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VERGONHA DOCUMENTADA

Ao contrário do que muita gente imagina, o Fórum Econômico Mundial, que acontece anualmente na cidade de Davos, na Suíça, não é uma iniciativa da ONU ou de qualquer outro organismo internacional que reúna oficialmente países, como a União Europeia. Quem o promove é uma fundação sem fins lucrativos, que tem sede em Genebra. Seu fundador é Klaus Martin Schwab, um engenheiro e economista alemão nascido em 1938, sendo até hoje o responsável por dirigir a organização, com pulso de ferro. Tudo começou em 1971, quando ele promoveu o European Symposium of Management. Esse evento continuou até 1987, quando mudou de nome e de abrangência, passando a ser chamado de World Economic Forum (WEF).

Esta conferência se notabilizou como um encontro das elites econômicas e políticas de todo o planeta. Ocorre sempre no mês de janeiro, gerando grande expectativa porque é oportunidade rara para que chefes de estado e suas comitivas, formadas por muitos técnicos, debatam questões comuns e, em tese, busquem soluções para problemas globais. Em função disso, a cobertura da imprensa mundial é muito grande. Nos últimos anos, a ela se juntou o trabalho feito pelo próprio site do WEF, abrindo acesso a debates públicos e conferências. Isso se dá seguindo um protocolo que busca ser transparente, mas que não deixa de levantar alguma dúvida, em função de ser semioficial. Ao menos vinha sendo assim, até o encontro de 2019. Na oportunidade foi permitido que um cineasta e sua equipe fizessem trabalho independente, acompanhando os bastidores do evento e produzindo um documentário que prometia ser uma linha de corte, um marco de democratização. Seu lançamento já aconteceu, estando disponível em diversas plataformas de streaming, entre as quais Google Play e Now.

O diretor Marcus Vetter, ao longo dos 116 minutos de “O Fórum” (Das Forum), desnuda muita coisa que de fato pode ajudar os não iniciados a compreender melhor os meandros da política internacional. Fez isso acompanhando justamente o fundador do Fórum, ao longo de um ano inteiro, em seus esforços para ajudar na implementação de um melhor estado de convívio equilibrado e coeso para o mundo. O que de modo algum é tarefa fácil: nos últimos tempos temos vivido crises e problemas novos e surpreendentes. A questão climática vai atingindo seu ponto mais crítico; o populismo ganha força com eleições controversas em vários países; a União Europeia se depara com o Brexit; protestos ganham as ruas e mostram o nascimento de uma nova geração de rebeldes – talvez o único desses fatos que possa ser positivo -; a Amazônia queima; e o capitalismo enfrenta um real risco de colapso; quando ainda surge uma pandemia para abalar a economia. Diante dessa realidade é hora de saber se as ideias de Klaus estão dando frutos ou se tudo não tem passado de um desfile de poder e interesses apenas da mesma elite de sempre.

Neste cenário é que ocorreu o “batismo” do presidente Jair Bolsonaro na política internacional. E foi um desastre. As imagens mostradas em trechos do documentário o mostram como um peixe fora d’água. Circula sozinho pelos salões sem conseguir despertar o interesse de nenhum dos outros convidados para qualquer tipo de interlocução. Aquele não é o seu ambiente. Fica evidente que nada do que ele diga ou faça irá interessar aos demais. E também que nada do que digam ou façam os demais será compreendido por ele.

Talvez o clímax da vergonha documentada seja o breve diálogo travado com o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore. Como se fosse sua obrigação, o norte-americano propõe uma conversa, citando que conhece e é amigo de Alfredo Syrkis, ex-parlamentar, jornalista e escritor brasileiro que foi diretor do Centro Brasil no Clima (CBC). Mas a resposta do “mito” foi que deste ele era inimigo. Constrangido, Al Gore tenta outro assunto, dizendo que todos estão preocupados com a questão da Amazônia. E ouve outro horror, com Bolsonaro propondo que ambos os países explorem juntos a riqueza da floresta brasileira. A expressão do interlocutor é impagável, com ele se despedindo e se afastando. Por essa cena, mas também pelo contexto todo, esse documentário merece nossa audiência.

24.09.2020

Charge de Latuff, integrante da exposição Independência em Risco

Abaixo, o trailer legendado do documentário O Fórum, de Marcus Vetter.

