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COTAS SÃO QUESTÃO DE JUSTIÇA

No Dia da Consciência Negra, entre tantos temas pertinentes que podem e devem ser discutidos, no sentido de buscar-se a tão necessária igualdade e o mais que merecido respeito, opto por falar, mesmo sabendo o quanto isso pode estar sendo repetitivo, sobre a política de estabelecimento de cotas raciais. E faço isso por entender ser essa uma questão basilar, essencial para o enfrentamento de algo que é estrutural e envergonha o nosso país.

É necessário começar dizendo que o estabelecimento de cotas, enquanto ações afirmativas, não são exclusividade do Brasil. Em todos os continentes temos governos e instituições que executam diversos programas para expandir admissões e acessos de pessoas pertencentes aos chamados “grupos não dominantes”, tendo como base variados aspectos, com ênfase para etnia, gênero, deficiências e condições econômicas desfavoráveis. Nos muitos países onde eles são adotados, o objetivo é o mesmo: diminuir as disparidades sociais, econômicas e educacionais que se revelavam imensas. Convêm ressaltar ainda que são várias as formas de adoção dessas providências, indo além daquelas mais facilmente percebidas, que ocorrem no setor público, com vagas reservadas em concursos e para ingresso nas universidades, por exemplo. A própria iniciativa privada tem partido para ações desse tipo, quando se torna ciente que também tem responsabilidade.

Mesmo entendendo que as chamadas ações afirmativas não são, em local algum do mundo, certeza de solução definitiva – mesmo sendo parte importante desta solução –, nem para a pobreza e muito menos contra o preconceito sofrido, sua adoção permite garantir pelo menos a redução de desvantagens injustificadas de determinados grupos sociais. É uma forma de assegurar o respeito à diversidade e valorizar o ser humano em sua essência. A Constituição de 1949 assegurou cotas na Índia, sendo que elas permanecem em vigor, ainda sendo obrigatórias na educação e no serviço público. Apenas 1% dos dalits, ou “intocáveis”, casta considerada inferior naquele país, a quem compete os serviços degradantes de manuseio de cadáveres e de limpeza, e dos shudra, formada por trabalhadores braçais, tinham curso superior em 1950. Em 2005 esse percentual chegou a 12% e continuou subindo. Uma situação semelhante ocorreu na Malásia, com os “filhos da terra”. Na Austrália e na Nova Zelândia há políticas de reparação para com os aborígines; na África do Sul, para os negros; na Colômbia para os índios. E o Canadá garante para os esquimós reservas até mesmo no parlamento. Esses não são os únicos casos, existindo muitos outros que também poderiam ser acrescentados, inclusive nos EUA e em Israel, países citados com frequência pelos detratores das cotas brasileiras, em geral as mesmas pessoas que negam a existência do racismo e acreditam que tudo se limita à meritocracia: quem faz por merecer, quem demonstra competência, chega lá sempre.

Ainda no caso específico do nosso país, os críticos da adoção do sistema de cotas determinadas por motivos étnicos “esquecem” na sua argumentação, não raras vezes de forma proposital, a diferença nada sutil de tratamento que foi dada, historicamente, aos povos que vieram de fora auxiliar no nosso desenvolvimento. Os colonos alemães, italianos, poloneses, ucranianos e de outras origens europeias e asiáticas, que aqui chegaram no século XIX, mesmo enfrentando enormes dificuldades iniciais, se estabeleceram em lotes que terra que receberam como doação. Também ganharam outros incentivos, como isenções fiscais e acesso a sementes e ferramentas, por exemplo. Era uma política de povoamento, em especial da região sul, que foi implementada com sucesso. Além disso, não se pode esquecer que todos eles vieram por vontade própria. Já a população de origem africana veio à força, trabalhou em regime de escravidão, sofreu os mais severos castigos físicos e psicológicos, nada recebendo além da sua alimentação e um mínimo de vestimenta. E quando da suposta libertação, indenizados foram aqueles que eram seus “proprietários”. Aos negros, nada foi dado. Depois de libertos, ou se submetiam a permanecer nos mesmos locais, em condições tão adversas quanto antes, ou se tornavam errantes, analfabetos e sem posses.

Ser contra a política de cotas adotadas em nosso país equivale a ser favorável à discriminação, à injustiça. É necessário manter e aprimorar programas que garantam acesso de mais negros e indígenas ao ensino superior, assim como o analfabetismo precisa ser erradicado de uma vez por todas. Temos que incentivar mais mulheres candidatas em todos os níveis de eleições. As vagas de empregos para pessoas com deficiência têm que ser garantidas e talvez ampliadas. A economia solidária deve ser priorizada, sempre que possível, nas aquisições de produtos por parte dos governos. Isso tudo se mostra essencial para que o Brasil talvez um dia venha a ser a nação que hoje acredita ser.

20.11.2020

Obs.: O texto acima foi escrito ANTES da barbárie acontecida ontem à noite, com o espancamento e morte de um homem negro no Carrefour do Passo D’Areia, em Porto Alegre, tendo sido postado à meia-noite. Não fosse assim, com certeza o tema teria sido esse. Meus sinceros sentimentos de pesar para com a família da vítima. E minha voz somada à exigência de justiça exemplar e urgente.

