Página 2 de 54

O ÓBVIO ULULANTE

Muitas e muitas vezes ouvi minha mãe e minha avó materna dizerem “meteu-se a avestruz, aguente o ovo”. Era quando a gente, na luta pelas descobertas naturais da infância, teimava em fazer alguma coisa que tinha tudo para dar errado, mesmo depois de advertido pela experiência dos mais velhos que aquilo terminaria desse modo. Tenho a impressão que hoje em dia as pessoas perderam essa capacidade de explicar as coisas com frases ou expressões assim, muito acessíveis mas repletas de significado. Um modo quase singelo de mostrar o paradoxo de um mundo que é, ao mesmo tempo, extremamente simples e complexo. Hoje em dia o que se tem para quase tudo é a explicação científica de um lado, em oposição com a burrice explícita do outro. No primeiro caso, algumas vezes as pessoas se perdem por excesso de informações; no segundo, por falta delas, de um mínimo de bom senso e até de raciocínio lógico – esses não conseguem ver nem mesmo o “óbvio ululante”, de Nelson Rodrigues.

Um caso evidente desses extremos hoje adotados está no imaginário conflito entre a crença e a certeza científica. Digo ser imaginário porque na verdade a ciência e a religião não são de fato conflitantes. A contenda se estabelece por interesses, alguns bem claros e outros obscuros, isso apesar da ciência não negar de modo algum a religião. O que ela pode afirmar, e faz isso categoricamente, é que Adão não foi feito de barro e que não cedeu costela alguma para ser transformada na companheira Eva. A evolução das espécies não exclui a existência de Deus, porque a magnitude da criação estaria mesmo na capacidade do que é criado se transformar. Uma inteligência superior deve realmente ter criado a Terra, mas com certeza não a fez plana. No sentido inverso, entretanto, o fanatismo religioso tem feito um enorme esforço para negar a ciência.

Ululo é o nome dado ao uivo dos cães e ao ruído semelhante a esse que eventualmente faz o vento. Um som lamentoso, plangente. Algo fácil de reconhecer, claro, evidente. Assim, o óbvio ululante é a redundância da obviedade. E se tornou título de um dos livros do jornalista, dramaturgo e escritor pernambucano Nelson Rodrigues. Nele há inúmeros relatos selecionados entre suas crônicas publicadas na coluna Confissões, do jornal O Globo. Em todos ele tenta sintetizar em prosa o que andava acontecendo nas ruas do Rio de Janeiro e no mundo todo, numa época na qual tudo parecia estar virando de pernas para o ar – imaginem o que ele não seria capaz de escrever, na atualidade. Fazia isso com deboche e com coragem espantosa, características muito em falta no jornalismo atual.

Mas, voltando ao conflito entre o conhecimento e a irracionalidade, está crescendo o número de negacionistas. Gente para quem a evidência não é verdade; e a verdade jamais será evidente. Pessoas que não acreditam em vacinas, no aquecimento global e no risco dos transgênicos. Que asseguram que as queimadas não oferecem perigo nem podem causar quaisquer danos – exceto, claro, se com isso não sobrar sequer uma única goiabeira. O mesmo grupo jura que a pandemia é uma farsa com objetivos ideológicos, que não existe corrupção no atual governo federal e, provavelmente, que a vereadora Marielle Franco se matou, com quatro tiros na cabeça, todos disparados pelas costas, só para jogar a culpa nas milícias.

Por outro lado, está na hora da academia aprender a falar de um modo que possa ser melhor entendida. Não adotar uma postura mais próxima da realidade dos interlocutores é não ser sequer ouvida, muito menos entendida. É abrir espaço para que outras vozes assumam o lugar do conhecimento. E a desinformação é mãe da ignorância e do medo, avó da subserviência, um tipo moderno de escravidão. Quem é ensinado a pensar aprende também a posicionar-se. Passa a ter uma opinião que é sua e não a reprodução de outra intencionalmente plantada. Passa a fazer diferença e viver, além de existir. Passa a enxergar o óbvio, seja ele ululante ou não.

23.10.2020

No bônus musical de hoje a música Admirável Gado Novo, que Zé Ramalho lançou em 1979, em clip dos Plugados.

