NISSO A ESQUERDA É IMBATÍVEL

Me deixem ser bem objetivo, esclarecendo já neste primeiro parágrafo quais são os três pontos nos quais nós, declaradamente esquerdistas, somos de fato imbatíveis: ninguém nos supera em lives, artigos e manifestos. Pronto! Em cerca de três linhas fiz uma autocrítica mais do que necessária. Aliás, autocrítica é outro tema que agrada muito parte dos companheiros, se bem que este nos divide, sendo assunto odiado por alguns. Voltando aos três pontos citados, nessa última campanha então, estivemos verdadeiramente infernais. Perdi a conta dos convites que recebi para longos e profícuos debates online, sobre os mais diversos assuntos. Fui tão esclarecido sobre tanta coisa que fico em dúvida a respeito de qual título de doutor poderei reivindicar e para qual academia. Artigos me enviaram tantos que, se eu os imprimir todos, terei uma biblioteca que irá rivalizar com as de algumas boas instituições de ensino. E assinei tantas proposições que se essas assinaturas não fossem virtuais, eu estaria com uma lesão na mão por esforços repetitivos.

Enquanto isso, a pragmática direita age em diversas frentes, com método e estratégia. Nós enfrentamos moinhos, como se cada um fosse um Dom Quixote ensandecido. Eles são um exército organizado, com equipes cumprindo funções específicas. Há quem analise a realidade, sem os nossos delírios; outros adaptam propostas ao que ela retrata – não importa se poderão ser ou não cumpridas –; um terceiro trabalha para desacreditar quem está no nosso lado, com fake news; outros tantos são linhas de combate estabelecidas na imprensa, no judiciário, em igrejas, em associações, entre empresários, nos institutos de pesquisa. Fica uma luta desigual, um despropósito. E não é todo dia que David é feliz na pontaria de sua funda, contra Golias.

O campo da esquerda – como é bonito dizer “campo”: tem gente que quase chega ao orgasmo – segue sendo tão multifacetado quanto o da direita. Com a diferença que não sabe superar diferenças, exceto pontualmente. A direita se une diante do risco de qualquer resfriado, antes mesmo do primeiro espirro. Lançam vários candidatos, mas basta as pesquisas internas apontarem a existência de remoto risco, atiram um deles nas águas do rio, como “boi de piranha”, decidem por uma renúncia arranjada e seguem em frente. Garantem apoios, implícitos ou explícitos; trocam favores; fatiam cargos e verbas futuras.

A direita é tão preparada que já está cuidando inclusive de neutralizar a extrema-direita que ela própria alimentou, recentemente, com o objetivo de ter uma linha de frente que causasse dano grave às estruturas de esquerda. Soltaram os pitbulls para o serviço sujo e agora estão tratando de outra vez colocarem as focinheiras neles. Para nós irão sobrar as cicatrizes das mordidas e a culpa imputada: estão dizendo que fomos nós que provocamos a cachorrada.

Enquanto isso, seguimos cometendo erros infantis, especialmente em termos de comunicação, além de sérias omissões. Um exemplo é vermos a periferia, que tem votos para decidir qualquer pleito, com uma certa arrogância. Acreditamos ter a solução para todos os seus problemas, mas vendo tudo de longe, sem lugar de fala. A direita a penetra usando estruturas religiosas, se aproximando de lideranças evangélicas que sejam cooptáveis – felizmente nem todas são. É o político sendo o Diabo que promete regalias ao pastor, como feito na segunda tentação de Jesus, a quem ofereceu poder e glória, se esse o adorasse. Então cabe ao religioso repassar ao seu rebanho os discursos que sejam mais convenientes. E as ovelhas votam felizes nos lobos.

A maioria de nós pertence a uma classe média espremida entre o sonho da ascensão sempre impedida e o medo da queda iminente. Ao invés de juntos buscarmos sair do poço, ficamos cortando as cordas um dos outros. E nessa luta permanente nem sequer vemos o banquete para o qual nunca somos convidados: ele ocorre perto da gente, mas distante dos nossos olhos. Estamos sempre vivendo a maldição do quase. Nos nutrem com falsas esperanças para nos devorarem quando ficamos gordinhos. Ou a gente põe os pés no chão – e falo da maioria de nós, não me venham gritar protestos de supostos injustiçados –, ou nada vai mudar. Em 2022, por exemplo, quando vencer o prazo de validade do atual ocupante do Palácio do Planalto, vão entregar a cadeira para outro que não será escolhido nas nossas fileiras.

