CREMAÇÃO E DECOMPOSIÇÃO

A cremação do corpo de pessoas falecidas está ganhando cada vez mais  espaço no Brasil. Calcula-se que o percentual tenha atingido algo entre 9 e 10% da destinação total dos mortos em nosso país, em 2025. Quem informa é o Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares, que também assegura que o crescimento vem sendo significativo, a cada ano que passa. Mesmo assim, o índice ainda está muito longe do verificado em vários outros países. No Japão é de quase 98% e nos EUA alcança 56%. Importante salientar que na década de 1990 existia apenas um único crematório no território nacional, localizado em São Paulo. Mas, em 2020, já eram 130 as unidades registradas, em todas as regiões.

Vários fatores têm influenciado nesta decisão. Talvez o mais significativo tenha sido o da mudança cultural e religiosa, com a superação de antigos rituais. Existe também a própria economia, uma vez que em muitos casos a cremação pode ser bem mais barata do que o sepultamento tradicional, eliminando a necessidade de aquisição de um túmulo ou jazigo. Pesa ainda a sustentabilidade, uma vez que os cemitérios tradicionais ocupam muito espaço e podem ocasionar a contaminação do solo e das águas subterrâneas. E também há modernidade e praticidade, com o processo sendo mais rápido, higiênico e moderno, o que atrai famílias que optam por uma despedida mais simples e menos burocrática, sem abrir mão de todo o significado emocional do momento.

É importante salientar que nem sempre a cremação pode ser feita de forma imediata, após a morte. Há exigências e algumas restrições legais importantes que precisam ser consideradas. São casos de mortes suspeitas, por acidentes em investigação, por situações que possam ser passíveis de exumação e ainda suicídios. Nessas hipóteses citadas se faz necessária uma autorização judicial. É um modo de preservação, de assegurar garantias.

Agora, o que acontece com um corpo que é sepultado do modo mais tradicional e antigo? Vamos considerar um tempo de um ano, para uma análise. A partir do momento no qual o coração deixa de operar já se inicia uma transformação assustadora, uma autólise generalizada, com o esfriamento gradual do organismo. Não muito depois de 30 minutos a pele já perde cor e vai empalidecendo, enquanto os lábios vão ficando azulados. Com duas horas, o acúmulo de íons de cálcio nas células faz com que haja contração muscular, com a rigidez cadavérica surgindo. Mesmo assim, ainda ocorre por mais algum tempo uma relativa e lenta fluidez do sangue. Depois, isso cessa e ele se acumula nas partes inferiores do corpo, pela ação da gravidade, causando as manchas cadavéricas que surgem na pele, em vários tons de roxo. Todas essas mudanças, obviamente, se dão ainda antes do corpo ser sepultado, enquanto o seu preparo e as cerimônias fúnebres se desenrolam.

Mais ou menos quando ele é baixado à terra ou colocado em gavetas, os nichos quando em estruturas arquitetônicas, o sistema imunológico já está em colapso. Isso faz com que as bactérias que normalmente o habitam passem a decompor as células e os tecidos. É o início da putrefação. Isso dura por semanas a fio, com o corpo inchando e havendo liberação de gases. Toda a pele se rompe, depois de descascada. E todos os órgãos vão se liquefazendo. Cerca de um ano depois, podem ter sobrado apenas os ossos, apesar de este tempo ser relativo e pouco provável. Dependendo de uma série de condições, podem levar de dois até cinco anos.

Sendo o mais didático possível, são cinco as fases. Com a autólise se inicia a quebra celular, com as próprias enzimas do corpo. A putrefação é quando agem também bactérias. Na decomposição ativa se tem a perda de massa e a liquefação dos tecidos. A decomposição avançada é quando acontece a exposição óssea. E a esqueletização ocorre restando apenas tecidos secos (como cabelos) e ossos. Ao longo de tudo isso, fatores externos podem ser relevantes, como a ação de insetos necrófagos e variáveis ambientais, tipo temperatura e umidade.

Mesmo com a descrição acima parecendo – ou sendo mesmo – um tanto brutal, a narrativa se torna importante na medida em que escancara todo o processo, demonstrando a enorme fragilidade da vida física. O que se precisa, provavelmente, para compreender melhor e admitir sua gritante vulnerabilidade e insignificância, diante da existência espiritual. E, mesmo assim, continuamos todos nos apegando não apenas ao que é material, como também perdendo tempo e energia com ambição, arrogância, orgulho, vaidade e falta de empatia. Coisas que também precisamos tratar de dissolver, bem antes da dissolução do nosso corpo.

06.02.2026

O bônus de hoje é CantoPara Minha Morte, de Raul Seixas. 

Você gosta de política, comportamento, música, esporte, cultura, literatura, cinema e outros temas importantes do momento? Se identifica com os meus textos? Se você acha que há conteúdo inspirador naquilo que escrevo, considere apoiar o que eu faço. Contribua por meio da chave PIX virtualidades.blog@gmail.com ou fazendo uso do formulário abaixo:

Uma vez
Mensal
Anualmente

FORMULÁRIO PARA DOAÇÕES

Selecione sua opção, com a periodicidade (acima) e algum dos quatro botões de valores (abaixo). Depois, confirme no botão inferior, que assumirá a cor verde.

Faça uma doação mensal

Faça uma doação anual

Escolha um valor

R$10,00
R$20,00
R$30,00
R$15,00
R$20,00
R$25,00
R$150,00
R$200,00
R$250,00

Ou insira uma quantia personalizada

R$

Agradecemos sua contribuição.

Agradecemos sua contribuição.

Agradecemos sua contribuição.

Faça uma doaçãoDoar mensalmenteDoar anualmente