POR QUE DEUS AMARIA MAIS OS EUA?

Será que Deus quer que os Estados Unidos matem o máximo possível dos seus inimigos, da forma mais violenta possível? Aquele país tem um Secretário de Guerra que aparentemente pensa assim. Aliás, não apenas pensa como também pede ao Divino, em suas orações, que tal possa acontecer. Ocupando o cargo que anteriormente tinha a nomenclatura de Secretário de Defesa – Trump mandou mudar –, ele não tem mais nem a mínima vergonha de revelar as verdadeiras raízes do seu sadismo e da sua raiva incontrolada. Falo de Pete Hegseth, o homem que acredita que tem acesso direto com o Todo-Poderoso e que dele tem autorização para o cometimento de quaisquer atrocidades.

Em um dos seus mais recentes pronunciamentos, ele foi objetivo e direto ao desejar “que cada bala acerte o alvo contra os inimigos da justiça e da nossa nação”, acrescentando que acreditava na necessidade de ser de fato aplicada “violência avassaladora contra aqueles que não merecem misericórdia”. Muito cristão isso, como se vê. Numa potencial violação da separação entre Igreja e Estado – algo que chegou a ser tentado aqui no Brasil, sob Bolsonaro –, Pete Hegseth deu ordens para a realização de reuniões de oração mensais no Pentágono. Na primeira dessas ocasiões após o início da guerra contra o Irã é que ele fez o apelo citado acima.

Este culto religioso de Hegseth atraiu apenas atenção pouco destacada e esporádica da mídia. Mas, isso ajuda a explicar o verdadeiro ímpeto por trás de um acontecimento que merece muito maior cuidado: o líder designado das forças armadas mais poderosas de todo o mundo fala regularmente da sua imensa capacidade de semear terror e morte sobre o inimigo, com um prazer descarado que deveria nos perturbar a todos. De sua boca já saíram coisas como “fazer chover morte e destruição do céu o dia todo”.  Ou ainda “atacar o inimigo enquanto ele está caído”. Ele é um sádico com sede desenfreada de sangue, alguém sem limites. Se entusiasma quando diz tudo isso, quando promete “letalidade máxima e sem hesitação”. Ou seja, lhe faltam mesmo escrúpulos, uma vez que até mesmo em conflitos armados há regras que precisam ser respeitadas.

Hegseth é um devoto da teologia do Reconstrucionismo Cristão, pregada pelo influente pastor de extrema-direita Douglas Wilson. O que ela visa é reformular todos os empreendimentos terrenos em torno dos ditames do que seus discípulos afirmam ser “A Lei de Deus”. Ela subordinaria toda e qualquer autoridade do Estado, que se tornaria seu obediente seguidor. Consta que ambos são amigos e compartilham admiração mútua. Uma conversa recente entre eles, no Pentágono, gerou uma preocupação profunda entre os legisladores estadunidenses. O senador Mark Kelly, por exemplo, piloto aposentado da Marinha, discorda veementemente disso e afirma entender que as Forças Armadas dos EUA precisam ser as melhores, mas seu comportamento pode ser misericordioso e de um respeito inquebrantável à vida e ao Estado de Direito.

Talvez o mais perturbador em tudo isso não seja apenas a existência de homens como Pete Hegseth, mas a naturalidade com que uma parcela da sociedade parece aceitar discursos dessa natureza. Ao longo da História, sempre houve governantes, generais e fanáticos dispostos a transformar guerras em cruzadas morais, convencendo seus povos de que Deus estaria tomando partido em batalhas humanas. O problema começa justamente quando a fé deixa de ser um exercício de humildade para se converter em autorização para esmagar, destruir e exterminar. Porque, quando alguém acredita agir em nome do próprio Criador, desaparecem os freios morais que poderiam limitar a barbárie.

Nenhuma nação deveria imaginar possuir exclusividade sobre o amor divino – essa coisa de povo e terra prometida, por exemplo. Nem os Estados Unidos, nem qualquer império do passado, nem líderes que se consideram enviados celestes armados até os dentes. Um Deus transformado em mascote militar deixa de ser símbolo de compaixão e transcendência para se tornar apenas um instrumento político, usado para justificar bombas, cadáveres e discursos de ódio. Talvez a pergunta mais importante não seja por que Deus amaria mais os EUA – ou qualquer outro país –, mas por que tantos homens insistem em criar um Deus tão parecido consigo mesmos.

16.05.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é uma gravação rara de Joan Baez cantando With God on Our Side (Com Deus ao nosso lado), de Bob Dylan. Na letra, Dylan questiona justamente a ideia de que guerras e massacres possam ser legitimados por Deus e pelo patriotismo. Ele desmonta esta teoria com o uso de uma ironia amarga.