O VELÓRIO ANTES DA AUSÊNCIA

Existe algo de profundamente estranho na ideia de alguém comparecer ao próprio velório. Digo estar lá vivo, porque mortos é normal que todos estejam presentes nesse local e momento. E falo da estranheza de não apenas comparecer, mas organizá-lo, escolher convidados, definir o clima da cerimônia e, mais surpreendente ainda, trocar o silêncio habitual por música, conversa, chope e risadas. Nossa cultura – a ocidental – preparou a morte para o constrangimento, para o preto das roupas, os cochichos de corredor e até para lágrimas que nem sempre são de pesar e de saudades. Talvez por isso a história de um homem de 46 anos, com doença terminal, que decidiu transformar sua despedida em agradável celebração da vida, tenha causado tanto espanto.

O protagonista é o advogado e turismólogo Tiago Pitthan, de 46 anos, morador de Campo Grande (MS). Ele foi diagnosticado com câncer de estômago em estágio avançado, com metástase. Diante do quadro irreversível, decidiu organizar o próprio “velório em vida”, reunindo seus amigos e familiares para uma festa de despedida. Ela está marcada para o sábado, dia 30 deste mês de maio, com os convites todos distribuídos. Mais do que isso, ele já avisou que se por acaso morrer antes, o evento acontece do mesmo jeito, apenas sem a alegria da sua participação.

Em entrevistas e publicações, Tiago afirmou que não encara a iniciativa como desistência, mas exatamente o contrário: uma maneira de viver intensamente o tempo restante. “Sei que vou morrer mas, até isso acontecer, vou viver bem e ser feliz”, declarou. “E no final, não quero ser só um corpo dentro de uma caixa fazendo figuração; quero curtir o meu velório com vocês”, escreveu nas redes sociais

O mais curioso é que o desconforto provocado pela notícia não nasce exatamente da morte, mas da naturalidade com que ela foi encarada. Estamos acostumados, culturalmente, a fingir que o fim pertence apenas aos outros. A morte dos conhecidos sempre parece prematura; a nossa, improvável. Organizamos financiamentos de trinta anos, planos para aposentadoria, reformas futuras da casa e para viagens ainda distantes. Construímos o cotidiano como se houvesse um acordo silencioso de permanência entre nós e o universo. Não existe. Ao menos não em se tratando de vida física.

Ao descobrir este câncer agressivo e incurável, o homem decidiu fazer algo raro: abandonar a encenação coletiva. Em vez de ficar esperando por homenagens pronunciadas diante de um caixão, preferiu ouvi-las ainda respirando. Em vez de flores e coroas silenciosas, ele escolheu abraços conscientes e calorosos. Havia até ironia no convite. A entrada seria permitida “mediante nome na lista e estar vivo”. Não consta como essa segunda comprovação deveria ser feita, mas com certeza também ela seria tomada pela informalidade.

Talvez seja justamente isso que torna a história tão poderosa. O velório tradicional possui algo paradoxal. Frequentemente, as palavras mais bonitas sobre alguém são pronunciadas quando ele já não pode ouvi-las. As reconciliações chegam tarde. Os elogios, as gratidões e as confissões de afeto costumam ser depositados diante de quem já atravessou para o silêncio definitivo. O homem de Campo Grande parece ter percebido essa incoerência e resolveu alterá-la antes que fosse tarde demais.

Existe ainda outro detalhe desconcertante. Ao celebrar a própria despedida, ele talvez tenha compreendido algo que muitos passam a vida inteira tentando aprender: a consciência da morte não precisa necessariamente destruir a alegria de viver. Em certos casos, pode até ampliá-la. Quando o tempo deixa de parecer infinito, cada encontro ganha outro peso, cada conversa adquire densidade diferente, cada risada deixa de ser banal.

A verdade é que ninguém sabe lidar muito bem com a finitude da vida corpórea. Enquanto alguém parte, continuam existindo filas, pessoas fazendo compras em mercados, buzinas soando pelas ruas, cafés esfriando sobre mesas e notícias sendo produzidas. As religiões tentam explicá-la. A ciência tenta compreendê-la. A filosofia tenta aceitá-la. E nós, habitantes do cotidiano, apenas a adiamos mentalmente enquanto pagamos contas, respondemos mensagens e reclamamos do trânsito. Talvez por isso histórias assim provoquem tanto impacto. Elas rompem a blindagem psicológica que construímos contra a ideia do fim.

No fundo, aquele “velório em vida” não deverá ser uma cerimônia sobre a morte. Provavelmente será o contrário. Uma tentativa lúcida de lembrar aos outros que ainda estão vivos, antes que descubram tarde demais. Eu não conheço Tiago. Aliás, sequer conheço Campo Grande. Não estou na sua lista de convidados, portanto. Mas prometo levantar silenciosamente um brinde na data, aqui de Porto Alegre mesmo, pela grandiosidade da sua ideia e pela leveza do seu espírito. 

21.05.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é a música Encontros e Despedidas, na voz de Maria Rita, em gravação feita ao vivo. A canção foi composta por Fernando Brant e Milton Nascimento. Pertence ao repertório clássico da Música Popular Brasileira (MPB) e se tornou um dos marcos da carreira da cantora.