Página 3 de 166

MEU VIZINHO MONARQUISTA

Em frente ao meu apartamento há uma casa que foi recentemente vendida e reformada pelos compradores. Os novos vizinhos já se mudaram e a estão ocupando desde pouco antes do final de dezembro. Uma vez por outra os vejo da janela. Nunca conversamos, pelo menos não até agora. As pessoas cada vez conhecem menos quem mora por perto. Vale para o meu prédio e acredito que também para a maioria dos demais: a gente se reconhece e cumprimenta, mas não há vínculos mais próximos. Sei o nome de vários e acredito que muitos também saibam o meu. Em algumas ocasiões se troca ideias nos corredores, na garagem e em outras áreas comuns. E existem as esporádicas reuniões de condomínio, nas quais a maioria nem comparece. Só que o verdadeiro convívio, aquele que se imagina ainda exista nas comunidades menores, esse ficou perdido no passado. O que é uma pena.

O vizinho novo fez uma coisa inusitada: instalou um mastro na frente da casa e nele hasteia, diariamente, uma bandeira brasileira. Mas não a atual e sim a da monarquia. Se ele próprio não for um descendente da família Orleans e Bragança, por alguma razão admira muito essa forma de governo. E pode ter saudade de um período que ele próprio não viveu. A monarquia no Brasil foi relativamente breve. Tivemos apenas dois imperadores, o Dom Pedro pai e o Dom Pedro filho, entre 1822 e 1889. Esses limites são a proclamação da independência e a proclamação da república, essa última – adivinhem – já com a participação decisiva de militares.

A bandeira imperial brasileira foi desenhada pelo francês Jean-Baptiste Debret. Tem como fundo um retângulo verde e sobre ele, no centro, um losango amarelo, como a nossa atual. Mas o significado está longe do que adoravam repetir professoras no nosso antigo Curso Primário: não são nem as matas nem o ouro, ambas coisas abundantes até pouco tempo atrás. Talvez o desmatamento sistemático e a mineração ilegal possam mudar no futuro os panos que se usam, passando para cinza e marrom, por exemplo. Originalmente, o retângulo foi explicado como um símbolo masculino e o losango como feminino. O verde era a cor da Casa Real de Bragança, remetendo a Dom Pedro I; e o amarelo era a cor da Casa Real de Habsburgo, da imperatriz Dona Leopoldina. No centro fica o brasão imperial. E a esfera armilar e a cruz de Cristo são símbolos de Portugal. Apenas ramos de café e de tabaco, que também aparecem no desenho, são de fato brasileiros. Eram importantes artigos de exportação na época, produzidos e beneficiados com mão de obra escrava. Por fim, acima de tudo, temos uma coroa de diamantes, que aponta para o poder e a riqueza.

Tivemos no Brasil, em 21 de abril de 1993, um plebiscito para determinar a forma e o sistema de governo que a população desejava. Essa decisão fora tomada quando da elaboração da Constituição de 1988, quando houve a redemocratização do país, depois do período da ditadura militar. Os eleitores tinham que decidir sobre qual a melhor forma (republicana ou monarquista) e sobre o sistema mais apropriado (presidencialista ou parlamentarista). Votaram pela restauração da monarquia 10,2% dos brasileiros que compareceram às urnas. Esse percentual foi menor do que o dos votos em branco (10,5%) e dos votos nulos (13,2%). No Rio Grande do Sul os monarquistas tiveram representatividade menor do que a média nacional, ficando em 8,8%. Ao final, a esmagadora maioria preferiu manter a república presidencialista.

Uma outra hipótese para a bandeira é que o vizinho seja bolsonarista – mas eu, particularmente, prefiro a primeira. Isso porque seguidores de Jair Messias adotaram, em algumas das suas manifestações, o uso da bandeira imperial. Apesar da afirmação “Brasil acima de tudo”, ficou normal usarem as dos EUA, como de Israel e até da Ucrânia. Essa, mesmo sendo também brasileira, carrega outro tipo de incoerência: eles defendem o regime militar, tendo sido os fardados que tiraram Dom Pedro II do poder. Há quem afirme que esse apego é uma forma de construir uma legitimidade, mesmo que ilógica. Ou de relembrar um período que acreditam ter sido de desenvolvimento sem igual. Algo regressista, como de resto boa parte das ideias do atual governo. Além disso, o astrólogo e guru de Bolsonaro, Olavo de Carvalho, já se manifestou favorável à monarquia. E Luiz Philippe de Orleans e Bragança, eterno pretendente a príncipe, foi eleito deputado federal em 2018, pelo PSL, que era então o partido do presidente. Seja como for, a bandeira é bonita e não incomoda em nada estar ali tremulando, quando o vento ajuda. No mínimo ela serve para instigar nossa curiosidade. A minha pelo menos, garanto que ela estimula.

