OS RISCOS DO FANATISMO PARA A SAÚDE

Nos últimos dias fomos todos testemunhas de mais um episódio no qual o fanatismo pode ter consequências sérias para a saúde das pessoas. Desta vez não foi algo extremo, como quando cloroquina e ivermectina formavam um kit capaz de supostamente salvar quem estivesse com a Covid-19. O resultado, nós sabemos, foi a multiplicação das perdas de vidas. Centenas de milhares morreram, mas nenhuma destas vítimas tinha vermes: seus pulmões foram destroçados, mas os intestinos estavam ótimos devido ao receituário equivocado. Tão saudáveis quanto aquelas emas do Planalto, para quem as caixinhas dos remédios foram mostradas. O fato de agora não tem, felizmente, todo esse potencial de letalidade. Mas demonstra que a doença trazida pela ideologia cega segue atuando na nossa sociedade.

Uma inspeção sanitária realizada na unidade fabril da Ypê, na cidade de Amparo, em São Paulo, constatou condições precárias em equipamentos utilizados na linha de produção de itens de limpeza. O relatório técnico fundamentou uma suspensão temporária de lotes específicos, segundo decisão mais do que correta tomada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. É para isso que ela existe: para proteger as pessoas. Os sinais de deterioração estrutural e falhas nos protocolos de higiene levaram à decisão. O órgão regulador agiu em função dos riscos aos quais os consumidores estavam sujeitos. Era algo grave, uma vez que foi identificada a presença de bactérias com alto potencial de serem resistentes a antibióticos.

Quando saiu a notícia, imediatamente houve uma mobilização por parte de negacionistas, afirmando que a medida fora tomada por perseguição política, uma vez que a marca Ypê é da empresa Química Amparo, que pertence à família Beira. E seus proprietários são, além de apoiadores, também financiadores das campanhas de Jair Bolsonaro. Ou seja, uma manipulação oportunista que não considerou que a fiscalização fora conduzida em conjunto por técnicos federais, estaduais e municipais. Se o governo federal está com o PT, do presidente Lula, o estadual em São Paulo está nas mãos de Tarcísio de Freitas, que é do Republicanos e está namorando como PL – ambos partidos que fazem parte do espectro da extrema-direita –, enquanto o prefeito de Amparo, Carlos Alberto Martins, é do MDB, de centro-direita.  

As fotografias anexadas ao processo administrativo levado a termo pela fiscalização mostram várias superfícies metálicas com pontos visíveis de corrosão e o acúmulo de resíduos químicos em áreas que deveriam estar esterilizadas. Um dos pontos mais críticos destacados pelos fiscais que estiveram no local foi a identificação de sobras de produtos que, após o armazenamento inadequado, eram reinseridas nas linhas de envase. Ainda de acordo com a Anvisa, as deficiências encontradas não se restringem apenas ao maquinário, mas alcançam também os sistemas de garantia de qualidade e controle de produção. O parecer emitido foi eminentemente técnico e a suspensão, convém repetir, foi temporária e válida até que tudo fosse readequado.

Mesmo com todo este cuidado e rigor nas observações que foram feitas, o caso ganhou amplitude em seus contornos políticos a partir de algumas manifestações de figuras públicas ligadas à extrema-direita. Ao melhor estilo de revolta anterior contra as Havaianas, trataram de politizar um assunto agora técnico e ligado à saúde pública. O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL), por exemplo, fez uso de plataformas digitais para classificar a ação dos órgãos sanitários como injusta. E bolsonaristas anônimos começaram a agir articuladamente nas redes sociais. Há vídeo de um se lavando com detergente Ypê. Outro fazendo o mesmo com um frango, que seria consumido por sua família. Também se viu um terceiro no qual um homem que se identifica como apoiador de Jair Bolsonaro simplesmente bebe o produto. Claro que esse terceiro tem tudo para ser uma manipulação extra da opinião pública, porque o líquido que está no recipiente pode não se tratar do produto químico que ele traz. Mesmo assim, ao ser usado com outro conteúdo ele carregaria consigo potencial risco de contaminação do fanático.

Diante desse cenário, especialistas em toxicologia e autoridades de saúde emitiram alertas urgentes. A ingestão ou o uso indevido de substâncias saneantes pode provocar danos severos e irreversíveis, como queimaduras químicas no esôfago e no estômago, intoxicações agudas e complicações respiratórias. E tudo isso independentemente de estar ou não o produto contaminado com bactérias, o que só agravaria a situação. A recomendação médica é bastante clara: produtos de limpeza devem ser manuseados exclusivamente para os fins domésticos indicados no rótulo e mantidos fora do alcance de crianças e animais, o que não tem relação com disputas ideológicas ou judiciais. O alerta, no entanto, não tem condições de evitar os danos cognitivos que já se estabeleceram em parcela significativa da população.

12.05.2026

O bônus de hoje é uma gravação feita ao vivo, com Zé Ramalho e Fagner cantando Admirável Gado Novo. A música é de autoria pelo primeiro, uma paraibano “retado”, tendo sido lançada em 1979 no seu álbum A Peleja do Diabo com o Dono do Céu. Trata-se de uma crítica social que utiliza metáforas sobre a massificação e alienação da sociedade, influenciada pela obra Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.