No trecho a seguir, o UOL nos mostra o estranho diálogo entre Al Gore e Jair Bolsonaro.

A ORIGEM DO TERMO E DO MITO GAÚCHO

A historiografia sul-rio-grandense está firmada sobre a existência de um personagem cujo próprio nome tem origem controversa: o gaúcho. O que ninguém questiona é a sua formação, enquanto identidade. Ele sempre foi um indivíduo desgarrado, que vagava num território tão amplo quanto aberto, os campos platinos distribuídos agora como áreas de Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai. Como tipo social, surgiu por volta de 1540, pouco depois da fundação de Buenos Aires. Cavaleiro com grande habilidade na montaria, esse homem não tinha raízes, vivia do roubo de gado, bebendo aguardente, cultuando a própria liberdade e não sendo muito afeito às leis e à moralidade então vigentes. Do gado pilhado consumia a carne e vendia o couro para grupos que o contrabandeavam para a Europa.

Não eram eles os primeiros peões das estâncias existentes no sul brasileiro. Nessas propriedades tal trabalho era desempenhado normalmente por índios guaranis, que amansavam e vigiavam os rebanhos dos patrões. Os gaúchos mesmo eram a ralé, homens irresponsáveis com mais apego aos bolichos, locais onde jogavam cartas, cantavam e consumiam muito trago, do que às famílias. Os gaúchos eram guerreiros sem bandeira, sabendo manusear tanto boleadeira e laço quanto facões e lanças. Rudes e sem modos, dormiam ao relento. Consta que a maior parte deles nascera filhos de índias com europeus, sendo fruto indesejado e destribalizado.

Dessa situação descrita viria o termo gaúcho, na acepção mais aceita atualmente. Seria corruptela da palavra “huagchu”, da língua indígena quéchua que ainda hoje é falada por grupos étnicos desde a Colômbia até a Argentina. Significaria “órfão”, o que se explica uma vez que seus pais portugueses e espanhóis nunca os assumiam como filhos. Se bem que o memorialista e folclorista Augusto Meyer relatou existência de alguns registros nos livros de batismo dos curas missioneiros, nos quais havia o nome atribuído à criança juntamente com “filho de fulano de tal com uma china das Missões”. O que mostra outro tipo de discriminação, pois o pai que não o criava punha nome no documento, enquanto a mãe que assumia essa tarefa por bom tempo, não existia legalmente.

Num determinado momento da narrativa histórica, no entanto, ocorreu como que a decretação do fim desse gaúcho real. E se optou por uma nova identidade, do sul-rio-grandense romanceado. Esse veio da junção da coragem do homem que era livre com a servidão do homem que era trabalhador. O ladrão de gado, sem lei e sem chefe, sede características convenientes ao assalariado que vendia sua força de trabalho para os estancieiros. Assim começa o mito do bom gaúcho, o homem íntegro, leal e simples, uma homogeneização que a lida atribuiria às classes sociais, patrões e peões lado a lado no imaginário – quem preside hoje um Centro de Tradições Gaúchas é chamado de patrão. Para tanto era necessário suprimir os defeitos nas narrativas e preservar, acentuando inclusive, todas as qualidades. Outra coisa muito interessante de ser examinada é a circunstância geográfica: o gaúcho cheio de defeitos ficou do lado de lá da fronteira, no lado castelhano. Esse que encarna a perfeição absoluta, fala português.

A literatura romântica teve papel fundamental nisso. O primeiro exemplo veio com o professor e jornalista Apolinário Porto Alegre, com textos em 1868. Contista, poeta e dramaturgo, foi um dos fundadores do Partenon Literário, naquele mesmo ano. Outro nome importante para isso foi o do romancista e boticário José Antônio do Vale Caldre e Fião, que falava francês e latim, considerado o patriarca da literatura gaúcha. Nessa associação, seus membros discutiam política, filosofia e comportamento. Mas se o gaúcho real foi adulterado antigamente pela literatura, processo hoje realizado pela imprensa, a sua morte verdadeira veio quando do surgimento do latifúndio. Com os campos cercados, a partir de 1870, o roubo do gado antes tão livre como o homem que dele se apropriava, passou a ser abigeato. Quem não respeitava esses novos limites demarcados podia afinal ser preso e condenado. Mas, agora, muito importante é que não fiquemos nós condenados e presos nessa visão incompleta e equivocada sobre nossas próprias origens e história.

22.09.2020