideia de culpa. Nem sempre familiares e amigos conseguem perceber o que está acontecendo, mesmo sendo pessoas atentas e afetuosas. A dor psíquica pode ser profundamente dissimulada. Ela não sangra, não aparece em tomografias e ressonâncias. Com facilidade notamos existir uma perna engessada, mas se tem dificuldade em reconhecer uma alma fraturada.
Nenhum de nós tem o poder de salvar todas as pessoas. Mesmo assim, todos podemos diminuir a solidão de alguém. Uma conversa sem pressa, um telefonema inesperado, uma pergunta sincera ou a disposição para acompanhar quem precisa de ajuda profissional, talvez não resolvam todos os problemas. Entretanto, podem significar enorme diferença para quem pensa que tem que enfrentar sua dor sozinho.
20.07.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é a música Hurt (Dor ou Ferida), composta por Nine Inch Nails e com letra de Trent Reznor, na voz de Johnny Cash. Esta é uma das interpretações mais profundas sobre dor interior e arrependimento. A voz envelhecida de Cash torna a música especialmente comovente. Ele, embora seja lembrado como cantor de country, transcendeu o gênero e incorporou folk, rockabilly, blues e canções de protesto. Dono de uma voz grave e inconfundível, cultivou uma imagem austera que lhe rendeu o apelido de “The Man in Black” (O Homem de Preto), por usar quase sempre roupas pretas em solidariedade aos pobres, aos presos, aos marginalizados e aos esquecidos da sociedade.