NEM TODOS MERECEM SER PAIS
Domingo, 5 de julho de 2026. Em Francisco Beltrão, no Paraná, um pai caminha com sua filha de três anos e o enteado de cinco, com sacolas nas mãos, o que indica estar voltando de compras. Subitamente, se vira na direção da menina, que caminhava atrás, e a derruba com um chute no peito. Um homem testemunha tudo e intervém, com câmaras também confirmando a agressão.
Na mesma data, também pela manhã mas em Viamão, no Rio Grande do Sul, um missionário evangélico estadunidense, que reside na cidade com a mulher e cinco filhos, agride a socos e bate com a cabeça de um deles, igualmente de três anos, contra o chão. A razão foi ter passado pela porta do quarto da criança e não ter ficado satisfeito com o modo como essa lhe respondeu a um “bom dia”. Hospitalizado, o menino morreu devido aos ferimentos.
Ambas as notícias me causam enorme perplexidade e sentimentos mais profundos, ruins e misturados. Passeiam eles entre a raiva e o ódio, me provocam náusea e nojo. A razão é íntima, pessoal. Quem me conhece sabe que perdi para uma doença um filho com essa mesma idade. Isso depois de ter lutado muito para que ele a superasse, sem sucesso. Então me pego pensando no que vem a ser a paternidade e no modo como se espera que ela seja exercida.
Como alguém pode fazer a um filho voluntariamente aquilo que eu teria dado tudo para impedir que acontecesse ao meu? Gerar um filho não transforma ninguém em pai. A natureza distribui filhos com uma facilidade impressionante, sabemos disso. A paternidade, porém, não nasce no parto nem no registro civil. Ela precisa ser construída todos os dias, no cuidado, na renúncia, na paciência e, sobretudo, na proteção. Um pai existe para diminuir o medo dos filhos, não para aumentá-lo.
Sei que isso é complexo. Que, ao contrário do que o senso comum adora alardear, o amor de um pai ou de uma mãe não é incondicional e muito menos compulsório. Na verdade ele também resulta de uma construção, da formação de vínculos afetivos. Não se pode esquecer que não raras vezes as pessoas se tornam pais ou mães sem que isso fosse um desejo seu, algo planejado. E, mesmo quando são frutos disso, alteram rotinas, causam impacto, modificam modos de ver e viver a vida. Ou seja, podem desestabilizar o que antes existia. Mas, em que momento a dificuldade de ser pai atravessa a fronteira da sanidade? Podem o despreparo, a exaustão e a frustração explicar uma violência que destrói justamente quem mais precisava ser protegido?
A natureza faz homens se tornarem pais. A humanidade é que decide quais deles realmente o serão. Hoje o meu menino apenas me sorri em fotografias. Mas, se estivesse aqui, agora adulto, tenho certeza de que ele teria boas lembranças do nosso convívio. Ainda viveria o enorme afeto que era mútuo.
13.07.2026
P.S.: A ilustração que acompanha essa crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

13.07.2026
O bônus de hoje é a Suíte Orquestral No.3 em Ré Maior, de Johann Sebastian Bach. A gravação foi feita em 2021, durante a pandemia, no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Os musicistas são Luis Otávio Santos, Marcio Cecconello, Giovani dos Santos, Leonardo Bock, Diego Biasibetti, Alexandre Ritter e Fernando Cordella.