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FICH DICH WIE ZU HAUSE – A INVASÃO DO PARAGUAI

Com a Guerra do Paraguai (1864-1870), quando tiveram que enfrentar a Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai, a população paraguaia teve uma redução considerável. Foram centenas de milhares de mortos, em sua maioria homens jovens, com estimativas apontando para cerca de 50% do número de habitantes. Isso impactou também na retomada do povoamento da região, fazendo com que fosse interessante e natural o incentivo à imigração. Essa política nunca chegou a cessar desde então, havendo épocas de maior ou menor aceleração. Foi assim, por exemplo, que as localidades de Hohenau, Obligado e Bella Vista, conhecidas como “Colônias Unidas”, se estabeleceram às margens do Rio Paraná, cerca de 400 quilômetros ao sul de Assunção, onde estão algumas das terras mais férteis do vizinho país. O que elas têm em comum são o fato de serem todas as três assentamentos alemães que foram criados há mais de século e que se dedicavam inicialmente à agricultura. Quem as fundou foi um homem chamado Wilhelm Closs.

Na mesma época na qual o nazismo começava a tomar conta da Alemanha, houve no Paraguai um reforço populacional, com a chegada de outra leva de alemães que fugiam por razões ideológicas. Mas agora um novo fenômeno surge e se estabelece, de modo silencioso: uma verdadeira e aparentemente inexplicável “invasão” de alemães. Eles estão se mudando nos últimos meses aos milhares, a imensa maioria chegando de forma irregular ao país. Desde junho de 2021 isso está acontecendo. Nos três primeiros meses de 2022 teriam entrado seis mil deles. Mas quem são essas pessoas? Qual o seu perfil e que motivo as está trazendo para a América do Sul? Um trabalho jornalístico da BBC World Service, que é um serviço de rede pública de televisão do Reino Unido, tentou esclarecer isso.

A maioria deles compõe famílias conservadoras e negacionistas, que se sentiam incomodadas com a exigência de vacinação contra a covid-19. Vieram para um lugar onde já existiam outros alemães e que não lhes cobrava vacinação para a entrada. Paradoxalmente, discordavam também da política do seu país de origem, que estava acolhendo bom número de pessoas vindas do Afeganistão, Síria e Iraque. Os que foram entrevistados não esconderam verdadeira aversão aos muçulmanos, atribuindo a eles responsabilidade por algo que identificavam como uma decadência alemã. Na Europa essas pessoas exigiam o endurecimento nas leis contra a imigração; na América do Sul se beneficiam do fato de não serem tão duras as leis que tratam do mesmo assunto.

Até janeiro deste ano o Ministério da Saúde do Paraguai não exigia certificado de vacinação dos estrangeiros que chegavam ao país. Assim, os alemães desembarcavam diretamente no aeroporto de Assunção, sem quaisquer dificuldades. Diante do número alarmante de ingressos e do protesto de paraguaios diante do risco sanitário, passou a fazê-lo. Então os “visitantes” passaram a desembarcar na Bolívia, que continuava com uma política mais flexível, ingressando depois via rodoviária no Paraguai. Mesmo com a percepção de que sejam bem mais do que os estimados, pelos menos seis mil alemães apenas nos primeiros três meses de 2022 já se estabeleceram na região. E o fluxo permanece contínuo. Para serem legalizados passaram a recorrer a funcionários públicos que aceitam um “por fora” para carimbar os seus passaportes.

Outro problema que começa a acontecer está comprovado na crescente reclamação dos cidadãos locais, que revelam inúmeras ocorrências nas quais têm sido humilhados e ofendidos pelos alemães, que não se constrangem em se referir a eles como inferiores. Uma visita que senta na sala, onde entrou por vontade própria e não atendendo um convite, passando então a reclamar dos moradores e do ambiente. Hohenau fica extremamente perto da divisa com a Argentina. E a menos de 200 quilômetros do Rio Grande do Sul. A frase “fich dich wie zu hause” usada no título desse texto, pode ser traduzida para “sinta-se em casa”.

