UMA PRISÃO CINCO ESTRELAS
O meu apartamento tem 75 m2 e duas pessoas moram nele. Somos três ou quatro, quando estão a filha, o genro ou ambos. Jair Bolsonaro esteve ocupando uma cela na Papudinha – chega a ser difícil utilizar esse nome, que soa muitíssimo inapropriado – com cerca de 65 m2 e estava sozinho. Nela havia ar-condicionado, televisão e frigobar. Ele ainda dispunha de uma área externa privativa de 10 m2, na qual podia tomar sol, espairecer e se exercitar à vontade (*). Eu posso sair para a rua quando quero e ele não podia – e em tese segue não podendo, agora que está em prisão domiciliar. Mas, quando faço isso enfrento toda a lamentável insegurança que nos assombra, ainda mais depois dele ter contribuído para armar mais e melhor a bandidagem. O “mito”, naquele presídio, estava por óbvio devidamente protegido, tanto pela estrutura física do local quanto por todos os policiais e guardas que nele trabalham. Me custa um bom dinheiro a portaria 24 horas do prédio. Eu pago condomínio, energia elétrica, água e gás. Alguns desses valores, que também incidem no local onde ele se encontra, são todos bancados pelo erário público.
Há mais de 30 anos quito mensalmente os boletos da Unimed. Ele tinha a seu dispor, sem custo algum, estrutura composta por dois médicos generalistas – e especialistas podiam ser chamados se necessário –, três enfermeiros, dois dentistas, um assistente social, dois psicólogos, três técnicos em enfermagem, um fisioterapeuta, um farmacêutico e um psiquiatra. Mesmo diante deste quadro, um filho dele, aquele ungido como candidato a presidente nas eleições de outubro, afirmava a todo instante que aquelas condições nas quais o seu pai estava vivendo eram uma tortura – Ustra deve ter gargalhado lá no inferno onde imagino esteja atualmente. Acho que ninguém pensa ou diz o mesmo a meu respeito. Ainda bem, uma vez que certamente eu ainda pertenço a uma fatia bastante privilegiada do povo brasileiro, não sendo tortura alguma o modo como vivo.
Vamos lembrar que há vídeos nos quais o ex-presidente diz que cadeia não é para ser uma “colônia de férias”. E que todo aquele que comete crimes deve mesmo ser punido com rigor. Segundo ele, não deveria de modo algum o sistema prisional ser voltado à ressocialização, mas um ambiente severo, de privação vigorosa, sem consideração alguma com qualquer coisa que se parecesse com direitos humanos. Há entrevista dada para Luciana Gimenez na qual ele reafirma ser contra quaisquer investimentos em infraestrutura básica de saúde e conforto em presídios. Ele defendeu ainda, na oportunidade, que todo preso deveria trabalhar para pagar o que o Estado gasta, com estadia e alimentação. Claro que fez isso antes de ele próprio ir conhecer o sistema por dentro, apesar de ter estado em prisão que nem se compara com o sistema que “acolhe” os presos comuns. E agora então, no “aconchego do seu lar”, vive o luxo com o qual 99% dos brasileiros podem sequer sonhar. Literalmente, uma prisão cinco estrelas.
A mansão onde está o ex-presidente foi alugada pelo Partido Liberal (PL) e fica no Condomínio Solar, na região do Jardim Botânico. Ou seja, ele não gasta nenhum centavo do que ainda ganha e muito menos qualquer fração dos milhões que recebeu de seguidores, via PIX. Trata-se de um imóvel de alto padrão, com 400 m² de área construída em um terreno total de aproximadamente 1.200 m² (considerando a área verde). Ele tem dois pavimentos, área gourmet e churrasqueira integrada à área próxima da piscina. Há um amplo quintal com 795 m² de jardim, que permite a circulação ao ar livre sem que o “preso” saia dos limites monitorados. A propriedade dispõe de uma garagem espaçosa, onde costumam ficar os vários veículos da família, incluindo motocicletas e um mini buggy, além dos automóveis – estes todos pouco utilizados, no momento. Há ainda escritório e estúdio, além de algumas suítes no andar superior. Todas as janelas estão com películas escuras (insulfilm), para evitar a curiosidade das pessoas.
Com ele estão sua terceira esposa, Michelle Bolsonaro, a filha do casal (Laura) e uma enteada (Letícia). As três podem entrar e sair do imóvel, sem restrições. E os quatro ainda têm à disposição um número não informado de funcionários domésticos, para cozinha, manutenção da piscina e do jardim, além de serviços de limpeza e de quartos. E existe o efetivo de policiais federais que ficam na área externa, garantindo que quaisquer tentativas de fuga sejam frustradas. Esses últimos, pagos por todos nós, que somos contribuintes.
A transferência do condenado por tentativa de golpe e outros crimes se deu devido a problemas de saúde. Uma pneumonia que, imagino eu, já deve ter sido controlada, nesses 31 dias em que ele se encontra no local. E qual é o tratamento (não uso essa expressão como sendo referente à questão medicamentosa) que é dado aos presos comuns no Brasil, quando com a mesma doença ou outras semelhantes? Este é condicionado por fatores que frequentemente violam a Lei de Execução Penal (LEP). Muitos deixam de receber atendimento externo, em hospitais da rede pública, simplesmente porque não há viaturas ou agentes suficientes para realizar a escolta com segurança. Quando o caso é grave, o preso deveria ser transferido para um Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTP) ou alas hospitalares de presídios. Essas unidades são raras e muitas vezes carecem de equipamentos básicos, como cilindros de oxigênio ou nebulizadores. Então, permanecem nas celas com o problema sendo agravado pela umidade das paredes, falta de exposição solar (banho de sol irregular) e compartilhamento de itens básicos.
Resumindo, para o preso comum quando o tratamento ocorre normalmente é marcado pela reatividade, em geral tardia. É frequente a assistência chegar quando o quadro clínico já evoluiu e se agravou tornando-se uma emergência e podendo ser fatal. Mesmo assim, dependendo da insistência de familiares e da atuação da Defensoria Pública. É claro que isso não aconteceu com Jair Bolsonaro. E quem concedeu a sua prisão domiciliar humanitária – ainda temporária, se faz necessário frisar – foi Alexandre de Moraes, um dos alvos prediletos dos ataques da família em particular e da extrema-direita como um todo.
28.04.2026
(*) A questão do espaço físico no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, é um tema sensível e frequentemente discutido em relatórios de órgãos de direitos humanos e do Judiciário. Embora o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP) estabeleça que a área mínima por detento deva ser de 6 m², a realidade prática na Papuda – como na maior parte do sistema prisional brasileiro – costuma ser bem diferente devido à superlotação, estando em algo que não chega a 2 m².

O bônus de hoje é clipe de Hurt, música de Johnny Cash. A letra foca no ocaso de um líder, na solidão da velhice, registrando a existência de um “império de sujeira” e na perda de tudo o que conhecia, em um merecido isolamento final.