O BRASIL ABRIU AS PERNAS
Foi deprimente a forma como o Brasil se despediu da Copa do Mundo. A derrota por 2×1 para a Noruega talvez tenha sido o que menos importou, ao menos para quem gosta e entende um pouco de futebol. O problema maior está no modo como ela aconteceu. Foi vermos em campo um time que não combateu, não teve garra, iniciativa e coragem. Na maior parte do tempo os jogadores brasileiros ficavam olhando para os noruegueses, que trocavam passes. Os adversários em alguns momentos apenas caminhavam em campo, sem pressa, sem sustos, pois simplesmente não eram combatidos. Tiveram 66% de posse de bola. E aguardaram com paciência o momento para executar nosso time. O predador com a presa à disposição, bastando ter paciência.
Tivemos em campo um goleiro comum, uma zaga envelhecida, um meio de campo de pouca criatividade e um ataque que se mostrou insuficiente. Então, como esperar algo diferente da desclassificação? E a verdade é que tudo começou bem antes, dentro e fora das quatro linhas – juro que me arrepio quando uso essa expressão, ela que também foi apropriada pela estupidez.
Entre 2022 e 2026 nossa seleção teve quatro treinadores. A presidência da CBF trocou de mãos e até eleições suas acabaram anuladas, com intervenção da Justiça. A imensa maioria dos atletas promissores que aqui surgiram seguiram indo embora cedo demais, com os clubes precisando vender seus ativos e eles próprios seduzidos por mercados com os quais não se pode competir, do ponto de vista financeiro. Sem incentivo apropriado às categorias de base e com uma “safra” muito pobre em talentos, se tornou quase impossível formar um grupo de fato competitivo.
Ao longo da história, sempre que se ganhou uma copa – e foram cinco as ocasiões – se tinha ao menos um craque em campo, ou vários deles ao mesmo tempo. Nem falo em Pelé e Garrincha, para não ser chamado de saudosista. Mas, não temos mais nenhum Romário, Ronaldo e Rivaldo, enquanto outras seleções têm seus matadores. Messi, Mbapeé, Haaland, Kane, Oyarzabal, Dembélé, Bellingham e outros empilham gols, numa disputa ferrenha pela artilharia. Vini Júnior marcou contra equipes menores e em momentos não decisivos. No restante do tempo, desfilou sua individualidade sem resultado. No passado, tivemos craques até em copas que não se ganhou, como Zico, Sócrates, Falcão e Júnior.
Como se tudo isso não bastasse, interesses econômicos ainda foram fator determinante nas convocações. Ou alguém duvida que Neymar só embarcou para os EUA por exigência da Nike e das casas de apostas? No dia em que anunciou a lista, o constrangimento do treinador ficou evidente. Mas, não seria ele a dizer não, do alto do seu salário de dez milhões de dólares por ano – R$ 5,3 milhões mensais. E se ele foi, como acreditar que não entraria em campo? O ex-atleta esteve alguns minutos contra o Japão e ontem foi opção equivocada, justo quando o time teve seus poucos lampejos de bom futebol, por volta da metade do segundo tempo. Ryan foi sacado e Endrick acabou sendo deslocado para o lado e perdeu aquele protagonismo que mostrou por poucos minutos.
O “Menino Ney” teve mais 22 minutos, contando os acréscimos, com a camisa canarinho. Tomara que os últimos da vida. Nada fez além de tomar um cartão amarelo – dez mil francos suíços de multa para a CBF pagar –, marcar um gol de pênalti e provocar desnecessariamente seus adversários, em especial o goleiro norueguês Ørjan Nyland.
As seis copas realizadas no atual milênio tiveram seis países diferentes como campeões. Brasil (2002), Itália (2006), Espanha (2010), Alemanha (2014), França (2018) e Argentina (2022). Além do título que ganhamos na primeira delas, apenas mais uma vez mais chegamos entre as quatro semifinalistas: quando fomos sede e terminamos na quarta colocação. E, mesmo assim, com o pior desempenho possível naquele caso, tomando 7×1 da Alemanha e 3×0 da Holanda. Dez gols nos dois jogos derradeiros.
Agora nos resta escolher alguma seleção para que se torça, de forma constrangida. Quem sabe a própria Argentina, contra a qual a imprensa sempre se dedica a criar uma animosidade falsa, ou a Colômbia, para se ficar na América do Sul. Por Marrocos ou Egito, para que algum africano possa levantar a taça. Para Portugal de tantos antepassados nossos. Ou somar-se a quem apoia duas das favoritas, Espanha e França. Algumas dessas sugestões inclusive fariam com que um outro vencedor inédito tivesse a glória de erguer a cobiçada taça, dando seguimento ao que ocorreu nas últimas seis vezes. Depois, que se pense em 2030.
06.07.2026

O bônus de hoje é a música The Show Must Go On (O show tem que continuar), do Queen.