17.05.2022

Bandeira do Paraguai

O bônus de hoje é outra vez duplo, com duas homenagens ao Paraguai. Primeiro temos Recuerdos de Ypacaraí, uma guarânia composta por Demetrio Ortiz, com letra de Zulema de Mirkin. Dizem que ela tem mais de mil versões, com 85% sendo feitas no exterior e não no Paraguai. Exageros à parte, apresentamos aqui uma esmerada produção com o grupo Auramuz. Os arranjos são de Florencia Ocampos e Rita Braziero; no vocal está Mónica Airaldi; e nos instrumentos Sair Borarín (bajo), Mafe Núñez (caíon), Florencia Ocampos e Rita Brazeiro (violoncelos) e Lucero Martínez (guitarras). Depois temos o áudio da polca paraguaia Pájaro Campana, apresentada com harpa, um instrumento símbolo do vizinho país.

Mónica Airaldi faz aqui uma apresentação precisa
Áudio da polca paraguaia Pájaro Campana

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, de Aldus Huxley

(312 páginas – R$ 28,89)

Um clássico moderno, o romance distópico de Aldous Huxley é incontornável para quem procura um dos exemplos mais marcantes da tematização de estados autoritários, ao lado de 1984, de George Orwell.

Ele mostra uma sociedade inteiramente organizada segundo princípios científicos, na qual a mera menção das antiquadas palavras “pai” e “mãe” produzem repugnância. Um mundo de pessoas programadas em laboratório, e adestradas para cumprir seu papel numa sociedade de castas biologicamente definidas já no nascimento. Um mundo no qual a literatura, a música e o cinema só têm a função de solidificar o espírito de conformismo. Um universo que louva o avanço da técnica, a linha de montagem, a produção em série, a uniformidade, e que idolatra Henry Ford. Essa é a visão desenvolvida no clarividente romance Huxley.

Ao lado de 1984, que criticava acidamente os governos totalitários de esquerda e de direita, o terror do stalinismo e a barbárie do nazifascismo, em Huxley o objeto é a sociedade capitalista, industrial e tecnológica, na qual a racionalidade se tornou a nova religião, a ciência é o novo ídolo, um mundo no qual a experiência do sujeito não parece mais fazer nenhum sentido, e no qual a obra de Shakespeare adquire tons revolucionários.

Entretanto, o moderno clássico de Huxley não é um mero exercício de futurismo ou de ficção científica. Trata-se, o que é mais grave, de um olhar agudo acerca das potencialidades autoritárias do próprio mundo em que vivemos. Como um alerta de que, ao não se preservarem os valores da civilização humanista, o que nos aguarda não é o róseo paraíso iluminista da liberdade, mas os grilhões de um admirável mundo novo.

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CADA MACACO NO SEU GALHO

Chamar de macaco um ser vivo, na natureza, se trata apenas de designar um símio. Existem os grandes (gorilas, chimpanzés, bonobos e orangotangos) e os menores (gibões). Mas todos eles são igualmente primatas. Entre os humanos brancos, de uns tempos para cá, também tem sido esse um lamentável modo de apontar indivíduo igualmente humano, que não tenha pele clara. Muitos estádios de futebol, por exemplo, têm presenciado esse uso mais do que impróprio, criminoso.

No nosso idioma há uma expressão – cada macaco no seu galho – que não está nem nas matas, nem no racismo estrutural. Sinteticamente, ela significa que cada um deve se ocupar daquilo que de fato lhes diga respeito. Manter posição profissional ou social que caiba a si naquele momento, naquela circunstância. Também que não deve se preocupar com assuntos que não sejam da sua alçada, sendo sempre aconselhável evitar qualquer intromissão no que não lhe compete. Existe a suposição não comprovada de que ela teria surgido quando um oficial determinou que cada soldado seu subisse e ocupasse galhos em árvores, nas laterais de um caminho por onde passariam inimigos. Uma emboscada, portanto, ocorrida sabe-se lá em qual de tantas guerras.

Há ainda uma brincadeira infantil, conhecida em alguns rincões brasileiros, que leva esse nome. Várias crianças formam uma roda e vão cantando e girando: são os macacos. No meio, outra criança faz o papel do caçador. Quando alguém grita a expressão citada, como palavra de ordem, todos os macacos precisam se abrigar em lugares mais altos, como cadeiras. Quem não consegue, fica no chão e pode ser “caçado”, sendo eliminado da brincadeira.

