O DIA EM QUE CRUYFF FOI MENOS APLAUDIDO QUE MARREQUINHO
1973. A Seleção da Holanda se prepara para cumprir mais uma etapa da preparação para a Copa do Mundo que, no ano seguinte, iria acontecer na Alemanha. Um amistoso é marcado contra o Uruguai, no país vizinho. Quando o voo já se encontra na costa brasileira, o piloto é informado da impossibilidade de pousar em Montevidéu, devido ao mau tempo. Assim, a saída é uma escala inesperada no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Como a previsão do tempo é de persistência da instabilidade, a decisão recai sobre fazer o restante do percurso via rodoviária, com o uso de um ônibus contratado. Entretanto, um novo problema termina por acontecer.
O aguaceiro havia derrubado a ponte existente entre Arroio Grande e Jaguarão. Em função disso, uma nova parada terminou tendo que ser feita. E os craques holandeses, que em 1974 iriam chocar o mundo com o seu revolucionário sistema de jogo, se viram hospedados no Hotel da Rodoviária, em Arroio Grande. Na primeira noite, os nobres guerreiros da futura Laranja Mecânica vão conhecer um local famoso na cidade, pela fartura de bebidas e mulheres. E ficam até altas horas no Planeta dos Homens. Altos ainda estavam na manhã seguinte, quando o treinador Rinus Michels decidiu por confirmar uma partida contra o time local, o que havia aventado ainda na véspera, para evitar o tempo excessivo sem alguma atividade.
Foi um reboliço na cidade. O campo de jogo acabou cercado por uma torcida ávida por ver o glorioso Esporte Clube Arroio Grande encarar os gringos. Começa a partida e a Holanda toma um primeiro e inesperado gol. Mas, como a ressaca pesada já estava no fim, Johan Cruyff, Johan Neeskens, Rob Rensenbrink, Ruud Krol, Johnny Rep e os demais atletas não demoraram quase nada para recuperar a lucidez, a técnica e a sua vergonha. Assim, os 45 minutos iniciais terminaram com um sonoro 13×1 para os visitantes. O trio do ataque local, composto pelos valorosos Paulo da Granja, Bibico e Paulão, não estava conseguindo mostrar todo o seu potencial. E a defesa enfrentava enormes dificuldades contra a ofensividade contrária.
Depois do intervalo, prossegue o massacre implacável. Isso apenas pela disparidade técnica, não por um desejo sádico. Perto do final do jogo já estava 23×1. Foi quando, batendo uma falta com uma perfeição de fazer inveja ao Zico, o meio-campista Marrequinho acertou o ângulo da meta defendida por Jan Jongbloed: era o segundo gol do clube azul e vermelho. A torcida não conseguiu conter a emoção e invadiu o campo, encerrando a peleja antes do tempo. O ídolo local foi levado nos ombros e entrou para a história.
Durante a Copa, a Holanda esteve soberba. Na fase de grupos passou sem problema algum por Uruguai, Suécia e Bulgária. Depois superou, na ordem, Argentina, Alemanha Oriental e Brasil. Chegou invicta à final, tendo tomado apenas um gol nos seis primeiros jogos. Foi nos 4×1 que aplicou na Bulgária. A decisão, disputada contra os donos da casa, também teve um início impressionante: com apenas dois minutos de jogo e sem que os alemães sequer tivessem conseguido tocar na bola, os holandeses já estavam na frente (gol de Neeskens). Só que sofreram um revés inesperado, com uma virada para dois a um (gols de Paul Breitner e Gerd Müller).
O mundo esportivo ficou estarrecido. A arte fora derrotada pelo absoluto pragmatismo. O futebol opaco ofuscara o brilho revolucionário. A história registra ter sido aquele o segundo título da Alemanha, que depois viria a acumular outros dois. A Holanda, por sua vez, chegaria a outras duas finais, sempre sendo vice. Mas, relevante mesmo em 1974 foi a criativa chamada de capa do jornal A Evolução, da cidade do interior gaúcho: “Alemanha consegue o improvável e repete feito do Esporte Clube Arroio Grande, ao marcar dois gols na Holanda”.
Essa história é tão maravilhosa que não tem sentido algum discutir sobre a veracidade dos fatos. Nativos juram que tudo ocorreu bem assim como está sendo narrado. Mas, se isso não aconteceu na realidade, com certeza mereceria ter acontecido. E eu estou bem acompanhado nessa minha proposição. Pois, como afirmou Lygia Fagundes Telles, “a ficção é uma forma de verdade”. Jorge Luis Borges concorda e reforça: “a realidade não é sempre provável ou plausível”. E Fernando Pessoa completa, de modo definitivo, ao destacar que “o mito é o nada que é tudo”.
12.02.2026

O bônus de hoje é a música Camisa Molhada, de Carlinhos Vergueiro.
Você gosta de política, comportamento, música, esporte, cultura, literatura, cinema e outros temas importantes do momento? Se identifica com os meus textos? Se você acha que há conteúdo inspirador naquilo que escrevo, considere apoiar o que eu faço. Contribua por meio da chave PIX virtualidades.blog@gmail.com ou fazendo uso do formulário abaixo:
FORMULÁRIO PARA DOAÇÕES
Selecione sua opção, com a periodicidade (acima) e algum dos quatro botões de valores (abaixo). Depois, confirme no botão inferior, que assumirá a cor verde.
Faça uma doação mensal
Faça uma doação anual
Escolha um valor
Ou insira uma quantia personalizada
Agradecemos sua contribuição.
Agradecemos sua contribuição.
Agradecemos sua contribuição.
Faça uma doaçãoDoar mensalmenteDoar anualmente