A MALDIÇÃO DO MINUTO 86
Três seleções africanas entraram em campo em um espaço de 24 horas, entre a terça-feira 30 de junho e a quarta-feira 1º de julho, para disputar partidas pela segunda fase da Copa do Mundo. Eram os confrontos que se seguiam a fase de grupos, abrindo aquilo que se costuma chamar de mata-mata: quem ganha segue em frente, quem perde volta para casa.
Primeiro foi a Costa do Marfim, que tinha pela frente a Noruega em jogo para definir o próximo adversário do Brasil, que já havia despachado na véspera o Japão. Nusa abriu o placar para os noruegueses e o empate veio com Diallo. Mas, aos 41 do segundo tempo (minuto 86), Haaland fez o segundo e despachou os marfinenses.
Depois foi a vez da República Democrática do Congo, que conseguiu sair na frente da Inglaterra, com gol de Cipenga. Entretanto, com dois gols no segundo tempo, Harry Kane assegurou a virada. O segundo deles foi no minuto 86. E a terceira seleção foi a seleção do Senegal, que dominou a Bélgica amplamente, abrindo 2×0 no placar, gols de Diarra e Sarr. Mas, Lukaku conseguiu descontar, também aos 41 do segundo tempo. Foi o que abriu caminho para a igualdade, nos acréscimos e a virada ao final da prorrogação: 3×2 para os belgas.
Puro acaso, algum carma (ou karma, no sânscrito) coletivo destes povos africanos ou os deuses do futebol quiseram brincar com todos os muitos supersticiosos que amam esse esporte? Para quem é simpatizante da numerologia, outro prato cheio. Primeiro, porque 41 resulta em 5, quando os algarismos são somados, do mesmo modo que 86 também é reduzido do mesmo modo: 8+6=14 e 1+4=5. Deste modo, ambos têm a mesma vibração, que costuma ser associada à mudança e movimento, embora por caminhos diferentes. Isso segundo a numerologia pitagórica, porque existe mais de uma corrente.
Na variante da numerologia que é chamada de “números dos anjos” (Angel Numbers), o 41 costuma ser relacionado à perseverança e à construção de novos começos, enquanto o 86 é frequentemente associado com questões tais como desapego e confiança no futuro. Lembremos que essas interpretações variam bastante entre autores e não seguem um padrão universal. Mas, se forem vistas como algo positivo, por alguma razão os números estão mais amigos de nórdicos, anglo-saxões e de colonizadores que foram muito cruéis e desumanos – o caso dos belgas – do que dos sofridos africanos.
A África do Sul também foi eliminada, ao perder para um dos anfitriões, o Canadá, por 1×0. Só que o gol foi dez minutos depois, aos 51. Portanto, nos acréscimos, o que causou sofrimento enorme. E Marrocos conseguiu passar, também com um gol além do tempo, por outra coincidência aos 51 minutos, quando Issa Diop empatou contra a Holanda (Gakpo havia aberto o placar). Na decisão por pênaltis, os europeus ficaram de fora.
Dos quatro últimos representantes africanos – nunca antes se teve tantos em uma Copa –, a Argélia, está em campo no mesmo momento no qual essa crônica está sendo publicada. Tem pela frente a Suíça. Há o Egito, às 15 horas de hoje, atuando contra a Austrália. Às 19 horas Cabo Verde tem a indigesta Argentina. E o último é Gana, que às 22h30 joga contra a Colômbia. Quatro chances para que se confirme ou se desminta a maldição do minuto 86. Ou, pelo menos, todos torcendo para que tudo ocorra aos 51 do segundo tempo. Só que nesse caso existe até agora um equilíbrio, quem sabe por indefinição dos mesmos deuses.
03.07.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é O Fortuna é o coro de abertura e de encerramento da obra Carmina Burana, composta pelo alemão Carl Orff. Originalmente a letra é um poema dedicado à Fortuna, a deusa romana da sorte. Nesta versão ela tem a combinação de um coro massivo, um ritmo implacável e reforça a temática sobre o destino. Foi assim que se tornou uma das peças musicais mais reconhecíveis do século XX, com presença frequente em filmes, trailers e publicidade. Aqui ela tem legendas em latim e em português.