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LEILA DINIZ E A BARRIGA TRANSGRESSORA

Houve um tempo em que mesmo o supostamente liberal Rio de Janeiro se escandalizava com a simples possibilidade de uma mulher grávida frequentar suas praias. De biquini, então, seria uma verdadeira afronta aos bons costumes, à família tradicional brasileira. E acontecia desta forma no final dos anos 1960. Foi quando uma mulher corajosa rompeu com isso, tomou banho de sol e mar, se deixou fotografar e com a atitude marcou seu nome na história da cidade e do país. Não que precisasse dessa ousadia a mais: tudo o que fizera até então já a colocava como alguém muito à frente do seu tempo. Alguém que não cogitava que normas e regras não explicadas, justas e necessárias fossem empecilho a viver sua vida com liberdade e plenitude. Vida que foi tão breve quanto intensa: faleceu aos 27 anos, em acidente aéreo. Falo de Leila Roque Diniz, a verdadeira musa de Ipanema.

Formada no curso de magistério, começou a vida profissional sendo professora em jardim da infância na Zona Sul. Aos 17 anos conheceu aquele que viria a ser seu marido, o cineasta Domingos de Oliveira. O relacionamento, que durou apenas três anos, foi importante para lhe oportunizar o começo de uma carreira como atriz. Primeiro foi o teatro e depois a TV Globo. Seu segundo casamento também foi com um diretor, o moçambicano Ruy Guerra, pai da sua única filha, Janaína. Talentosa, ela participou de incontáveis peças de teatro,14 filmes e 12 telenovelas. Mas seu destaque maior vinha da coragem de sempre dizer o que de fato pensava, sem fazer gênero ou procurar agradar quem quer que fosse. Falava abertamente sobre política, sobre sexo, assuntos que a sociedade conservadora considerava impróprios para mulheres. Assim, foi se especializando em quebrar tabus.

A mais famosa dessas atitudes contestatórias acabou sendo justo a de ir à praia de biquini, com gravidez avançada. Outro dos momentos relevantes na sua trajetória foi a entrevista exclusiva concedida a O Pasquim, em 1969. Cada palavrão dito acabou sendo substituído por um asterisco, transformando o texto publicado numa verdadeira constelação. Esta edição acabou sendo a de maior vendagem da história do jornal, mas resultou no aceleramento da instauração da censura prévia para toda a imprensa, o que já estava nos planos dos generais. A determinação ficou conhecida jocosamente como Decreto Leila Diniz.

Perseguida pela polícia política, ela teve que se esconder. Para isso, contou com a ajuda do então apresentador Flávio Cavalcanti, que emprestou a ela seu sítio. Quando as coisas se acalmaram, voltou à ativa justo como jurada em programa dele. Mas voltou a ser acusada, agora de supostamente ter ajudado militantes da esquerda. Com isso a TV Globo não renovou seu contrato e ela começou a trabalhar em teatro de revista. Muito criativa, improvisava a partir de textos de Oduvaldo Viana Filho, Millôr Fernandes e José Wilker, entre outros. E no carnaval de 1971 foi eleita Rainha da Banda de Ipanema, voltando a ilustrar páginas de jornais e revistas.

Ela estava a bordo do voo 471 da Japan Airlines, em 14 de junho de 1972, voltando de viagem a trabalho que fizera à Austrália, para participar de um festival de cinema. O avião caiu próximo do aeroporto de Nova Délhi, na Índia. Morreram dez dos 11 tripulantes e 72 dos 76 passageiros que o Douglas DC-8 transportava. Foi encontrado nos destroços um diário de Leila, que continha diversas anotações e incluía uma última frase inacabada, provavelmente escrita momentos antes do impacto: “Está acontecendo alguma coisa muito es…”. Sua filha acabou sendo criada pela atriz Marieta Severo, a Dona Nenê do seriado televisivo A Grande Família, e seu marido, o compositor e cantor Chico Buarque de Hollanda. Em janeiro deste ano ela publicou um texto se referindo à mãe biológica e ao fato de estar ela própria na barriga “transgressora” que chocara tanta gente. Nele fala com carinho da mulher que sempre será lembrada como símbolo da revolução feminina no Brasil.

01.08.2020

O bônus de hoje é Todas as Mulheres do Mundo, de Rita Lee, música-título do álbum lançado pela artista em 1993. A letra fala sobre a busca universal por felicidade e liberdade que faz com que, no fundo, toda mulher tenha em si (ou seja obrigada a ter) um pouco da coragem de Leila Diniz.

