Página 2 de 84

A SABOROSA PITAYA E O ESTACIONAMENTO INDIGESTO

Até pouco tempo atrás eu sequer sabia que esta fruta existia. Até que fui apresentado, numa manhã de sábado, quando um dos feirantes da Feira Ecológica do Bom Fim, em Porto Alegre, me ofereceu um pedaço para provar. Foi amor à primeira mordida. O gosto é excelente. Levadas para casa, quando se conserva em geladeira por algum tempo antes do seu consumo, ficam ainda melhores. A Pitaya – também conhecida como Fruta do Dragão – possui uma consistência bem interessante. Carnuda e com boa quantidade de água, ela tem sabor adocicado, sendo rica em nutrientes e cheia de minúsculas sementes, que a gente come junto. Nunca vi antes tanta semente numa única fruta. Acho que se todas elas fossem plantadas iriam cobrir o planeta inteiro. Ou ao menos todas as regiões cuja clima fosse mais apropriado para o seu desenvolvimento. O que também não seria bom, porque a variedade dos sabores faz a vida e a existência mais interessantes. Vale para a alimentação o que vale para as ideias, a arte, a política, a moda, os esportes e o convívio em geral. Diversidade é a palavra certa, a palavra mágica.

O bairro do Bom Fim surgiu oficialmente em 1959. Antes disso o local era conhecido como Campo da Várzea, servindo a área de acampamento para carreteiros e para reserva do gado que servia para o abastecimento da cidade. Entre 1867 e 1872 foi construída a Capela do Nosso Senhor do Bom Fim, com o nome sendo gradualmente adotado pela população. Uma segunda denominação, Campos da Redenção, chegou a se confundir com a primeira devido ao fato de que após a alforria coletiva muitos libertos foram morar lá, sem outro lugar que os acolhesse. Por volta de 1910 foi a vez da comunidade judaica começar a se instalar nas proximidades. Consta que a União Israelita de Porto Alegre, uma das sinagogas construídas, é a quarta de todas as Américas em tempo de atividade ininterrupta. A gradual instalação de oficinas e casas de comércio foram alterando as feições do bairro, até chegar-se ao seu perfil atual, de comércio forte nos dias úteis e de imensa zona de convívio, aos sábados, domingos e feriados, algo quase bucólico.

A pitaya não é a única fruta exótica que se encontra por aqui. Na Ceasa vendem muitas outras, que são trazidas de fora do Estado e de fora do país. Noni, seriguela, physalis, kino, atemoia, canistel, sapoti, lichia, figo da índia e mangostim, por exemplo. Essa minha nova paixão é natural do México e do Caribe, sendo que o Brasil a importa principalmente da Colômbia. Mas já temos produção nacional aqui pertinho, em municípios do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. E são três as variedades, existindo pitayas rosa com polpa branca, rosa com polpa vermelha e amarela com polpa branca.

O Bom Fim é onde temos a Lancheria do Parque e o Bar Ocidente. Onde tivemos o Cine Baltimore e o Bar João, a Palavraria e a Espaço Vídeo. Nele existem a Sociedade Italiana, o brechó Maria Sem-Vergonha, o Teatro Araújo Viana e o Coletivo Bonobo, que é restaurante e espaço cultural libertário. Esses e vários outros locais, como cafés e livrarias, são pontos onde se encontram intelectuais, gente de todas as idades, integrantes de variados movimentos alternativos, artistas e boêmios em geral. Na Rua José Bonifácio temos aos sábados a Feira Ecológica – na verdade são dois grupos distintos, que dividem a área entre si, cada um ocupando parte das quadras. Nos domingos, o mesmo espaço recebe o Bric da Redenção. Mas é importante citar que tecnicamente nem é no Bom Fim, mas na divisa com o Bairro Farroupilha que esses dois eventos acontecem: a rua pertence a esse último.

Pode ser que a maioria das pessoas já saibam disso tudo. Mas há algo que talvez desconheçam e me deixou muito surpreso quando descobri: durante o período em que a rua fica interrompida, nas manhãs de sábado, os feirantes têm que pagar para a Prefeitura o valor que essa deixa de arrecadar com o estacionamento rotativo. Ou seja, é como se todas as vagas estivessem ocupadas sem interrupção, sendo isso rateado entre eles. Essa “Área Azul”, como é chamada, naquele ponto foi instituída durante o governo de José Fortunati (PTB), mantida depois no de Nelson Marchezan (PSDB) e continua agora, com Sebastião Mello (PMDB). Interessante é que quando um hipermercado quer se estabelecer pede e ganha um sem número de isenções. Aqueles que trazem produtos orgânicos para vender por preço justo saúde aos porto-alegrenses, esses são penalizados. Ninguém alivia para eles, então o negócio é ajudar no pagamento, de forma indireta, comprando umas pitayas a mais.