04.12.2020

No bônus musical de hoje, um verdadeiro hino. Ele integra o álbum A Beira e o Mar, de 1984. Na voz de Maria Bethânia, Sonho Impossível. Trata-se de uma tradução de The Impossible Dream, de Tom Jones.

MORTO SEM GRIFE, MORTE SEM COMPAIXÃO

Semana passada, em padaria localizada perto da praça Nossa Senhora da Paz, bairro de Ipanema, na Zona Sul do Rio, um morador de rua entrou no ambiente, tentando conseguir algum pedaço de pão que pudesse mitigar sua fome crônica. Mas ela, a fome, não era o seu maior problema naquele momento. A fraqueza dessa vez tinha outra origem e ele caiu morto no chão do estabelecimento. O que ocorreu a seguir é o exemplo cuspido e escarrado da sociedade atual, desumana e capitalista. As pessoas ao redor continuaram comendo seus lanches, fazendo suas compras, como se fosse normal e corriqueiro agir assim ao lado de um cadáver. O homem, que já era invisível enquanto vivo, permaneceu inexistente depois do desencarne.

Ele não tinha olhos azuis, não trajava terno e gravata, não portava pasta de executivo nem documentos, não costumava praticar esportes na praia próxima. Provavelmente nunca tenha tido, mesmo em tempos melhores, algum cartão para apresentar ao caixa, fosse de crédito ou de visita. Dificilmente alguém nas redondezas o conhecesse pelo nome. E se ele era desimportante vivo, por que razão atingiria qualquer notoriedade morto? Seu único erro – ou acerto, porque agora ao menos vão saber que existiu –, foi não saber escolher lugar mais apropriado para se despedir. Por que não ficou sob a marquise de sempre, ou no beco do dia-a-dia? Tinha que ser numa das padarias do bairro, em hora na qual homens e mulheres de bem apenas queriam comer em paz seu brioche ou sanduíche, beber seu café com leite ou suco de frutas?

A banalização da morte é um dos sintomas mais tristes daquilo em que estamos nos tornando. Moradores do Rio de Janeiro, então, são quase pós-graduados nesse tema. Não bastassem os morros que vez por outra deslizam, há três grupos que adoram se revezar fazendo vítimas. São as milícias, a polícia e os traficantes – que, aliás, muitas vezes se misturam e confundem –, gerando estatísticas impunemente. E não bastassem todas essas “mortes matadas” ainda há, como a desse homem, tantas “mortes morridas”. O negro de idade indefinida ficou lá por duas horas ao menos, esperando a chegada de autoridades. No início, exposto. Depois, coberto com um plástico preto. Como não o moveram, prejudicou um pouco o acesso a um dos freezers do local. Mas nada que impedisse a alimentação dos ainda vivos.

O fato aconteceu por volta das oito horas da manhã da sexta-feira, 27 de novembro. Como as providências legais estavam demorando, o empresário providenciou também um cercadinho com as cadeiras. Para um cliente espantado, que lhe perguntou se não seria melhor fechar a padaria, por questão sanitária e respeito humanitário, respondeu com uma pergunta: “Por que querem que eu tenha humanidade, agora que ele veio morrer jogado aqui dentro, se ninguém teve humanidade enquanto ele estava na rua?”. Um pouco de frieza, um pouco de verdade.

Estamos terceirizando nossa condição de sentir, nossa capacidade de indignação. Dane-se a dor, não sendo minha; dane-se quem a sente, não sendo eu! Se o que acontece de ruim não é conosco, nem com alguém muito próximo de nós, não nos interessa. Não nos diz respeito, não nos choca. Vamos mastigar nosso pão, no máximo agradecendo porque ainda o temos, sem ter que depender da caridade alheia.

Quando o corpo foi retirado, sem reverência, sem prece e sem pressa, ninguém quis saber para onde seria levado. Um a menos para pedir, um a menos para incomodar. Se nenhum familiar for descoberto, uma cova rasa a mais para ser aberta. Nossa vergonha deveria ser enterrada junto. Mas essa sequer adubaria uma flor.

02.12.2020

No bônus musical de hoje, Thaís Morell, violão e voz interpretando De Frente Pro Crime, de João Bosco e Aldir Blanc. A música integra originalmente o álbum Caça à Raposa, lançado por ambos em 1975.