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DONA OPORTUNIDADE

Há pessoas que passam pela vida sem ter tido um único encontro sequer com Dona Oportunidade. Têm enorme potencial para realizar e realizar-se, mas isso não acontece. Existem outras para as quais as chances caem no colo, mais facilmente do que molho de cachorro quente quando mordido de modo displicente. E há também aquelas que cavam, investem para que sejam vistas e lembradas. E me refiro a investimento na aparência – e não apenas física –, como também na “aparecência”. Umas até usam esse recurso, seu lado marqueteiro, como uma ferramenta de trabalho, com parcimônia e sem abandonar a ética. Mas existem as que apenas se tornam hábeis em estar sempre no lugar certo na hora certa. E, melhor ainda, perto das pessoas que lhes são convenientes. Para essas, a ética é apenas um estudo antigo e que caiu em desuso.

Desse grupo específico de pessoas, admito que tenho até um pouco de inveja. Mas pelos resultados, certamente não da sua postura e conduta. Essas duas eu confesso que me incomodam. O marketing pessoal é como perfume: se usado além da dose recomendada incomoda. Ao menos para quem possui nariz sensível. Acho que todos que estão me lendo, sem muito esforço, poderão lembrar de terem conhecido alguém assim. Eu mesmo cruzei com algumas pessoas notáveis nessa “arte”, ao longo da vida profissional. Não apenas nela, mas principalmente. Uma destas pessoas era inacreditável: estávamos em uma grande organização e ela sobrevoava pelos setores como se fosse um urubu, mas ao contrário: fugia de quem adivinhava estar sob qualquer risco, ameaçado de “morte”. Agora, quando virava a melhor amiga de alguém, se poderia contar que esse alguém estava prestes a ser promovido. Bem informada, transbordava em elogios falsos como nota de três Reais, mas distribuídos com cuidado e pontaria rigorosa. Qualquer sucesso, ela comparecia tentando compartilhar; quaisquer erros ou fracassos, estava tão longe que era capaz de sumir do prédio. O Diabo disparando da cruz.

Com o foco apenas no aspecto profissional, porque oportunidades valem também para o campo pessoal e afetivo, por exemplo, vamos examinar alguns conceitos, antes de prosseguir. Falo de talento, sorte, sucesso e prestígio, que são todos imprecisos, pois muitas variáveis interferem no seu alcance. Além disso, aquilo que para algumas pessoas pode ser enquadrado nisso, para outras não faz sentido. Para uns, pequenas conquistas podem ser grandiosas, enquanto feitos que parecem ter esse status muitas vezes não significam grande coisa. Isso depende de respostas sobre quem, quando, como e porquê. Algo assim como os bons textos jornalísticos, que precisam esclarecer esses questionamentos.

Talento pode ser definido como uma aptidão especial, uma habilidade inata para a realização de tarefas. Mas está longe de ser um dom, sendo na maioria das vezes também algo que pode e deve ser aprimorado com o treino, a repetição e a experiência. Pode-se dizer que possuir talento é alcançar resultados mais próximos da excelência, sabendo usar técnicas com eficiência. Sorte é quando o imponderável joga a nosso favor. Ela é irmã gêmea do acaso, quando se dá algo positivo. Quando a resultante do acaso é ruim, se diz que se trata de azar. Em geral, a sorte ocorre de forma repentina e inesperada, o que a torna ainda mais indefinível. Mas, um psicólogo britânico de nome Richard Wiseman, que estudou esse fenômeno, jura que podemos sim interferir no fator sorte. Ainda não li o seu trabalho, mas estou torcendo para que ele tenha razão. Quem sabe eu finalmente não aprendo?

Nos dicionários, sucesso é apresentado como ter êxito em algo, obter resultado feliz. Mas também significa chegar ao final de uma empreitada. Ou seja, percorrer o caminho completo também é significativo. Quando dezenas de equipes disputam uma competição esportiva, todas sabem que apenas uma delas será a campeã. Mas tem sucesso quem realiza um campeonato equilibrado, dentro das suas condições. E o prestígio, que é tão ou mais desejado, se define como sendo capacidade de exercer influência, adquirir notoriedade e valor. É ligado à estima, reputação e respeito, em geral não sendo resultado de talento ou sorte, mas de algum tipo de merecimento conquistado.

Dito isso, repito que ter oportunidades é fator preponderante na vida. Até porque elas são as criadoras de ocasiões para o comparecimento de tudo aquilo que referi antes. Mostrar o talento adquirido, aproveitar a sorte que sorri, alcançar sucesso e mesmo ter prestígio, em geral são consequências de oportunidades recebidas e bem aproveitadas. Isso porque sem elas não há talento que resista, não há sorte que resolva, se torna quase impossível alcançar sucesso. E Prestígio, só assim, com maiúscula, por ser nome próprio daquele bombom da Nestlé. Entretanto, na nossa sociedade desigual e pouco humana, as oportunidades parecem vir ao mundo trazendo o nome e o endereço de alguém. Uma espécie de tele entrega, que além de tudo é paga antecipadamente no cartão de crédito cadastrado. Quem recebe é bem provável que esteja no grupo que menos necessita. E, do conforto da sua casa, talvez fique repetindo o velho discurso da meritocracia, se for no Brasil; afirmando ser um dos tantos self-made-man (ou woman), se for nos EUA.

