O RATO E SEUS SEGUIDORES
Recebi o texto de uma pessoa muito amiga, mas não foi ela a autora. Ele é apresentado como sendo uma parábola, mas até fiquei em dúvida se de fato se enquadraria. Isso porque as parábolas são narrativas curtas, que em geral são simbólicas e usadas para transmitir um ensinamento moral, ético, religioso ou filosófico. Isso não parece ocorrer. Por outro lado, outra forma de identificar é que a história pode apresentar uma situação que, sendo concreta ou não, seja capaz de levar o leitor a compreender uma ideia mais ampla. Daí até concordo.
Enfim, o relato era de um homem que, ao entrar em loja de antiguidades, se depara com uma belíssima escultura que retrata um rato. Bestificado com a beleza da obra de arte, ele pergunta o preço ao vendedor. Assim, é informado de que ela custa apenas R$ 50,00, mas que, para conhecer a história do rato, teria que pagar R$ 1 mil. Diante da diferença entre os preços e entendendo não ser necessária a informação, compra apenas a escultura. E sai da loja com ela debaixo de um dos braços.
Acontece que enquanto ele caminha pela rua, constata uma situação que logo o aterroriza. À medida que anda, inúmeros ratos começam a sair de bueiros, lixeiras e becos. Eles são muitos e vão se associando em um grupo cada vez maior e mais assustador. Ele passa a correr e os animais também aceleram no seu encalço. Mas, como a cidade tem um porto e ele está próximo, vai até o cais e arremessa a estátua no leito do rio. Com isso, todos os ratos que o seguiam começam também a se jogar voluntariamente nas águas e morrem afogados.
Atônito e ainda se recuperando da experiência, o homem retorna para a loja. O mesmo vendedor o recebe e pergunta se ele voltara para comprar a história. – Nada disso, responde o comprador. Na realidade vim ver se você tem uma estátua de Jair Bolsonaro.
A lenda do Flautista de Hamelin (Der Rattenfänger von Hameln) é uma das mais intrigantes narrativas do folclore alemão. Só que a história que conhecemos hoje em dia mistura uma tradição medieval aparentemente ligada a um acontecimento real com elementos fantásticos acrescidos séculos depois. Ela é ambientada na Alemanha, no ano de 1284. Segundo a versão consagrada pelos irmãos Grimm, a cidade estava infestada por ratos e camundongos. Eles apareciam nas casas, depósitos e ruas, consumiam os alimentos e se multiplicavam sem que os moradores conseguissem controlá-los.
Foi quando apareceu um forasteiro que ofereceu seus serviços para resolver o problema. Mesmo incrédula, a população aceitou e ele, com uma flauta, começou a tocar uma música que produzia extraordinário efeito sobre os roedores, que o seguiram até as margens do Rio Weser, onde se jogaram e morreram. Só que, com o problema resolvido, quem o havia contratado não honrou o acordo e não fez o pagamento.
Tempos depois o estranho retorna à cidade, com outra aparência. Como os adultos estavam na igreja, ele tocou outra vez sua flauta e crianças passaram a segui-lo. Segundo a tradição, 130 meninos e meninas. O cortejo vai na direção de uma montanha, que se abre para que todos passem e logo depois se fecha. E nunca mais ninguém é visto.
No primeiro dos casos, dos ratos mais recentes, o instrumento que serve para a sedução é a própria imagem. No segundo é a música. Em ambos há “seguidores”, termo que hoje em dia deixou de designar apenas o aspecto físico de ir atrás de alguém. Existem os seguidores das redes sociais, por exemplo. Assim como os que adotam cegamente uma ideologia, os que se jogam em correntezas sem medir as consequências. Em comum entre os grupos estão o encantamento e a liderança conquistada, mesmo que de modo irracional. E o comportamento coletivo, de manada, muitas vezes de ação sem discernimento.
Talvez eu estivesse errado quando duvidei de que aquela primeira história fosse uma parábola. Afinal, ela leva a uma ideia bem mais ampla do que a simples aventura de um homem perseguido por ratos. A diferença é que, ao contrário do que acontece em Hamelin, hoje nem sempre é preciso uma flauta para conduzir multidões. Às vezes basta alguém que saiba falar o que elas querem ouvir. O risco do fim trágico — com ou sem o rio —, esse continua existindo.
15.08.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é a música Memphis Underground, com o flautista nova-iorquino Herbie Mann. Ele é um dos que mais contribuíram para que a flauta se tornasse um instrumento protagonista no jazz. Desenvolveu carreira atravessando fronteiras, uma vez que se destacou também em ritmos africanos, latinos e brasileiros, além de soul e funk. Este vídeo é de uma apresentação no Deutsches Jazz Festival, em Frankfurt, no ano de 1982.