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COMO TEM GENTE PERFEITA

Tanto tempo com nossas rotinas alteradas – mesmo que há muito exista um enorme contingente que não está nem aí para as recomendações da saúde pública –, que com certeza não estamos mais iguais ao que se era antes dessa visita inconveniente do corona. Alguns de nós mais reclusos que outros, mas todos com menos convívio, alimentação diferente e sono um tanto alterado. Mudaram as relações afetivas, de trabalho, de lazer e também as aparências. Cabelo e barba tendem a não ser os mesmos; e os pés andam mais acostumados com chinelos do que nunca. Cinemas foram de vez trocados pelo streaming; salas de aula estão todas elas virtualizadas; e foi com entregadores que fizemos as mais recentes e sólidas amizades.

Mas o que me deixa indignado é aquele pessoal que aproveita para fazer de conta que evoluiu além da conta nesse tempo, que conseguiu em seis meses aquilo que em geral levaria algumas encarnações. Ficam agradecendo aos céus pela pandemia; juram que andam meditando; desenterram gurus e “lideranças” espirituais há muito já desconectadas da realidade; sugerem o tempo todo lives sobre temas comportamentais; ampliam o envio de mensagens de bom dia, boa semana, bom tudo, que antes já entupia o WhatsApp; e nunca, nunca mesmo, se mostram despenteados em fotos e vídeos ou diante dos vizinhos na hora de levar o lixo para fora. Essa gente perfeita deve só ouvir música clássica, nos seus apartamentos; não tem esposa ou marido, filhos ou noticiários de televisão que os estressem, sequer por um único minuto.

Nenhuma delas esteve em farmácias esse tempo todo; não se resfriaram; não tiveram dor de dente. Depois do retorno das competições esportivas devem até achar graça de más atuações dos seus times. Estão todas prendadas como nunca, cozinhando menus de festa para qualquer almoço da semana. Nenhuma engordou, desfilam com as melhores roupas em casa mesmo e nem apostam em loterias, via internet, com medo de ganhar – imagina que azar seria enriquecer! Sua felicidade já é plena, sem necessidade de dinheiro. Se chove, um arco-íris nasce direto em uma das suas janelas. Afinal, para elas tudo é desígnio divino, trabalho incansável da espiritualidade maior. As pragas políticas de hoje em dia, por exemplo, são como aquelas bíblicas, gafanhotos e o escambau. Apenas provações necessárias que vão passar, assim como a pobreza, não se devendo fazer nada que atrapalhe o seu ciclo necessário.

O novo normal agora é dizer que tudo é o novo normal. Mudou a Terra, mudaram o Céu e o Inferno. O Diabo deve estar acusando Deus de ter criado essa doença como golpe baixo. Se fosse apenas um acelerador de desencarnes, tudo bem. Mas precisava ser também um “redentor evolutivo”? Deus, por sua vez, deve estar acreditando que, se essa é uma das obras do Diabo, ele errou na dose. Mas eu acho que ambos logo vão se dar conta de que se trata apenas de uma das “realizações” humanas. A gente desmata, polui, envenena, maltrata a natureza e não percebe que esse desequilíbrio todo gera coisas que sempre se voltam contra nós. Como esse vírus de agora, como outros que vieram antes e como todos os que ainda teremos que enfrentar. Na hipótese de sobrevivermos, claro.

Se a doença veio para “purificar” a humanidade, como esses mesmos fanáticos religiosos juram, esqueceu no caminho parte do protocolo. Porque está matando gente errada e poupando a escória. Se morrem o seu João e a dona Maria, o casal vira estatística. Se adoece o ministro que incentivava contágio com seu comportamento, leva para o Hospital Albert Einstein, com despesas pagas com dinheiro público, pede prece por ele nas redes sociais e, em silêncio, não deixa usarem os remedinhos que o Mito recomenda, nem tampouco ozônio.

30.11.2020

A perfeição e as máscaras da falsidade

No bônus musical de hoje, a muito oportuna Perfeição, do Legião Urbana. Ela integrou o álbum O Descobrimento do Brasil, lançado em 1993. Mas poderia ser de agora, novembro de 2020.

O FUTURO TEM NOVOS NÚMEROS

Se você foi uma das pessoas que votaram em 2018 movidas pelo ódio que ensinaram a ter do número 13, terá uma oportunidade surpreendente no próximo domingo. Poderá seguir nessa toada, sem desdizer a si mesma, ao mesmo tempo em que se redime das consequências daquele ato. Em Porto Alegre, por exemplo, basta digitar 65. Em São Paulo essa chance aparece com o número 50 e em Fortaleza com o 12 nas urnas eletrônicas. Confirme e pronto! Nada como estar com a consciência tranquila, tendo feito ótimas escolhas.

São muitas as pessoas que cumprem com esse dever cívico, vivenciam esse momento democrático, sem darem-se conta de que ele não dura apenas aqueles poucos segundos, mas permanece vigente por quatro longos anos. Essa decisão é de uma importância enorme, precisando ser tomada com a lembrança do que houve no passado, com a informação confiável do que está acontecendo no presente e com a projeção de um futuro que desejamos e merecemos. Vejamos o caso de Porto Alegre.

