Página 3 de 103

O FREI E AS SERENATAS

Meu pai foi tabelião em São Francisco de Paula e depois em Bom Jesus, cidades localizadas nos Campos de Cima da Serra, no nordeste do Rio Grande do Sul. Nessa segunda eu nasci. Moramos lá por alguns anos, até ele se aposentar e irmos todos embora. Mas tenho boas lembranças da localidade e de seus habitantes, tendo algumas vezes retornado depois, para visitas. Um destes moradores ilustres me veio à memória hoje: o Frei Getúlio. Uma figura realmente emblemática, respeitada e admirada pela população. Ele era um dos melhores amigos do meu pai. Depois de sua morte, num acidente de trânsito que nunca foi bem explicado, seu nome foi dado ao ginásio que existe na localidade.

Lembro dele com sua túnica marrom, as sandálias tradicionais e aquela corda amarrada na cintura, que sempre me despertou curiosidade em saber para que serviria. Mas eu nunca perguntei. Hoje, com todo o conhecimento do mundo cabendo “dentro” de um computador, me foi possível descobrir isso e muito mais sobre sua vestimenta. Mesmo eu nunca tendo sido católico. A corda, com três nós, representa os três conselhos evangélicos: obediência, pobreza e pureza de coração. Mas o entendimento do que cada um deles de fato representa é mais complexo. Obediência é usada no sentido de acolhida e de um recolhimento para poder escutar o valor maior. Uma abertura de sentidos, com lealdade para viver um grande projeto. Pobreza não faz referência a uma questão meramente econômica, mas a compreensão de saber colocar tudo em comum, ter a coragem da partilha. E pureza de coração é mais do que castidade, chegando ao nível da verdade e da transparência. Significa a intenção de sempre revelar o melhor de si.

Um dos hábitos que tinha o Frei Getúlio era o de aparecer na nossa casa tarde da noite, para fazer serenatas. Liderava grupo de amigos, com voz e violão, no mínimo. Às vezes outros instrumentos musicais também estavam presentes, como algum acordeon. Todos nós acordávamos, eles entravam e o tempo parava. Sempre tinha algo para todos comerem e ninguém dispensava alguma bebida – eu não ganhava essa última, é lógico. Lembro que me acomodava cheio de sono em uma das poltronas e aguentava o máximo que podia, raramente até o final porque esse se dava já alta madrugada. Isso aconteceu várias vezes e a única coisa que sempre se repetia era a entrada, sendo tocada La Cumparsita ainda do lado de fora, para chamar a atenção. Esse tango, de Gerardo Rodriguez e com gravação memorável de Carlos Gardel, era uma das músicas preferidas do meu pai.

Serenatas no Brasil são hábito existente desde o início de sua história. Ainda no início do século XVI existem registros de serestas, das quais deriva o termo. Em 1717 o viajante francês Le Gentil de La Barinais as descreve com mais exatidão. Homens que saiam de festas em altas horas, ainda sob efeito etílico, cantarolavam e tocavam ruas a fora. Quando apaixonados detinham-se embaixo das janelas das amadas e caprichavam nas suas declarações. Mas esse não era o único motivo das paradas, podendo ser em casas de amigos e até de estranhos, posto que muitas vezes esses boêmios sequer estavam conscientes de sua localização exata. Consta que o costume veio da Idade Média, com o trovadorismo, quando os menestréis entoavam canções e poemas com dedicatórias. E foi da Península Ibérica que teria vindo para as nossas terras, atravessando o Atlântico.

O Frei Getúlio era um homem que entendia com exatidão a importância da vida em comunidade. Estava presente e participativo em todas as iniciativas que representavam algum avanço e proteção ao seu povo. Em especial via a educação como sendo fundamental para um futuro melhor. Sempre brincalhão, mesmo nos momentos em que a seriedade se impunha, tinha o poder de iluminar uma época na qual havia poucas luzes. Talvez tenha morrido por isso. Mas, para quem o conheceu de perto, ficou sempre a impressão que, numa noite qualquer, ele voltaria a cantar sob alguma das janelas da casa.

02.05.2021

Os capuchinhos usam sempre vestes na cor marrom

No bônus musical de hoje, o Valinor Quartet interpreta La Cumparsita, tango de Geraldo Rodriguez. O grupo híbrido, que se dedica em especial ao jazz e ao clássico, tem na sua formação Bem Powell no violino, Slava Tolstoy na guitarra, Greg Feingold no contrabaixo e Sergei Teleshev no acordeon.

REFRIGERANTES SÃO UM RISCO LÍQUIDO

O primeiro passo dado num processo que viria a se tornar a lucrativa indústria de refrigerantes de hoje em dia, foi ainda em pleno século XVIII. O químico inglês Joseph Priestley inventava, em 1772, um modo de se gaseificar água, com a injeção de gás carbônico. Mas foi apenas 99 anos depois, em 1871, que surgiu oficialmente, nos EUA, uma empresa que se dedicava à produção e engarrafamento de uma bebida que merecia ser identificada como tal: a Lemon’s Superior Sparkling Ginger Aleã. O que aconteceu 15 anos antes do farmacêutico John Stith Pemberton criar a Coca-Cola, em Atlanta. Mais sete, em 1893, um colega de Pemberton chamado Caleb Davis Bradham inventa bebida que batizou de Brad’s Drink. Isso foi na Carolina do Norte, sendo pouco tempo depois seu nome alterado para Pepsi-Cola.