De minha parte, quero dizer que recebi ao longo da vida algumas boas visitas de Dona Oportunidade. Mesmo não tendo sido em todas essas vezes um bom anfitrião. O que só me dei conta, infelizmente, depois dela ter ido embora. Mas, como todo esperançoso brasileiro, sigo aguardando que ela tenha de mim a mesma saudade que tenho dela. E volte a aparecer. As portas estarão sempre abertas.

15.10.2021

Oportunidades abrem portas

Um bônus especial hoje: Tente Outra Vez, música de Raul Seixas, Paulo Coelho e Marcelo Motta. O clip é antigo, com o próprio Raul cantando.

O CÓDIGO SECRETO DA NATUREZA

Um matemático italiano chamado Leonardo Fibonacci (1170-1250), que também ficou conhecido como Leonardo de Pisa, pode ser considerado, com pouquíssima chance de erro, como o melhor entre os europeus que viveram durante a Idade Média. E, entre suas realizações, nenhuma ganhou mais notoriedade do que aquela que foi popularizada como Sequência de Fibonacci ou Código Secreto da Natureza. Isso até hoje ainda gera estupefação e uma certa polêmica, mas é inegável que se trata de um elemento que surpreende por ser encontrado com frequência avassaladora no mundo natural.

Foi em 1202 que Fibonacci escreveu Liber Abaci (Livro do Ábaco ou Livro de Cálculo, em português), onde aparece a tal sequência. Por mais absurdo que isso possa parecer, seu trabalho foi baseado na análise de um problema teórico sobre a criação e reprodução de coelhos. Nessa suposição, ele parte da hipótese de uma pessoa que não possuía coelhos (zero) adquirir um casal destes animais recém nascidos. Eles levam dois meses para atingir a idade de reprodução e, a partir disso, podem se reproduzir a cada 30 dias. Assim, imaginando que depois dela – a maturidade – ser alcançada façam todos os casais essa multiplicação, com absoluta precisão mensal, sempre nascendo um novo casal e nenhum animal morrendo, quantos pares de coelhos existiriam ao final de um ano inteiro? Claro que essa é uma probabilidade que é praticamente impossível, do ponto de vista biológico, mas muitíssimo adequada quando se pretende realizar um cálculo meramente matemático.

No primeiro mês existiria apenas o casal original, ainda imaturo. No segundo, ainda o mesmo, agora em idade reprodutiva. No terceiro, seriam dois casais: o original e sua primeira cria. No quarto, o original, sua primeira prole agora em condições de reproduzir e mais a segunda geração dos primeiros, num total de três. No quinto mês, os pioneiros, agora com três proles e os primeiros filhotes da primeira ninhada, num total de cinco. Seguindo sempre dessa forma, o número de pares de coelhos obedeceria à seguinte sequência: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, número atingido no final do ano. Mas prosseguiria com 233, 377, 610, 987 e assim sucessivamente, sempre com cada número sendo o resultado da soma dos dois anteriores. E a sequência é, portanto, infinita. Há quem diga que não teria sido baseado em coelhos, mas nas abelhas que o estudo de Fibonacci se baseou. Primeiro, porque são idênticos os resultados; segundo, porque muito próximo de sua cidade estava a mais importante exportadora de cera daquela época.

Essa “descoberta” passou totalmente despercebida da comunidade científica de então. Mas, ao longo do Século 19, muitos matemáticos estudando a sequência se deram conta da enormidade de vezes que ela aparece espontaneamente na natureza. Ela se repete de modo idêntico em diversas estruturas e em padrões de crescimento. Pegando como exemplo as pétalas das flores: o lírio tem três, a prímula cinco, o delfínio oito, a erva-de-são-tiago 13 e a chicória 21. Margaridas, por sua vez, podem ter 13, 21 ou 34. E os girassóis, que possuem duas camadas de pétalas podem ter 21, 34, 55, 89 ou 144 na primeira delas, com 34, 55, 89, 144 ou 233 na segunda, ambas emparelhadas perfeitamente.

Nos desenhos da casca do abacaxi, assim como também nas conchas dos caramujos, a mesma lógica é observada. As pinhas possuem um padrão geométrico em suas espirais, com oito delas irradiando no sentido horário e 13 no anti-horário. Inúmeras outras configurações biológicas repetem a frequência, como no arranjo do cone da alcachofra e no desenrolar das folhas das samambaias. Os números de Fibonacci aparecem na fórmula das diagonais de um triângulo de Pascal. E têm uso na conversão de milhas para quilômetros. O incrível é que recentemente se descobriu aplicações deles na análise de mercados financeiros, na teoria de jogos e na ciência da computação. A astronomia os identifica na disposição de constelações e galáxias. Isso tudo lhe rendeu também o apelido de Código de Deus.

Na realidade, não se sabe ao certo a razão de tantas “coincidências”. Mas que isso é de fato intrigante, não se pode negar. E, sem tentarmos resolver isso, o melhor é se pedir emprestada uma famosa frase de Shakespeare, em Hamlet: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”.

13.10.2021

Há padrões que se repetem na natureza, sem que se saiba exatamente a razão

No bônus de hoje, um músico cria uma melodia atribuindo números ao seu teclado, em determinada escala. Depois, toca seguindo rigorosamente a sequência de Fibonacci. A curiosidade está em saber o que resultaria disso.