YAMAL E O ORGULHO ROCAFONDA

Nesta Copa do Mundo alguns dos maiores ídolos do futebol atual estão se despedindo, muitos dos quais artilheiros, porque com certeza não terão idade para continuar competindo em alto nível em 2030. Porém, outros mais jovens confirmam estar no caminho certo para os substituir, tanto em campo quanto no imaginário. Estão se indo os inigualáveis Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, assim como Luka Modrić, Mohamed Salah, Kevin De Bruyne, Virgil van Dijk e Harry Kane. Já são realidade e vão continuar nos encantando Kylian Mbappé, Erling Haaland, Jude Bellingham e Lamine Yamal, entre outros um pouco menos cotados. E alguns, evidentemente, deverão se firmar ou surgir ao longo do próximo ciclo. Talvez os brasileiros Endrick, Ryan e Estêvão consigam isso.

Mas, entre esses do segundo grupo, quero destacar aqui o espanhol Lamine Yamal, que é o mais jovem entre eles. Está com 18 anos e é o principal nome do futebol espanhol. Filho de pai marroquino (Mounir Nasraoui) e mãe da Guiné Equatorial (Sheila Ebana), ele cresceu ligado ao bairro de Rocafonda, em Mataró, periferia operária da Catalunha. Entrou no Barcelona ainda criança, vindo do CF La Torreta, chegando à base azul-grená aos sete anos.

Tratado desde cedo como uma joia rara, avançou pelas categorias de base mais rapidamente do que qualquer jogador de sua geração. Estreou no time principal em 2023, ainda com 15 anos, e desde então passou de promessa a protagonista. Pelos números consolidados do Barcelona, até 2026 ele já soma 157 partidas e 54 gols pelos profissionais. Pela seleção espanhola somava, antes da Copa do Mundo, 25 jogos, com seis gols e 12 assistências. Na Eurocopa de 2024 foi uma das grandes figuras e se tornou o jogador mais jovem a atuar e marcar na competição. Sagrou-se campeão um dia antes de completar 17 anos.

Entretanto, isso são estatísticas, algo que pode ser tornar somente uma coleção de números vazios, se outros fatores não são agregados. É onde aparece um dos seus diferenciais. Ele nunca esquece suas origens e isso não se trata de uma manifestação daquelas feitas da boca para fora. Inclusive registra isso com um gesto que faz a cada gol que marca. Com os dedos das mãos, forma o número 304, que é o código postal do seu bairro natal, pobre e estigmatizado.

Com a ascensão recente de posições e discursos anti-imigração e de cunho racista em partes da Espanha, o cenário se agravou. A extrema direita passou a usar abertamente bairros como Rocafonda, o território do talentoso Yamal, como exemplos gritantes daquilo que chamam de “fracasso da integração”. Neste contexto, o gesto do atleta não se trata apenas de homenagem. Ele é também uma resposta simbólica ao preconceito e xenofobia associados ao local, que atualmente possui algo em torno de 15 mil habitantes, sendo um dos bairros mais multiculturais da Catalunha.

Sua origem remonta aos anos 1960, quando a Espanha vivia um intenso processo de industrialização. O bairro foi construído especialmente para receber trabalhadores vindos das regiões mais pobres do sul espanhol, especialmente Andaluzia, Extremadura e Múrcia. Décadas depois, a partir dos anos 1990, recebeu uma nova onda migratória, desta vez formada por famílias do Marrocos, África Subsaariana, América Latina e outros países. Hoje, em algumas áreas de Rocafonda, a população de origem estrangeira ou descendente de imigrantes supera amplamente a média catalã.

Durante muitos anos o bairro apareceu na imprensa espanhola quase sempre associado a problemas sociais: desemprego, pobreza, fracasso escolar, insegurança e imigração. Isso criou uma imagem negativa que seus moradores consideram injusta e simplificadora. O próprio jornal espanhol El País descreveu Rocafonda como um bairro “esquecido, isolado e estigmatizado”. Na prática, muitos jovens do bairro cresceram ouvindo comentários depreciativos quando diziam de onde vinham. O código 304, que identifica a região, era frequentemente associado à marginalização social. É nesse momento que Yamal age e muda tudo.

A partir dele o mesmo número passou a ser demonstração de orgulho coletivo. Crianças reproduzem o “304” nas quadras locais, murais foram pintados em homenagem ao jogador e até um documentário chamado Revolució 304 foi produzido para discutir identidade, oportunidades e racismo na Catalunha contemporânea. Agora ele é pertencimento, tem peso político, destrói estereótipos. Virou uma declaração pública de dignidade. Que bom se jogadores brasileiros se dessem conta disso, do poder de influência que suas dimensões de ídolos contêm. Isso eterniza mais do que cortes de cabelo, dancinhas e ostentações.

09.07.2026

P.S.: A ilustração que acompanha essa crônica é uma caricatura de Lamine Yamal, com a camiseta da Seleção da Espanha, fazendo o sinal 304. Ela foi criada pelo autor do texto, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é Potra Salvaje (Potranca Selvagem), uma canção da cantora espanhola Isabel Aaiún, lançada originalmente em 2021 como single de estreia e faixa-título de seu primeiro álbum. Ela virou o “hino não oficial” da campanha da Espanha na UEFA Euro 2024. Jogadores como Lamine Yamal e Nico Williams a cantavam nas comemorações, e ela virou um fenômeno nacional durante o título europeu. Hoje, muitos espanhóis associam imediatamente essa música à ascensão de Yamal.