RECIFE PODERIA TER SIDO BEIRUTE

Em maio de 1985 apenas um tanto de sorte e um bocado muito maior de coragem, de um único homem, impediu que Recife antecipasse em 35 anos a tragédia que se abateu sobre Beirute dias atrás, quando uma gigantesca explosão destruiu a zona portuária da capital libanesa. Três navios estavam atracados no porto, que então ficava em região central da cidade nordestina. Era a madrugada de sábado para domingo, Dia das Mães. O do meio, chamado Jatobá, carregava 1,5 toneladas de gás butano e começou a pegar fogo. As outras duas embarcações, que o ladeavam, tinham ainda maior quantidade de gás de cozinha, em cada uma. Além disso, muito próximo ao local, no Parque de Tancagem do Brum, havia estocagem de outros produtos inflamáveis. Engenheiros consultados estimaram que, se o incêndio se propagasse e causasse explosões, todo o Centro Histórico, além de bairros limítrofes, como Santo Antônio, Brasília Teimosa, Boa Vista e Pina, seriam arrasados. Cálculos apontavam para uns cinco quilômetros de diâmetro na chamada “área crítica”. O próprio Palácio do Campo das Princesas, que era sede do governo e ficava a pouco mais de mil metros em linha reta, seria atingido. O então governador Roberto Magalhães foi acordado e retirado do local, junto com a esposa e quatro filhos.

A precariedade de recursos disponíveis para os bombeiros tornava impossível um combate efetivo às chamas. Elas já alcançavam cerca de 20 metros de altura quando três deles subiram por cordas para retirar um homem que ficara desacordado numa das cabines. As duas únicas viaturas não conseguiam mais resfriar o navio, mesmo com água do mar também sendo jogada sobre ele, com uma bomba do próprio porto. O calor era tão grande que os solados dos coturnos dos socorristas se desmancharam. Os soldados não tinham sequer máscaras e seus capacetes não possuíam viseira: respiravam com o auxílio de toalhas molhadas. Começaram então a providenciar um modo de evacuar a população residente na área que seria atingida.

Foi então que chegou ao local o jovem prático Nelcy da Silva Campos, de 27 anos. Ele já tinha cumprido seu turno de trabalho no dia anterior, mas resolveu comparecer para prestar ajuda, se dele precisassem. Práticos são pessoas que trabalham guiando navios em entradas e saídas, por conhecerem canais e outros obstáculos e riscos que possam existir. São eles que atracam e retiram grandes navios dos portos, usando pequenos rebocadores. Ele se dispôs a levar o navio em chamas para alto mar, afastando-o da costa e das potenciais vítimas inocentes. Só que o Jatobá estava “entalado” entre os dois petroleiros. Assim, primeiro ele afastou um e depois o outro das laterais, levando para uns 400 metros adiante. Depois, na terceira manobra, com o incêndio já no limite em que a estrutura suportaria e sem qualquer possibilidade de continuar o resfriamento, conduziu para alto mar aquele que poderia explodir a qualquer momento. Seis quilômetros adiante, pode soltar as amarras e tratou de voltar para terra firme. Um forte temporal se abateu minutos depois sobre a cidade, com a chuva ajudando a controlar as chamas, que ainda arderam por todo aquele dia e o seguinte. Uma imensa área de Recife e centenas de vidas estavam salvas.

A consequência do susto foi a transferência do parque de tancagem para 53 quilômetros na direção sul. E hoje ele está no Porto de Suape, com outro nível de segurança. Nelcy foi considerado um herói e ganhou a maior das comendas do governo pernambucano. Dezenove anos depois do ocorrido, em 2004, a Câmara de Vereadores deu seu nome ao terminal marítimo de embarque e desembarque de passageiros, no Porto de Recife. Mas, como é comum em nosso país, que não conhece nem valoriza seus verdadeiros heróis, uma reforma recente no local alterou não apenas características do espaço, como também retirou dele o seu nome. Bandidos das mais diversas estirpes, escravocratas e homens públicos cuja maior preocupação sempre foi suas vidas privadas, continuam sendo lembrados de norte a sul do Brasil.

11.08.2020

Seleção de imagens feitas pelo UOL dá uma noção do tamanho da tragédia em Beirute

SOBRE A ALEGRIA DE SER PAI

Lembro bem de cada segundo do que aconteceu naquela madrugada de janeiro de 1993. Entrei como um homem comum na maternidade do hospital e, meia hora depois, não era mais o mesmo. Felizmente para todos, em especial a mãe e o bebê, o parto foi natural e muito rápido. Pronto: eu agora era pai. Pude acompanhar tudo de perto, com a única advertência de que, se desmaiasse por exemplo, não seria atendido por ninguém, porque a prioridade ali não era eu. Risco zero. Eu jamais me permitiria perder a consciência justo na hora de ver uma das maravilhas da existência, que é um nascimento. Ainda mais de uma filha minha. Há anos eu esperava pela Bibiana. Sempre soube que ela viria e agora chegara o momento, me oferecido pela vida e pela Olinda.