No passado, a capital dos gaúchos era muito mais segura e democrática. Priorizava as pessoas, a arte e a cultura; investia maiores recursos em saúde e em educação; trabalhando também com vários projetos de geração de emprego e renda. Porto Alegre tinha passagens de ônibus mais baratas, longe de ostentar o título atual, de mais cara entre as capitais do país. Já teve um orçamento participativo real – não apenas figurativo –; foi modelo para o planeta inteiro, com o Fórum Social Mundial; sediando também outros eventos que atraíram turistas e recursos, trazendo notoriedade e reconhecimento. Entretanto, as últimas três administrações fecharam unidades básicas de saúde; terminaram com o espaço que tinha a economia solidária; deixaram escolas sucateadas; aumentaram em muito o valor do IPTU; não cobraram nada dos grandes devedores inadimplentes; e abandonaram a população de mais baixa renda. Houve ainda casos comprovados de desvios de recursos públicos, como os acontecidos na Carris e no Demhab, entre outros, sem que as devidas providências para responsabilização e ressarcimento fossem tomadas. 

No presente, tem governante se orgulhando por entregar parte de obras que estavam previstas para a Copa de 2014, com a maioria delas ainda seguindo inacabadas, mesmo com cerca de um bilhão de reais que lhes foram destinados. Nossas praças e parques, exceto quando em “áreas nobres” da cidade, como Moinhos de Vento, Parque Moacyr Scliar e Praça da Encol, estão em completo abandono. Podas de árvores são feitas sem conhecimento e sem critério, destruindo a cobertura verde que era um dos orgulhos dos porto-alegrenses. Nunca a população de rua foi tão numerosa quanto agora; faltam vagas em creches; não há profissionais suficientes nos postos de saúde; há precariedade em iluminação pública e calçamento; as ruas estão sujas e as pichações tomam conta. O Mercado Público, depois do incêndio, não foi recuperado e agora querem vender; o trabalho da Guarda Municipal tem sido principalmente multar; inexistem programas de incentivo à microeconomia. Em termos de habitação e saneamento básico, muito pouco ou nada vem sendo feito. E a periferia está jogada à própria sorte.

No futuro, o que desejamos é que ampliem a oferta de atendimento em saúde, com especialidades médicas, exames e cirurgias; que ocorra prevenção, testagem, rastreio e aquisição de vacinas, para real enfrentamento da Covid; a formação continuada dos nossos professores; a universalização da cobertura para a pré-escola e mais atendimento nas creches, permitindo que mães trabalhem; e que se torne multiuso equipamentos escolares, com atividades no contraturno. Queremos inclusão digital; programas de alfabetização; atividades para a terceira idade; hortas e restaurantes comunitários. Desejamos a revisão tarifária, para que as passagens de ônibus fiquem mais baratas; um plano cicloviário que seja consistente. Também a ampliação dos atuais 8,4% para pelo menos 20% do valor das compras públicas destinados para microempresas; incentivo à construção civil e cooperativas; valorização de empreendimentos de bairros; e oferecimento imediato de microcrédito. Queremos centros de atendimento integrado e mais albergues, para população de rua; aluguel social, se necessário. Uma Guarda Municipal com foco comunitário e preventivo; a cogestão dos espaços culturais da cidade, como a Usina do Gasômetro, o Cinema Capitólio, o Complexo do Porto Seco e também os teatros. A utilização de prédios públicos ociosos será decisão positiva; assim como a redução do IPTU. E ainda planos de habitação popular e saneamento básico, com a viabilização de ligações domiciliares à rede cloacal das Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). Para concluir, uma administração que combata toda e qualquer forma de discriminação, como étnicas, sexuais e religiosas.

Se você se identifica com alguns desses desejos expressos acima, saiba que eles compõem parte das propostas de governo da candidata que aguarda seu voto no domingo. O que ela assegura que irá trabalhar para fazer é, sem dúvida, exequível e coerente. Cada item do que VAI FAZER vem acompanhado da explicação de COMO FARÁ. Suas propostas, portanto, não são nada abstratas. O que o outro candidato diz e promete é mais genérico do que remédio em farmácia popular. De concreto, apenas o anúncio de que pretende vender a Carris, a mais antiga empresa de transporte público em atividade no país. Ela não apenas é um patrimônio histórico, tendo sido fundada pelo Imperador Dom Pedro II, em 1872, como presta um relevante serviço por balizar o preço das passagens, impedindo aumentos ainda maiores. O que seus críticos nunca citam é que a Carris ganhou o Prêmio Nacional de Gestão Pública do Governo Federal. Sua venda, portanto, não é para melhorar em nada esse serviço que é essencial, servindo sim para dar satisfação ao setor privado que explora essas concessões e que há anos contribui em campanhas eleitorais.

Confie na força e na competência das mulheres. Contribua com seu voto para que uma delas assuma pela primeira vez na história como prefeita em nossa cidade. Vote sem medo no 65 e acredite: não há a mínima chance de Porto Alegre “virar uma Venezuela”, até porque não existe petróleo no nosso subsolo e nenhuma potência estrangeira irá impor bloqueios e sanções que nos empobreçam mais – nem teriam como fazer. O que pode acontecer é Porto Alegre se transformar numa cidade onde as pessoas sejam mais felizes. Onde seu patrimônio material e imaterial seja preservado. Onde as prioridades sejam a vida, o emprego, o respeito, a saúde, a igualdade, a educação, a dignidade das pessoas. Nosso porto merece voltar a ser alegre. Contribua diretamente para isso e compartilhe dessa felicidade.

26.11.2020

Tudo bem que as eleições desse ano são municipais. Mas fica aqui um bônus musical mostrando que o descontentamento vale para todos os níveis. O clip é Sr. Presidente, de Projota e Tom Leite. Ela já teve mais de 16,5 milhões de visualizações na internet. Se isso virasse voto…