21.02.2021

No bônus musical de hoje, Ramilonga, de Vitor Ramil. É quase um hino, falando de Porto Alegre. Cita o bairro Bom Fim, mas faz muito mais do que isso. A gravação foi feita em estúdio, para programa  do Canal Encuentro, do Ministerio de Educación de la Nación, na Argentina.

A SEITA SECRETA DOS NAZISTAS

Hitler não era apenas um homem obcecado pelo poder e pela morte. Ele também gostava de arte, por exemplo, sonhando inclusive em ser um artista. Acontece que também nessa área era medíocre e obviamente isso não prosperou. Outra coisa que o fascinava era a paranormalidade. Como confiava em pouca gente e sempre imaginava que poderia estar em perigo, ameaçado, entendia que toda e qualquer proteção sempre seria benvinda. Assim como todo e qualquer conhecimento. O escritor José Lesta, em seu livro O Enigma Nazi, relata que ele fundou, em julho de 1935, a Sociedade de Estudos para a História Antiga do Espírito, que ficou conhecida pela sigla Ahnenerbe. Naquela época ele era chanceler da Alemanha, com o seu partido já dominando a política do país, usando toda a sorte de estratégias para incentivar o fanatismo, buscando que as pessoas vissem o nazismo como uma espécie de crença, algo de fato inquestionável. E o objetivo dessa organização era justamente auxiliar para que este objetivo fosse alcançado.

O suposto objetivo da Ahnanerbe era estudar e valorizar as tradições do povo alemão, além de procurar a origem da raça ariana. Mas nas suas reuniões o que era discutido de fato era uma forma de substituir o cristianismo, que era a crença preponderante no país, por uma nova religião. O oficial Heinrich Himmler, então comandante das SS, um corpo militar de elite, milícia responsável entre outras coisas pela proteção de Hitler, foi o escolhido para chefiar também esse grupo. O ocultismo seria uma das armas, talvez a principal, para o convencimento da população. Ele acreditava piamente tanto no sobrenatural quanto na missão que lhe foi delegada. Dentro da própria SS foi escolhido um grupo ainda mais seleto, que o futuro Führer – líder em alemão – gostava de chamar de “Monges Guerreiros”, passou a compor a Ordem Negra. Esses seguiam os preceitos do antigo paganismo germânico, participando de rituais.

Os pais de Hitler eram cristãos devotos e fervorosos. E ele soube usar essa proximidade com a religião para conseguir sua ascensão. Mas depois, cuidando para não deixar transparecer isso, foi se afastando do cristianismo. Não era mais necessário o seu auxílio e provavelmente até atrapalharia os seus verdadeiros planos de poder absoluto. Uma vez no comando do país, ele defendia o armamento da população; desacreditava da ciência que não fosse subserviente aos seus propósitos; via seus opositores todos como corruptos; se apresentava como um verdadeiro messias, que iria tirar o país de tempos sombrios na economia; acreditava cegamente na supremacia da raça ariana; perseguia negros, homossexuais, ciganos e judeus; usava com maestria recursos de comunicação social, em especial da propaganda, para doutrinar as pessoas; enxergava comunistas atrás de todas as moitas; e falava que uma nova política havia chegado, sendo ele o representante máximo de novos tempos.

Voltando ao que Lesta relata em seu livro, o primeiro departamento da organização criada foi o de simbolismos. Depois começaram a tratar de lendas, de uma tal de “geografia sagrada” e de ciências paranormais. A secção esotérica estava a cargo de uma dupla: Friedrici Hielscher e Wolfram Sievers. São poucas as informações que vazaram sobre ambos, mas se sabe que o primeiro era uma espécie de sumo sacerdote, temido até pelos membros da Gestapo, a polícia secreta alemã. A religião que estavam criando era baseada no sangue – não deles, é lógico – e na coragem. O Natal foi substituído por uma adoração ao Sol. A Páscoa pela festa Ostara, celebrando o início da primavera e a deusa da fertilidade. O casamento também deveria aos poucos ser substituído por uma outra cerimônia. Foi a pedido da Ahnanerbe que foram feitas várias experiências médicas em prisioneiros dos campos de concentração. Com o fim da guerra, o grupo acabou dissolvido. Mas existe a hipótese não confirmada de que vários de seus membros teriam fugido para a América do Sul. Em 1946 a organização foi declarada criminosa e Sievers, o último a assumir o seu comando, foi acusado de crimes contra a humanidade e enforcado. Morreram esse e outros homens igualmente fanáticos. O fanatismo não: esse permanece presente em nossos dias, assumindo novas roupagens, mas com a mesma essência do mal.

19.02.2021

O bônus musical de hoje oferece o tema composto por John Williams para o filme de Steven Spielberg, A Lista de Schindler.