Depois chegaram os familiares e eu, como nunca fumei, nem sequer pensei em oferecer charutos, como nos filmes. Não teria mesmo onde comprar, naquela hora. O que sei é que meu sorriso estava congelado. E que tinha um pouco de medo misturado com toda aquela alegria. Esse um tempero necessário, diante do desconhecido que estava por vir. Uma criança fragiliza a gente, justo no momento em que precisamos ser mais fortes. Mas asseguro para todos vocês: nunca mais meu coração bateu como batia antes. Mudou o compasso, a frequência, a razão de bater.

Sei que isso é bem lugar comum, que vão falar que é clichê. Mas foi quando me tornei pai que compreendi melhor o meu. Antes não dava para entendê-lo, porque a racionalidade sozinha não resolve nada, e ser pai é pura emoção. Porque não tem teoria que nos mostre de fato como é essa prática. Só se aprende sendo, nunca previamente. O seu Walter sempre tentou fazer o melhor por mim, reconheço isso agora, mesmo ele não tendo conseguido que fosse assim sempre. Acho que também tem acontecido desta forma, na minha relação com minha filha. Não é perfeita devido à nossa imperfeita humanidade, mas eu sempre me esforcei para ao menos atender às expectativas. Pelas ocasiões que não alcancei isso, peço desculpas. Se algumas vezes superei, estou no lucro.

Ser pai é ficar feliz por se tornar um abobado. E ficar chuleando por cada gesto novo, pelas palavras que vão sendo aprendidas, pelos primeiros passos. Ser pai é aprender a trocar fraldas, acordar para aquecer a mamadeira, dividir cama em noites de sonhos ruins. É ir até o hospital para uma sutura necessária, sentindo ele o corte na própria alma. E tirar centenas de fotos para mostrar para os amigos. É ensinar a andar de bicicleta, levar e buscar na escola, ficar esperando pelos cartões feitos com carinho em datas como a de hoje. Ser pai é levar para conhecer o mar, engolir em seco quando afinal dorme na casa de uma colega e é não dormir, nas primeiras viagens feitas sozinha. É negociar mesada, ir em reuniões de pais – e até de mães, quando a dela não podia -, assistir o talento teatral, levar tantas vezes ao Olímpico compartilhando paixão, comer junto alguma porcaria, fazer guerra de travesseiros, jogar bola no pátio de casa. No meu caso, foi comprar o primeiro soutien e dar uma Beagle contra a vontade da mãe. Foi ir liberando aos poucos horários para retorno mais tarde das festas. Pai compra e assiste junto todos os DVDs de série adolescente. Torce pelo sucesso no vestibular e fica feliz mesmo quando essa vitória leva a filha para longe de casa. É tempos depois se emocionar outra vez, ao subir no palco e entregar ele mesmo o diploma, em deferência por ser na mesma faculdade na qual se formou, tantos anos antes. Ser pai é conhecer o namorado da filha e ficar um pouco mais tranquilo, mesmo sabendo que ela foi educada bem o suficiente para fazer escolhas certas. É ver ela ir para mais longe ainda, por razões profissionais, e abafar a saudade usando o orgulho pelo sucesso dela.

O Dia dos Pais foi instituído no Brasil bem depois que ele estava consolidado como data comemorativa nos EUA. Por lá começou em 1910, por sugestão de uma menina chamada Sonora Louise Dodd, para tornar público seu reconhecimento ao pai John Bruce Dodd. Ele perdera a esposa no parto do sexto filho, em 1898. Sozinho, criou todos com carinho e responsabilidade, algo difícil de acontecer naquela época, quando os papéis de pai e mãe eram bem mais distintos do que atualmente. Mas para mim o segundo domingo de agosto jamais terá o mesmo peso do que o 17 de janeiro. Esse sempre será o verdadeiro dia a comemorar.

09.08.2020

A formatura da Bibiana também foi num dia 9 de agosto, exatos seis anos atrás.

Bônus duplo hoje, com duas músicas que falam da relação entre pais e filhos. O primeiro é Meu Pai Chorou, de Celso Viáfora, faixa do CD “Batuque de Tudo”, lançado em abril de 2010.

O segundo é Muito Orgulho, Meu Pai, música de Gabriel o Pensador, clip gravado em agosto de 2013, no Rio de Janeiro.