INFÂNCIAS DEVASTADAS
A infância não deve ser considerada apenas como um período a mais das nossas vidas, igual a qualquer outro. Ela representa um marco, por ser um período e um processo que afetam quase tudo o que depois realizamos em termos de potencial. Ou do que deixamos de alcançar. Por ser embrião de futuro, deveria ser muito mais estimulada, acolhida e principalmente protegida. Porém, números divulgados recentemente mostram que, no Brasil, ela muitas vezes se transformou justamente no contrário: um espaço de vulnerabilidade silenciosa, onde o medo, a violência e o abuso se escondem atrás de portas fechadas, laços familiares e rotinas aparentemente normais.
Os dados, que são oficiais, impressionam pelo volume. Mais de 308 mil meninas e adolescentes sofreram abuso ou exploração sexual no nosso país entre 2011 e 2024, segundo levantamento baseado em registros que a saúde pública possui. São estatísticas tão grandes que quase perdem a capacidade de chocar. O cérebro humano tem dificuldade para compreender multidões invisíveis. Talvez por isso a sociedade consiga seguir vivendo normalmente enquanto milhares de infâncias vão sendo destruídas em silêncio.
Existe ainda algo especialmente perturbador nessa tragédia toda: ela não mora no escuro das ruas desertas ou em becos desconhecidos, como costumam sugerir os medos tradicionais. Em muitos casos está dentro de casa. Ao lado da mesa do almoço, na sala onde se assiste TV. Compartilhando sobrenomes. Perto de um terço das ocorrências registradas envolve pessoas do próprio núcleo familiar ou afetivo das vítimas. Pais, padrastos, irmãos, pessoas próximas. O perigo, tantas vezes, fala a linguagem da confiança.
Isso talvez explique por que tantas crianças não conseguem falar. Não é simples denunciar quem paga o material escolar, alimento e roupa, quem aparece nas fotografias de aniversário ou quem convive todos os dias sob o mesmo teto. O silêncio infantil nem sempre nasce da incapacidade de compreender o horror. Frequentemente nasce do medo, da culpa induzida e da sensação de não haver para onde correr.
Outro aspecto doloroso é perceber que os números oficiais provavelmente representam apenas parte do problema. Especialistas alertam para a subnotificação histórica desses crimes. Há vítimas que jamais conseguirão denunciar. Há famílias que sabem e escondem. Há comunidades que preferem fingir não ver, por ser mais cômodo. E há também instituições despreparadas para identificar sinais que quase nunca chegam em forma de pedido explícito de ajuda.
Talvez por isso escolas e postos de saúde acabam assumindo um papel tão decisivo. Professores, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais muitas vezes se tornam os primeiros adultos capazes de perceber que existe alguma coisa errada. Um silêncio repentino. Uma queda brusca no rendimento escolar. Um olhar permanentemente assustado. Uma tristeza precoce demais para determinada idade. Crianças muitas vezes gritam sem usar palavras.
Também chama atenção o recorte racial da violência. As meninas negras aparecem como maioria absoluta entre as vítimas registradas. Como quase sempre acontece no Brasil, as tragédias sociais parecem escolher endereço, cor e classe social com uma precisão cruel.
É impossível ler estatísticas assim sem sentir uma espécie de fracasso coletivo. Porque nenhuma sociedade que aceite conviver naturalmente com tamanha violência contra crianças pode se considerar plenamente saudável. O problema não é apenas policial. É cultural, econômico, educacional, psicológico e humano.
Talvez o mais inquietante seja perceber que muitas dessas vítimas continuam frequentando escolas, brincando em praças, andando pelas ruas e tentando parecer normais enquanto carregam dores que adulto algum conseguiria suportar com facilidade. A infância, que deveria ser território de descoberta e proteção, como afirmei no início, acaba se tornando para algumas delas um lugar de sobrevivência.
E isso provavelmente seja o mais devastador de tudo.
25.05.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é um curta-metragem da Childhood Brasil. Ela faz parte da World Childhood Foundation, organização sem fins lucrativos criada em 1999, por Sua Majestade a Rainha Silvia da Suécia – ela é filha de mãe brasileira e de pai alemão, passou a infância morando em São Paulo e fala fluentemente o português. A instituição é pioneira em estimular, promover e desenvolver soluções para prevenir e enfrentar o abuso e a exploração sexual contra crianças e adolescentes.