A FAB E OS DISCOS VOADORES

No dia 25 de abril de 1977, uma segunda-feira, quatro homens foram até a Ilha dos Caranguejos, que fica na baía de São Marcos, próxima de São Luiz, capital do Maranhão, fazer coleta de madeira. O local não é habitado e costuma ser inundado pelas marés. Assim, depois do trabalho ser realizado, foram dormir em redes por volta das 20 horas, porque só seria possível navegar depois da meia-noite. Mas três deles acordaram apenas às cinco da manhã seguinte, todos com várias queimaduras de segundo grau pelo corpo. O outro estava morto. Exames médicos feitos por peritos não conseguiram concluir o que teria causado os ferimentos e a morte. Um dos sobreviventes, sob hipnose, afirmou que tinham sido atingidos por feixes de luz vindas do céu, desmaiando após fazer o relato. Noticiários da TV local registraram que naquela mesma noite e nos dias seguintes teriam havido avistamentos de objetos luminosos em várias localidades da região. Logo depois foi a vez do conceituado jornal O Liberal, de Belém, publicar matéria sobre outra sequência de aparecimentos, com luzes vindas de “um objeto que parecia pesado e volumoso”, nos céus paraenses. Uma embarcação teria sido atingida por elas e os ocupantes passaram por uma amnésia coletiva.

Ao longo do restante daquele ano e também no seguinte, muitos relatos semelhantes seguiram acontecendo, com uma frequência e similaridades assustadoras. Hospitais da região continuaram recebendo pessoas com queimaduras inexplicáveis. E foram tantos casos que, para apurar o que de fato estaria acontecendo e evitar o pânico que já estava prestes a se alastrar, a Força Aérea Brasileira, através do Comando Aéreo Regional de Belém, realizou uma investigação. Ela foi denominada de “Operação Prato”, em virtude de ser o formato da maioria dos objetos avistados, segundo afirmaram as testemunhas. Foi liderada pelo capitão Uyrangê Bolívar Soares de Hollanda Lima – nome comprido como esperança de pobre –, que comandava o Para-Sar, um esquadrão de elite da FAB. Essa terminou sendo a mais importante ação documentada sobre esses fenômenos, em nosso país.

O trabalho foi minucioso. Foram 20 os militares envolvidos, tendo sido utilizados binóculos, câmeras fotográficas e filmadoras na tentativa de registrar novas aparições que viessem a ocorrer. Durante quatro meses houve vigília e o recolhimento de um grande número de depoimentos de moradores. Os registros foram minuciosos e o monitoramento era feito nas 24 horas de cada dia. Os relatórios gerados foram mantidos em absoluto segredo e, reuniões da cúpula aeronáutica decidiram, ao final desse prazo, dar o caso por encerrado, oficialmente sem conclusões. Mas nunca foi permitido acesso público à documentação elaborada. Mas, passados 20 anos, uma entrevista concedida por Hollanda Lima mudou o rumo dessa história.

Foi no ano de 1997 que o então já coronel falou abertamente sobre o caso. E admitiu que chegou a acontecer um avistamento feito por ele mesmo, com alguns dos comandados, durante vigília noturna. Teriam visto objeto em forma de disco, em local denominado Baía do Sol, que fica na Ilha do Mosqueiro, em Belém. Sua parte posterior teria a cor preta, mas com uma luz âmbar no centro. Dele teria saído um raio amarelo, que chegou a atingir os pesquisadores, mas não impediu que a ação fosse filmada e fotografada. O fato, segundo ele, foi relatado ao seu superior, Protásio Lopes de Oliveira. Mas este não apenas ficou reticente com a descoberta como decidiu, logo após, dar por encerrados os trabalhos.

Dois meses depois de suas declarações conflitantes com o relatório da época, Hollanda Lima foi encontrado morto em sua casa. Investigações concluíram que ele havia retirado a própria vida, tendo se enforcado com a corda de um roupão. O fato foi tão estranho e o resultado da perícia tão rápido, que terminaram por permitir o surgimento de pelo menos duas teorias de conspirações. Ufólogos acreditam que ele tenha sido assassinado, justamente por ter revelado informações que deveriam permanecer sigilosas. Outras pessoas preferem assegurar que ele sequer morreu, tendo essa situação sido forjada, com ele saindo do Brasil com nova identidade. Mas nada nunca foi comprovado.

O material recolhido no Maranhão e no Pará, naqueles dois anos, em 2008 começou a ser liberado ao público. Mas sem a certeza de que a totalidade realmente tenha sido disponibilizada. A comunidade internacional de pesquisadores de fenômenos ufológicos, no entanto, tem certeza de que algo muito sério e significativo teria ocorrido. Sem acesso confiável ao que foi produzido pela FAB, baseia conclusões nos depoimentos que também seus representantes colheram dos moradores da região. Como no seriado Arquivo X, por enquanto a verdade continuará lá fora.

21.10.2020

Algumas imagens feitas durante investigações da Operação Prato

Bônus musical: Raul Seixas e a música SOS Disco Voador.