Página 3 de 45

QUASE TIVEMOS NOSSO “11 DE SETEMBRO”

Também num mês de setembro, mas 13 anos antes do dia 11 aquele, do ataque às Torres Gêmeas em Nova Iorque, um brasileiro sequestrou avião comercial, com o objetivo de lançá-lo contra o Palácio do Planalto. Foi um maranhense de 28 anos, chamado Raimundo Nonato, desempregado que atribuía a situação desesperadora que vivia ao seu conterrâneo e então presidente, José Sarney. Aproveitando que era precário o sistema de segurança nos aeroportos brasileiros naquela época, não existindo sequer revista de bagagens e aparelho de raio-x na maior parte deles, embarcou armado com um revólver calibre 32, que adquiriu com esse propósito, sem qualquer dificuldade. Fez isso em Confins, Belo Horizonte, em voo da Vasp que se dirigia ao Rio de Janeiro. Era uma quinta-feira, dia 29, e o avião um Boeing 737-300. Estavam a bordo 98 passageiros e sete tripulantes. Curioso é que o avião já havia estado em Brasília, tendo partido de Porto Velho com várias escalas programadas.

O sequestrador esperou quase o momento do pouso para tomar a atitude que havia planejado: levantou do seu assento e forçou a porta de acesso à cabine de pilotagem. Alertado por um comissário que ali não era um dos banheiros, sacou a arma e atirou. Acertou de raspão na orelha do seu interlocutor. Depois, fez disparos contra a fechadura da porta, que não era como as atuais, obrigatoriamente blindadas. Com as balas atingindo o painel, o comandante Fernando Murilo Lima preferiu abrir a porta antes que houvesse algum dano que prejudicasse a condição de voo. Então a tripulação recebeu ordem de alterar o curso e rumar para a Capital Federal, sendo informada que a intenção era jogar o avião contra a sede do governo e matar o presidente.

Raimundo era um homem reservado e sem vícios. Sua família era muito pobre e tinha vindo do interior do Pará. Trabalhou anos na construção civil, chegando a acompanhar obra da empreiteira Mendes Júnior, no Iraque. Mas não tinha qualquer envolvimento político ou ideológico. O que estava lhe faltando eram condições de sobrevivência, devido à inflação sem controle da época, situação associada a um comportamento obsessivo. Faltava também a ele qualquer conhecimento sobre aviação, o que permitiu ao comandante mudar o transponder acionando código internacional que anuncia sequestro. Com isso, no solo iniciavam os procedimentos necessários para apoio ou interceptação.

Quando o copiloto Salvador Evangelista fez movimento para pegar o microfone e responder chamado de rádio que pedia confirmação da alteração da rota, o sequestrador se assustou e disparou contra a nuca do aviador, que teve morte instantânea. Com a situação muito tensa, o piloto tentava explicar ao homem armado, durante o percurso, que seriam abatidos se tentassem se aproximar do alvo pretendido. Próximo de Brasília, o Boeing passou a ser acompanhado por um Mirage III que decolara da Base Aérea de Anápolis. O sequestrador então mudou de ideia e disse para rumarem para Goiânia. Quando se aproximaram deste novo destino, outra mudança de ideia e ordem para seguirem até São Paulo, o que seria impossível com os tanques quase vazios.

Foi então que o piloto tentou algo em tese impossível de ser feito com um avião comercial: um tunô barril. Explicando, é aquele movimento de girar o avião no ar, ficando de cabeça para baixo e depois retornando à posição original. Quem viu o filme O Voo, no qual Denzel Washington interpreta um piloto alcoólatra, sabe o que estou dizendo. A intenção era desequilibrar e derrubar Raimundo, para que fosse desarmado e dominado. Passageiros e tripulação estavam com cintos afivelados, mas ele não, pois permanecia em pé na cabine. Não deu certo, porque o sequestrador conseguiu se agarrar e não caiu. Então o motor esquerdo deu sinais de que iria apagar. Mesmo assim outra manobra foi tentada, desta vez um parafuso. Agora ele foi ao chão, mas os tripulantes que estavam preparados para agir também foram. Só que a confusão gerada permitiu o pouso, uma vez que a pista estava bem à frente. Quando o avião tocou o solo, às 13h45min, os motores apagaram por falta de combustível.

Após negociações com a Polícia Federal, Raimundo desceu levando o comandante como escudo, para trocar de avião, tendo aceito um de menor porte para fugir. Um atirador de elite tentou alvejá-lo e errou o tiro, o que nos permite concluir que não merecia essa qualificação.  Ele então baleou o refém antes de ser derrubado com outros três disparos. Sobreviveu, mas algum tempo depois, quando estava para ter alta do hospital, morreu de causas misteriosas. O legista chamado para determinar o motivo foi Fortunato Badan Palhares, o mesmo que algum tempo depois forjou laudo pericial acobertando a verdade no Caso PC Farias, durante o Governo Collor. Afirmou ter sido anemia e não houve contestação. Fernando se recuperou sem maiores problemas, retornando ao trabalho na mesma empresa aérea.

O presidente Sarney nunca agradeceu ao piloto pela sua coragem. Ao que se saiba, ele jamais foi condecorado por ter salvo tantas vidas. E agora não há mais como corrigir essa injustiça: o comandante Fernando Murilo Lima faleceu na quarta-feira, 26 de agosto de 2020, em Armação dos Búzios, onde morava. Discreto e competente, atuou até completar 60 anos. Deixou esposa e dois filhos, que certamente têm dele o orgulho que o país todo deveria ter.