11.01.2022

Bandeira do Império do Brasil

O bônus de hoje é a música História da Corte, de Toquinho e Paulo César Pinheiro. Ela integra o CD Mosaico, lançado em 2005. As canções foram produzidas para um texto teatral de Millôr Fernandes (Outros Quinhentos), baseado nos 500 anos do descobrimento do Brasil. Oito anos depois a obra foi resgatada pela Biscoito Fino.

O ASSASSINATO DE SOLEDAD

O dia 8 de janeiro de 1973 foi o último da existência da poetisa paraguaia Soledad Barrett Viedma. Naquela data, depois de brutalmente torturada e morta, seu corpo foi abandonado dentro de um barril. Estava nua e tinha aos seus pés uma poça de sangue e o feto de quatro meses que até então levava no seu ventre. Isso ocorreu numa cidade do interior de Pernambuco. Ela era mais uma vítima da ditadura militar que desde 1964 havia sido implantada no Brasil. Seu crime era ser militante da esquerda; desejar uma vida melhor para o povo brasileiro e latino americano.

Soledad trazia de berço a ânsia por justiça e liberdade. Nascera no dia 1º de janeiro de 1945 em Laureles, cidade localizada no sul do Paraguai. Era filha de Alejandro Rafael Barrett López, que foi um dos fundadores do Partido Comunista Paraguaio. E neta do escritor e líder anarquista espanhol Rafael Barrett, que veio para a América do Sul em 1904 e ganhou grande notoriedade por denunciar as barbáries e as injustiças sociais, com os trabalhadores mais pobres sendo mantidos em regime de escravidão.

Quando ela tinha apenas três meses, sua família precisou se exilar na vizinha Argentina, onde viveu durante cinco anos. Depois disso, puderam retornar para o Paraguai, onde passou o resto da infância e teve uma adolescência repleta de inquietudes e descobertas. Dedicou-se ao canto e à dança, sendo presença constante em eventos culturais. Quando tinha 17 anos ela foi sequestrada por um grupo neonazista denominado Los Salvajes, de origem uruguaia. Exigiram que ela gritasse “Viva Hitler e Abaixo Fidel!” e ela se recusou. Em função disso, com navalhas terminou marcada em ambas as coxas com suásticas. Fizeram isso também porque sua mãe era de família judaica e a ignorância da direita confundia antissemitismo com antissocialismo.

Em 1967 ela conheceu seu primeiro companheiro, o brasileiro José Maria Ferreira de Araújo, com quem teve uma filha batizada com o nome indígena de Ñasaindy. Em 1970 ele voltou para o Brasil, com o objetivo de juntar-se à resistência contra a ditadura. Mas foi identificado e assassinado logo que chegou. Sem receber notícias, ela também veio para o nosso país, onde tomou conhecimento da morte de José Maria e se filiou à Vanguarda Popular Revolucionária. Sua filha ficou com os avós e ela pode se dedicar ao estudo, à poesia e à militância revolucionária. Ganhou destaque e foi enviada para atuar em Pernambuco, onde conheceu e se relacionou com José Anselmo dos Santos, o “Cabo Anselmo”, que usava o codinome de Daniel. Mas ele era um agente duplo, sendo espião infiltrado pelos militares para identificar e delatar jovens da resistência.

Anselmo era o pai do bebê que ela esperava, mas a denunciou junto com os demais integrantes do grupo pernambucano. Participou da tortura e morte da companheira, ao melhor estilo Carlos Brilhante Ustra, com total frieza e ausência de resquícios de humanidade. Localizados na Chácara de São Bento, na cidade de Abreu e Lima, nos arredores de Recife, todos os integrantes foram executados. Antes, no entanto, separaram cada um em localidade diferente, para interrogatórios regados ao sadismo peculiar dos torturadores. Soledad tinha marcas profundas de algemas apertadas nos pulsos e vários cortes pelo corpo. No final, foi abatida com quatro tiros na cabeça.

Naquele dia, 49 anos atrás, foram também assassinados Evaldo Luiz Ferreira, Eudaldo Gómez da Silva, Jarbas Pereira Márquez, José Manoel da Silva e Pauline Reichstul. Hoje são apenas nomes e poucas pessoas sabem das suas histórias. Mas eram vidas, repletas de esperança e de sonhos. E isso permanece vivo ainda hoje.

09.01.2022

Soledad Barrett Viedma

O bônus de hoje é outra vez duplo. A música Cálice, com a cantora Gabi Porto e o pianista Guilherme Borges. Há citações incidentais de outras canções, em poema de Diego Paleologo, o que só reforça a força da letra. Os autores Chico Buarque e Gilberto Gil tiveram o som dos seus microfones cortados pela censura, durante apresentação no festival de música Phono 73. Como o próprio nome aponta, ele ocorreu no mesmo ano, quatro meses após a morte de Soledad.

Logo depois temos a sensibilidade do compositor, violonista e cantor uruguaio Daniel Viglietti, com a música Soledad Barret. Um dos maiores expoentes do canto popular em seu país, ele faleceu em 2017.