No Brasil, o pioneiro foi o médico Luiz Pereira Barreto, de Resende, no Rio de Janeiro. Em 1905 ele criou um método que permitia realizar o processamento das frutas de guaraná, que como xarope poderia depois ser bebido com água gaseificada. E em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 1906 foi lançada a primeira linha nacional de refrigerantes industrializados. Eram três produtos distintos: Guaraná Cyrilla, Água Tônica de Quinino e Limonada Gazosa. Isso foi muito antes do que começou a ser feito pela Antarctica, em 1912; e pela Brahma, em 1918. Também merece destaque o Guaraná Jesus, com sabor de canela, uma invenção do farmacêutico Jesus Norberto Gomes, em São Luiz do Maranhão, em 1920. O “batismo”, como se vê, está relacionado ao nome do criador, não sendo nenhuma carona pega no cristianismo.

Os ingredientes que compõem essa espécie de bebida não alcoólica são água tratada; açúcar, em geral sacarose, com cerca de 11%; concentrados, que dão cor, aroma e sabor; acidulantes, que regulam a doçura e acentuam o paladar; antioxidantes, que evitam a ação do oxigênio sobre o produto; conservantes, que inibem o desenvolvimento de microorganismos que provocam turbidez; edulcorantes, usados quando são refrigerantes de baixa caloria; e dióxido de carbono, para gaseificar. Assustadoramente artificial, como se pode perceber. Mesmo assim, com os riscos que hoje se sabe que podem trazer para a saúde, são largamente consumidos no mundo todo.

Foram momentos que impulsionaram o consumo, a popularização dos eletrodomésticos, nos anos 1950 – os domicílios passaram a ter quase todos um refrigerador –; e o forte investimento publicitário. Bem depois disso, também ajudaram o surgimento das latinhas e das embalagens PET, mais práticas do que as antigas, que eram apenas de vidro; e o estilo de vida das pessoas, cada vez mais urbano e com pouco tempo para as refeições, feitas em geral fora de suas casas. Com tudo isso, os saudáveis sucos naturais foram sendo deixados de lado. Apesar da indústria esconder um pouco os números reais da sua comercialização, dados ainda de 2014 apontam para terem sido vendidas em todo o mundo naquele ano mais de 1,7 bilhão de copos, latinhas ou garrafas, apenas da Coca-Cola. Isso significa cerca de 19.675 unidades por segundo. Nos últimos dois anos, o mercado teve retração, mesmo que não significativa. Isso foi devido a fatores econômicos, mas também em função de uma conscientização maior da população, que tem sido melhor informada e orientada na busca de alimentação que seja mais saudável.

Voltando ao quesito publicidade, quando também nos anos 1950 um produto sabor uva buscou aceitação no mercado brasileiro, recorreram a Heitor Carillo, que criou um jingle que se tornou muito famoso. Ele fez uso do recurso de repetição do nome, para torná-lo conhecido, mas fez isso levando ao extremo. E o “quem bebe Grapette, repete Grapette, Grapette é gostoso demais” marcou mais de uma geração. Quatro décadas depois, quando o Guaraná Antarctica enfrentava dificuldades por ser consumido geralmente por crianças pequenas e pessoas idosas, Nizan Guanaes criou uma campanha também calcada no forte uso de jingles, buscando outros públicos. Foram três peças publicitárias em dois anos de veiculação: uma associava a bebida com pizza, outra com pipoca e a terceira com sanduíche. Especialmente a segunda colou de tal maneira no imaginário das pessoas, que o Guaraná pulava das prateleiras como o milho saltava no óleo quente. Esses dois exemplos estão em áudio, no final do texto.

Contado um pouco da história, da formulação e outros que tais, não se pode concluir sem a citação de problemas de saúde que os refrigerantes causam. O primeiro e óbvio é a obesidade, pelo fato de serem muito calóricos, na sua maioria. O segundo, também decorrente do excesso de açúcar e acidez, é ser facilitador do surgimento de cáries: o esmalte se dissolve e as bactérias bucais tomam conta. Também há o problema de contribuírem para formação de pedras nos rins, pela presença de ácido fosfórico na fórmula, sobrecarregando o trabalho daqueles órgãos. Essa mesma substância causa osteoporose. E o xarope de milho, que tem muita frutose, feito em combinação com enzimas artificiais, causam vício, provocam diabetes e problemas cardiovasculares. O que menos as pessoas sabem é que o benzoato de sódio, que está na fórmula da maioria, está associado à causa da asma e de eczemas. Mas, o que pode também ser muito sério, sendo desconsiderado por órgãos da saúde responsáveis pela regulamentação, é que muitos são envasados em embalagens que contêm ABP ou bisfenil-A, uma resina associada ao desenvolvimento precoce da puberdade. Isso leva a posteriores problemas reprodutivos.

Agora, que já devo ter informado e assustado o suficiente uma boa parte dos meus leitores, me deu sede. Vou até a cozinha, espremer umas laranjas que, espero sinceramente, não tenham muito agrotóxico.

30.04.2021

No bônus musical de hoje, o clip de Anúncio de Refrigerante, da banda brasiliense Capital Inicial.