12.09.2020

Na foto um Boeing 737-300 da VASP, semelhante ao que esteve envolvido no incidente

O bônus muito especial de hoje é o link de acesso ao documentário Um Golpe Americano (Loose Change), escrito e dirigido por Dylan Avery, em 2007. Ele é o relato minucioso de uma série de detalhes que nunca ficaram bem explicados, em relação ao episódio do atentado contra as Torres Gêmeas, em Nova Iorque (EUA), no dia 11 de setembro de 2001. Ele é longo, mas merece ser visto com especial atenção, quando houver tempo disponível para tanto.

UM ATENTADO COVARDE

Muitas pessoas inocentes morreram, no atentado de 11 de setembro, mas a vítima mais conhecida foi a democracia. Especialmente por isso, não se deve esquecer o dia de amanhã. A ação de um país estrangeiro, que tinha agentes infiltrados naquele que foi vítima do ataque, agindo como cúmplices do absurdo, aponta para gravidade maior do fato. E isso deveria ter recebido repúdio unânime da comunidade internacional, o que lamentavelmente não aconteceu.

Mal tinha amanhecido o dia e havia algo estranho no ar. O presidente foi alertado e tratou de localizar um membro importante do seu gabinete, sem sucesso. Naquele momento não imaginava que este sumido estava envolvido numa conspiração que mudaria os rumos do país. Vasos de guerra dos EUA estavam de prontidão, no limite das águas territoriais, perto o suficiente para interferir de imediato se fosse necessário. Ao mesmo tempo, 33 dos seus caças e aviões de observação estavam em base aérea de país vizinho, muito próximo de vindimas de reconhecida qualidade, mas sem que seus pilotos pudessem provar quaisquer dos vinhos ali produzidos. Enquanto isso um WB-575, que é um verdadeiro centro de telecomunicações voador, sobrevoava as proximidades da capital sem constrangimentos do tipo “espaço aéreo invadido”.

A organização terrorista de tendência neofascista Patria y Libertad, patrocinada financeiramente pela CIA, que também providenciava o treinamento militar de seus membros – uma espécie de milícia – já havia assassinado um general que se recusara a associar-se ao golpe que estava sendo gestado. Este era planejado por grupos de ultradireita, aglutinados em torno do Partido Nacional, que não havia engolido a devastadora derrota nas urnas, quando as tendências de esquerda somaram esmagadores 64% dos votos, elegendo um presidente que prometia profundas e necessárias reformas. Mas, se não tinham competência para amealhar votos na população, estes contavam com o apoio de generais conservadores, muito interessados em cargos, mesmo que ao custo da subserviência a uma potência estrangeira. Antes do dia fatídico, com desinformação, ameaças e ações pontuais, era semeado o medo na população e criado clima para justificar intervenção.

No palácio, sabedor de iminente possibilidade de golpe, o presidente recebeu apoio dos carabineiros, que lhes asseguraram lealdade. Uma hora depois, duas das principais emissoras de rádio começaram a transmitir mensagens de uma junta militar que era formada por três comandantes, sendo seu líder justo o membro do gabinete que não se apresentara antes ao chefe da nação, quando chamado. Nessas notas, pediam a rendição do eleito afirmando que, se não a obtivessem, atacariam por terra e ar. A maior parte dos militares que defendiam a constituição preferiram defender a própria vida, se retirando. Apenas alguns franco atiradores permaneceram nas posições, o que se revelaria insuficiente para deter os primeiros tanques que cercaram o local, às 9h55min. Atendendo o desejo do povo, que tentava se organizar em bairros industriais, o presidente resistia. Às 11h52min aviões Hawker Haunter, da Força Aérea, iniciaram o bombardeio ao palácio, que começou a ser consumido pelas chamas, e à residência oficial. Por volta de duas da tarde, as portas são derrubadas e o exército invade o local. Por ordem presidencial, todo o aparato que ainda resistia, evacua as dependências. O líder permanece e é metralhado. Uma autópsia realizada 17 anos depois garante que ele se matou, mesmo com aquele absurdo número de tiros. Às 18 horas começava oficialmente mais uma ditadura na América Latina, com a decretação de estado de sítio e a sumária supressão de direitos e liberdades individuais. Cerca de mil mortos tingiram de sangue as ruas de Santiago naquele dia e nos seguintes, numa resistência popular infrutífera.

Salvador Allende, que ousou querer atender vontades do seu povo, buscando realizar sonhos de desenvolvimento harmônico e diminuição da desigualdade, pagou com a vida. Nos dias seguintes ao 11 de setembro de 1973, os militares criaram centros de detenção e tortura; estabeleceram censura à informação; fecharam organizações civis; arrasaram com o sistema de educação, com a cultura e a arte; cercearam a justiça; atacaram templos religiosos, mesmo de grupos que os apoiavam; ampliaram privilégios da elite; e entregaram boa parte do patrimônio nacional. O Chile contabilizou cerca de 4 mil mortos e desaparecidos, além de 200 mil exilados. Até que, no início dos anos 1990, depois de lenta reorganização das forças democráticas e progressistas, se reconciliou com a própria história e baniu o general Augusto Pinochet para o merecido lugar na lata de lixo da história. De fato, não convêm que se esqueça dessa data, nem lá nem aqui.

10.09.2020

O palácio bombardeado

Bônus: Música Gracias a La Vida, da chilena Violeta Parra, nas vozes de Las Tres Grandes (Guadalupe Pineda, Tania Libertad e Eugênia León), gravação feita no México em 2015. Violeta Parra foi a compositora e cantora que criou o conceito de música popular no Chile. Foi também a fundadora do Museu Nacional de Arte Folclórica daquele país.