Agora, no final de janeiro, completamos oito anos de uma até agora inútil espera por justiça, no caso da Boate Kiss, de Santa Maria. O incêndio, que ocorreu devido a uma série de circunstâncias desencadeadas por irresponsabilidade, ganância e corrupção, causou 242 mortes e mais 680 pessoas feridas. A falta de cuidado com o uso de pirotecnia em ambiente interno, a permissão que a casa estivesse com público além de sua capacidade e não houvesse saídas de emergência apropriadas, bem como a obtenção de alvarás de forma que fugia ao habitual, foram alguns dos problemas constatados. Ainda tivemos seguranças tentando impedir a fuga das pessoas desesperadas, uma vez que não haviam quitado suas comandas, e tantos absurdos mais, que só perdem para esse tempo todo de impunidade. O Ministério Público não denunciou todos os culpados que o inquérito policial apontou. Com os militares houve uma condescendência maior ainda. E autoridades municipais seguiram com suas vidas e carreiras, com cargos inclusive em nível estadual. Mas se engana quem pensa que essa foi a maior tragédia já acontecida em nosso país – eu não estou considerando as de ordem política.

Em 1961 o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, em Niterói, no Rio de Janeiro, causou a perda de 503 vidas. E o mais doloroso foi que 70% dessas vítimas eram crianças. A atração foi anunciada na cidade como sendo o maior circo das Américas. Tinha 60 artistas e 150 animais, nas suas apresentações. E o proprietário, Danilo Stevanovich, se orgulhava da nova lona que havia comprado, dizendo pesar ela seis toneladas e ser toda de náilon. Instalado na Praça Expedicionário, os sete dias gastos na montagem da estrutura serviram para aumentar ainda mais a ansiedade da população, que adquiriu todos os três mil ingressos postos à venda para a estreia. O grande problema começou quando foi necessária a contratação de mais trabalhadores para auxiliar nesses serviços prévios, que se somaram aos 20 empregados fixos que sempre viajavam com a companhia. Entre estes estava Adílson Marcelino Alves, que respondia pelo apelido de Dequinha. Era pessoa conhecida por ser violenta e tinha antecedentes por furto, mas a empresa não soube disso antes, o que pode ter sido uma falha grave na seleção do pessoal. Mesmo assim, ele trabalhou durante dois dias e acabou dispensado, pelos problemas que estava causando.

Na primeira noite, com público barrado porque os ingressos já estavam esgotados, Adílson tentou entrar de graça e foi impedido. No dia seguinte, um sábado, ele continuou por perto e provocando o pessoal do circo, em especial um a quem atribuía sua dispensa. Com este acabou envolvido numa discussão que terminou em briga, com o intruso saindo ferido e com raiva maior ainda. Então ele buscou ajuda em dois comparsas de crimes anteriores, Walter Rosa dos Santos, o “Bigode”, e José dos Santos, o “Pardal”. O objetivo era colocar fogo no circo. Tarde de domingo e outra vez três mil pessoas ocupavam todos os lugares disponíveis. Pouco antes das quatro da tarde, com o espetáculo quase no final, a trapezista Antonietta Stevanovich, irmã do proprietário, viu do alto as chamas que começavam num dos pontos atrás das arquibancadas. Mas não teve tempo de avisar. O incêndio se alastrara com uma velocidade enorme. Mais tarde a perícia constatou que a estrutura não era de náilon, como se imaginava, mas de um tecido composto majoritariamente por algodão, revestido de parafina. Ou seja, material com grande potencial inflamável.

As pessoas em desespero buscavam as saídas, sendo atingidas pelos destroços que despencavam como se fosse uma chuva de brasas. Nos minutos seguintes, 372 perderam a vida. Outras 131 pereceram depois, devido aos ferimentos. O número só não foi maior graças a uma elefanta que, também em pânico, se arremessou contra a lona e abriu uma enorme saída pela qual muitos escaparam. Para piorar a situação, o maior hospital de Niterói estava fechado, devido a uma greve dos médicos. A população da cidade colocou abaixo as portas e profissionais da saúde de vários locais se deslocaram para prestar atendimento. Padres foram trazidos dos do Rio de Janeiro para dar extrema-unção a todos aqueles que, mesmo tendo escapado das chamas, não tinham possibilidade alguma de sobrevivência. Todas as funerárias reunidas não tinham caixões em número suficiente, o que fez com que carpinteiros fossem convocados para produzir urnas às pressas. Sem vagas nos cemitérios de Niterói, até mesmo uma roça no município vizinho de São Gonçalo foi utilizada para o enterro de muitos corpos. Quanto aos feridos, houve controvérsia sobre quantos teriam sobrevivido, mesmo com lesões e sequelas.

Cinco dias depois da tragédia, Dequinha foi preso. Seus dois cúmplices foram identificados e também detidos. O julgamento do trio levou dez meses para ocorrer. O causador do incêndio pegou 16 anos de prisão, mas fugiu depois de cumprir sete. Foi então encontrado morto num bairro afastado, com 13 tiros. Nunca descobriram quem fez os disparos. Bigode cumpriu 16 anos e Pardal 14. Passados 60 anos, tudo isso foi caindo no esquecimento. Afinal, tanto a vida quanto os espetáculos precisam continuar. E a justiça, mesmo que pena alguma pareça ser suficiente, foi de algum modo feita. O que não é o caso da Boate Kiss.

05.02.2021

Não sobrou nada da estrutura armada. Outras fotos, com corpos cremados, são chocantes demais para que se use aqui.

No bônus musical de hoje, O Circo, composição do carioca Sidney Miller, na voz de Nara Leão.

2 Comentários

  1. Meu Deus, que histórias …
    É horrível, aqui como em outros lugares a justiça nunca cumpre sua missão, eu me pergunto para que serve.
    Conosco, a justiça é rápida quando se trata do estado para recuperar dinheiro, para cortar. Mas para as vítimas de estupro, incesto, agressão nada, nada, nada, o silêncio e o tempo que passa, e as vítimas que fluem.
    Bom dia para você
    e obrigada pela musica, essa voz é muito bonita, e a musica mais que agradavel

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