A Constituição do Brasil prevê a existência de três poderes distintos, constitutivos da República: Legislativo, Executivo e Judiciário. Essa ideia de tripartição de poderes não é nova nem nossa. Remonta à obra de Aristóteles, na Grécia antiga, que já vislumbrava a existência de três funções distintas e necessárias para a estruturação e o funcionamento do Estado e, por consequência, da sociedade: a edição de normas, a aplicação dessas normas e o julgamento de todo conflito que disso pudesse resultar. Montesquieu, ao escrever O Espírito das Leis e o publicar anonimamente em 1748, corroborou essa ideia original e distinguiu que essas funções teriam que ser exercidas por três órgãos distintos, autônomos e independentes.

No Brasil não existe um quarto poder, como alguns até desejam e gostariam de chamar de “Moderador”. Também não há figuras que sejam “garantidoras” ou “revisoras”. As Forças Armadas, por exemplo, não são um poder legal. Não lhes cabe discutir as instituições. Não é papel delas dar qualquer palpite sobre o seu funcionamento. Elas são uma estrutura burocrática dentro do Estado. Foram criadas, diga-se de passagem, para a defesa da integridade nacional diante de eventual risco externo. Esse é um papel importantíssimo, que se precisa reconhecer, mas não lhes cabe quaisquer outros. Convêm lembrar que elas são subordinadas ao poder civil, exatamente como consta na Constituição. As tropas são formadas pelo alistamento compulsório de jovens, sendo seus oficiais apenas funcionários públicos.

A mesma Constituição define formação e prerrogativas, por exemplo, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF). O primeiro não tem quadro próprio, sendo composto por no mínimo sete membros, três deles ministros do STF, dois outros ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e dois advogados apontados entre seis de notório saber jurídico e idoneidade moral. Além disso, há toda uma estrutura de observação e acompanhamento das suas ações, formada por representantes dos mais variados setores da sociedade. Tudo é feito com segurança, enorme responsabilidade e transparência. Quanto ao STF, sua função institucional é a de servir como guardião da própria Constituição Federal, apreciando casos que envolvam lesão ou ameaça a suas provisões. Ou seja, é a última instância da justiça em nosso país. Ressalte-se que não cabe recurso a nenhum outro tribunal, quanto às decisões por ele tomadas. E muito menos pode ele submeter-se aos caprichos e vontades de outras instituições que não sejam de fato um poder.

15.05.2022

O bônus de hoje é a música Adventure Of A Lifetime (Aventura de Uma Vida), do Coldplay. Essa banda britânica foi fundada em 1996, pelo pianista e vocalista Chris Martin e seu amigo, o guitarrista Jonny Buckland, quando estavam no University College London.

UMA OBRA PRIMA

A recomendação de livro que faço hoje é muito especial.

POVOS ORIGINÁRIOS: guerreiros do tempo, de Ricardo Stuckert

(capa dura – edição bilíngue – 280 páginas – 164 fotos extraordinárias)

Na primeira viagem que fez à Amazônia, em 1997, a imagem de uma mulher Yanomami ficou gravada na memória do fotojornalista Ricardo Stuckert. Quase 20 anos depois, quando voltou à aldeia para fotografá-la outra vez, decidiu assumir a missão de registrar de forma mais ampla a vida dos indígenas brasileiros – uma maneira de prestar-lhes um tributo e ao mesmo tempo torná-los mais conhecidos ao redor do país. O resultado desse tributo é o livro Povos Originários.

Com o olhar amoroso e a habilidade técnica de sempre, Stuckert capturou a beleza e a alma dos povos originários do Brasil em imagens grandiosas, de forte impacto: a mãe que amamenta o filho; as crianças que brincam no rio; o ritual da ayahuasca; o arco e a flecha do caçador; o pajé majestoso; a canoa entalhada no tronco; o Kuarup, homenagem anual aos mortos; o jovem casal grávido; o velho cacique Raoni. Dividido em capítulos que retratam 10 etnias – Yanomami, Ashaninka, Yawanawá, Kalapalo, Kayapó, Pataxó, Kaxinawá, Xukuru-Kariri, Korubo e povos isolados – Stuckert destaca a importância daqueles que estão na linha de frente da luta pela preservação dos nossos recursos naturais.

Entre tudo e todos, onipresente, a floresta. “A fotografia é minha forma de vida, é a maneira como eu vejo o mundo”, ele diz. E Povos Originários é a sua visão dos homens e das mulheres que estão na linha de frente da preservação de recursos naturais de importância capital para a vida em todo o planeta.

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