A “meritocracia”, proposta por brancos direitistas e capitalistas, desconsidera as desigualdades sociais. Justiça é cobrar de cada um conforme suas possibilidades e permitir acesso e condições de vida a todos, conforme suas necessidades.

No bônus musical de hoje, Bia Ferreira canta Cota Não é Esmola, no projeto Sofar Curitiba, gravação de novembro de 2017.

EU SEMPRE GOSTEI DE GIBIS

Tão logo fui alfabetizado, comecei a ler gibis. Mesmo antes disso eu gostava de ver as tirinhas publicadas nos jornais e pedia que lessem para mim os diálogos. Algumas das histórias eu entendia mesmo sem o auxílio das palavras, mas depois que fui decifrando o mistério das letrinhas, ficou ainda melhor. Então passei a pedir as revistinhas e meus pais, para minha sorte, nunca foram contrários. Isso porque na época da minha infância surgiu a hipótese, que muitos defendiam sem argumentar, que tal hábito imbecilizava. A televisão ainda não era popular o suficiente para assumir esse papel. E meios digitais só existiam na ficção.

Claro que tinha meus prediletos, mas lia de tudo. Na verdade, fugia um pouco da obviedade da família Disney, sem ser de modo algum contra seus personagens. Gostava de Tintim, Fantasma, Mandrake e Tarzan. Conheci Brucutu, Dick Tracy e Os Sobrinhos do Capitão – por favor, não relacionar com aquela família atual. Depois veio a fase dos super-heróis, com ênfase no grupo adolescente da Turma Titã. Daí tive um tempo bastante breve lendo Flash Gordon, Capitão Marvel e Tex. De Homem-Aranha e Batman, com seus traumas e angústias, gosto até hoje. Então eu fui crescendo e conheci a fina ironia de Rango, Mafalda e Asterix, o Gaulês. Desses três últimos devorei todos os volumes lançados, muitas vezes tendo que retirar em bibliotecas. Na mesma linha, acho Calvin e Haroldo, assim como Hagar, o Horrível, simplesmente fantásticos. Nunca neguei ou abandonei de fato nenhum desses personagens, que afinal ajudaram a me constituir. Permaneci fiel mesmo tendo a oportunidade de conhecer bem depois quadrinhos que qualificam como “adultos”, tipo os trabalhos incríveis produzidos por Manara, Serpieri e Crepax.

A primeira história em quadrinhos que surgiu, segundo defendem alguns estudiosos, foi The Yellow Kid, nos EUA, no ano de 1895. Esse era o nome pelo qual conheciam o principal personagem das historietas criadas por Richard Fanton Outcault. Era um garoto careca que vestia uma espécie de camisolão que tinha essa cor e ia até seus calcanhares. As falas vinham impressas na roupa, não em balões uma vez que esses foram adotados mais tarde. A publicação saía no suplemento dominical que era destinado ao público infantil, rodado em cores pelo jornal New York Sunday World, na ocasião dirigido por Joseph Pulitzer. Esse imigrante de origem húngara viria a ganhar muito destaque no jornalismo daquele país, com seu nome sendo dado a um importante prêmio que existe até hoje.

Apesar desse quase consenso internacional, aqui no Brasil já circulara, no ano de 1869, a revista Vida Fluminense. Nela, com o sugestivo nome de As Aventuras de Nhô Quim, eram publicados desenhos feitos pelo italiano Ângelo Agostini, radicado em nosso país. As histórias contavam experiências de um caipira na cidade grande, sendo as primeiras que adotaram um personagem fixo: o que dava título para as narrativas. Em 1905 surgiu O Tico Tico, a primeira publicação que se dedicava com exclusividade ao gênero quadrinhos. Mas sua grande popularização ocorreu em 1934, com encartes em O Globo e em A Nação, dois jornais com grande tiragem e muito maior abrangência de público em função disso. Nos dias em que traziam tais suplementos, a venda avulsa aumentava muito. Em 1937, outra revolução: surgiu a revista Mirim, criada por Adolfo Aizen, depois fundador da muito famosa EBAL – uma editora especializada. Esta foi a primeira onde as histórias passaram a ser contadas completas e não mais seriadas, em capítulos, como antes. E em 1939, na esteira desse sucesso, apareceu mais um grande nome: a revista Gibi, lançada por Roberto Marinho.

O termo gibi é usado apenas no Brasil. Por aqui essa palavra era no início sinônimo de moleque, menino pequeno, como os que vendiam nas ruas jornais e revistas. Tornou-se com o tempo sinônimo de revista de histórias em quadrinhos e perdeu seu significado anterior. Entretanto, mudança muito maior ocorreu com esse tipo de arte. Da quase ingênua origem, como meio alternativo de se contar histórias, as HQs ganharam notoriedade e passaram a ser consideradas também um poderoso veículo de comunicação de massa. As mutações posteriores foram além do aprimoramento das técnicas de produção, distribuição e vendagem: viraram desenho animado, ocupando espaço no cinema e na televisão, geraram milhares de outros produtos e se fazem presente como elemento ativo na educação e no estabelecimento de alguns padrões para nosso relacionamento social, no mundo todo.

18.11.2020

Capa de exemplar da pioneira revista The Yellow Kid

No bônus musical de hoje, a banda irlandesa de rock alternativo, The Script, com Superheroes. Esse foi o primeiro single do álbum No Sound Without Silence, lançado em setembro de 2014.