JOGAR XADREZ COM O DIABO
O nome original da obra produzida pelo artista alemão Friedrich August Moritz Retzsch é Die Schachspieler — em português, Os Jogadores de Xadrez —, e ela é de 1831. Na tela há a representação do Diabo jogando uma partida de xadrez com um jovem, enquanto um anjo observa ambos. O tabuleiro está colocado sobre a tampa de um sarcófago, reforçando o caráter alegórico da cena. O quadro se encontra em uma coleção particular e não está exposto em nenhum museu da Europa. Foi vendido pela Christie’s, em 1999, a um comprador não identificado. Existe, porém, uma gravura semelhante ao original, do mesmo ano, que se encontra no Metropolitan Museum of Art, de Nova York. Ou seja, não procede a informação que circula na Internet de que ele tenha pertencido ou pelo menos sido exposto no Louvre, em Paris.
Em tese, estaria em disputa a posse da alma do rapaz. E a disposição das peças sobre o tabuleiro demonstra que o Diabo está levando a melhor naquele momento. Porém, consta que um dia o enxadrista estadunidense Paul Morphy (1837-1884), que aos 20 anos já era considerado o melhor jogador do mundo, viu a cena e afirmou que havia sim como o ser diabólico ser derrotado. Ou seja, ele anteviu jogadas que, se fossem feitas, salvariam o oponente daquele destino cruel. Sendo ou não verdadeira essa história, ao menos serve para que os observadores fiquem menos apreensivos e angustiados com o possível desenrolar daquele acontecimento retratado.
Moritz Retzsch (1779–1857) foi um pintor, desenhista e gravador alemão que alcançou enorme prestígio no século XIX. Sua especialidade eram os desenhos de contorno, muito precisos e econômicos, que eram frequentemente transformados em gravuras. Em vez de construir cenas com grande quantidade de sombras e texturas, ele conseguia contar histórias complexas essencialmente pela linha, pelo gesto e pela composição das figuras. Foi importante também como ilustrador de obras literárias. Nessa área, seu trabalho mais célebre está relacionado ao Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe.
Eu jogava xadrez quando jovem. Mas nunca ousaria encarar um adversário do porte do Diabo. Aliás, nem sei se a minha alma teria alguma valia, despertando nele interesse. E também nunca tive a qualidade de Morphy, que aprendeu sozinho a jogar, vendo seu tio fazer isso. Aos 12 anos, ele enfrentou e derrotou o húngaro Johann Löwenthal, o primeiro de uma grande lista de mestres dos EUA e da Europa que não conseguiram superá-lo. Depois, seguiu carreira acadêmica e não se sabe que tenha sequer cogitado se tornar profissional no xadrez. O que se pode de algum modo entender, sabendo que vinha de uma família socialmente influente e rica. Seu pai era advogado, legislador e juiz; sua mãe tinha estirpe francesa.
Essa alegoria de alguém enfrentando uma disputa pela vida – valendo tanto para a física como para a espiritual – é a essência dessa história. Se Fausto negociou sua alma, o jogador de Retzsch joga tentando salvar a sua. E nós, muitas vezes, disputamos pela própria vida. O Diabo pode assumir muitas formas: doença, vício, pobreza, solidão, envelhecimento, perda, desespero — ou simplesmente representar a convicção de que não existe saída. Podemos ser o jovem diante do tabuleiro. Há ocasiões nas quais o diagnóstico médico parece definitivo; se perde alguém e sequer se pode imaginar o dia seguinte; o emprego se foi aos 60 anos. São momentos em que uma notícia devastadora nos faz olhar para o tabuleiro da existência e perceber que algumas de nossas melhores peças já não estão mais lá.
O adversário pode até acreditar que já venceu: nós não temos o direito de aceitar a derrota. O relevante, em cada uma dessas possibilidades, é que um lance pode mudar tudo. Uma porta pode se abrir e jamais se deve entender um insucesso como fato consumado. Voltando ao quadro, existe outro detalhe poderoso: o anjo não joga pelo homem. Ele está presente, observa e sofre — mas apenas o jovem tem o poder de mover cada peça. Convém que se pense nisso.
09.08.2026

O bônus de hoje é duplo. Temos o áudio de Juízo Final, de autoria de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, na voz de Clara Nunes. Depois temos vídeo com The Gambler (O Jogador), de Don Schlitz, em interpretação de Kenny Rogers.