Também recomendo o livro Toda Mulher é Meio Leila Diniz, da escritora santista Mirian Goldenberg. Escrito em 1995, ele é uma versão de sua tese de doutorado em antropologia social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Museu Nacional.

ADÚ, O MENINO QUE APRENDEU A NÃO CHORAR

Um filme novo sobre um problema antigo: a dramática situação dos refugiados. Lançado em janeiro desse ano pela Netflix, ele foi produzido na Espanha, com história escrita por Alejandro Hernández e dirigida por Salvador Calvo. O nome do longa é o de um menino que, ao lado da irmã, se torna acidentalmente testemunha de um crime. Este fato é apenas o primeiro de uma série de calvários pelos quais Adú se vê obrigado a passar, que só agravam sua vida que já era miserável antes da necessidade de fugir para manter-se vivo. Na realidade, outras duas histórias paralelas também são acompanhadas: do convívio difícil entre um pai diretor de ONG com sua filha viciada; e de um policial que vive dilema de consciência em função da conduta violenta de colegas que com ele atuam na fronteira conflagrada.

Dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) apontam para 70 milhões o número de pessoas que foram obrigadas a deixar lares, cidades e países, ao longo de 2018, fugindo de perseguições e guerras – boa parte jamais consegue retornar. Aquele foi o quinto ano seguido de crescimento no índice da população deslocada. Desse total, 53% são crianças, sendo que muitas delas estão sozinhas, desacompanhadas de familiares ou conhecidos. Nos últimos anos o Brasil recebeu 126 mil pedidos de refúgio, mas atendeu apenas cerca de 8% deles – pouco mais de dez mil. O Ministério da Justiça tem agora não apenas negado novas solicitações como também não atualiza os dados da forma como fazia no passado.

Adú é um filme forte, mas muito sensível. A narrativa é crua e a fotografia excelente destaca a solidão dos personagens. O menino da história resiste nos momentos nos quais lágrimas seriam normais. Ele apenas olha, paralisado pela impotência, aquilo que acontece ao seu redor. A dor não verte fácil dos olhos, mas marca profundamente a sua alma. Ele aprende na marra a se acostumar com perdas. Mas mesmo assim consegue nos brindar com alguns momentos nos quais sorri. Pequenas coisas o alegram, como o passeio de bicicleta, porque seu mundo também é bem pequeno, menor do que o coração, a esperança e a vontade imensa de permanecer vivo. Ele é ingênuo mas ao mesmo tempo perspicaz, de tal sorte que aprende rápido a se virar num meio cruel, em especial ao ser orientado por Massar.

Calvo trabalhou algum tempo como voluntário na Comissão Espanhola de Ajuda aos Refugiados (CEAR), onde conheceu muitas histórias reais que serviram para fundamentar com o máximo de realismo seu filme. Os próprios nomes dados a dois dos personagens centrais na trama, Adú e Massar, são homenagens a pessoas de verdade que viveram dramas extremos que ele viu de perto. O Adú da vida real era um menino de seis anos que chegou à Espanha em um barco, ao lado da mãe e de duas irmãs. Ao menos era isso que fora contado, até descobrirem que a mulher não era sua mãe verdadeira e que ele estava sendo trazido junto com a família para ser entregue a uma rede de tráfico de órgãos. E o Massar real era um adolescente da Somália que era abusado sexualmente por um tio. Com 15 anos, ele atravessou o deserto do Saara para fugir da situação familiar. Acabou sendo escravizado na Líbia, de onde também conseguiu fugir até o Marrocos. Quando afinal alcançou as Ilhas Canárias, morreu de AIDS. No hospital teria falado para Calvo: “Não posso morrer depois dessa viagem toda e de afinal conhecer o que é a vida”.

Muitos de nós não conhecemos a vida. Felizmente não essa vida dura, onde sobreviver a cada dia exige muito mais do que alterar rotinas em função de uma pandemia. Não essa vida imprevisível, incerta e sempre levada ao limite. Porque não somos invisíveis, como permitimos que sejam os refugiados e os desassistidos no geral, podemos aproveitar o conforto das nossas casas para ver Adú. E quem sabe aprender de fato alguma coisa com ele.

30.07.2020

Abaixo, o trailer oficial do filme Adú.