Ele apareceu pela primeira vez em 1942, no filme Alô, Amigos. Mas na realidade fora gestado um ano antes, em 1941, durante viagem que Walt Disney e um grupo de desenhistas e animadores do seu estúdio fizeram ao Brasil. Eles ficaram no Rio de Janeiro, entre os meses de agosto e setembro, primeiro com o objetivo de divulgar o até então maior sucesso do grupo, que foi o filme Fantasia (1940), como também para conhecer melhor nosso país, uma vez que existia um projeto de alcançar maior penetração nos países latinos. Tanto que depois a turnê seguiu para a capital da Argentina, logo na sequência.

No retorno para os EUA foi criado o personagem brasileiro, para integrar a “Turma do Mickey”. Inicialmente os desenhistas Norman Ferguson e Franklin Thomas, que foram encarregados da missão, apresentaram a sugestão de que ele fosse um tatu-bola. Depois terminaram optando pelo papagaio, acreditando que ele, sendo mais extrovertido e alegre, seria a personificação mais próxima do povo brasileiro. Isso porque concluíram que os adjetivos que identificavam melhor os cariocas que conheceram seriam simpático, feliz e festeiro, além de preguiçoso e malandro. Foram apenas esses dois últimos um tanto pejorativos, talvez porque a viagem se deu em época na qual o Rio de Janeiro era mais provinciano e não nos tempos atuais. Mesmo assim, os roteiristas da atualidade estão operando mudanças, reduzindo a malandragem e substituindo o seu caráter duvidoso por uma personalidade otimista, mesmo sendo ele um “ferrado na vida”. Cativante a figura continua sendo.

Precisa ser destacado que aquele interesse manifestado pelos Estúdios Disney não foi fundamentado apenas na busca de consolidar mercados. Havia grande incentivo do governo do seu país, em termos de política externa, que o levava a subsidiar generosamente iniciativas dentro da “Política de Boa Vizinhança”, que fora idealizada pelo presidente Franklin Delano Roosevelt – ele viria a falecer em 1945. Ela tinha como objetivo “fidelizar” o apoio dos países latino-americanos aos Estados Unidos, durante os conflitos da Segunda Guerra Mundial. Tanto que o filme produzido conta ainda com a participação de Gauchinho Voador (que representa a Argentina) e Panchito (personagem mexicano). Os três países de maior importância da região foram os contemplados.

No Brasil, Walt Disney manteve contato com Heitor Villa-Lobos e outras das nossas “celebridades intelectuais” daquela época. Mas se encantou mesmo com Paulo da Portela, um sambista que se destacou por muito tempo na cena carioca, tendo ele ajudado muito na construção do Zé Carioca. Assim, nos primeiros desenhos o papagaio apareceu de paletó, gravata e chapéu, como era característica de muitos sambistas, que com isso tentavam se livrar do estereótipo de marginal, que os acompanhava. O samba era criminalizado, assim como a capoeira e toda manifestação que descia do morro com os negros.

Depois de Alô Amigos, Zé Carioca voltou às telas ao lado de Carmem Miranda, em 1944, com Você já foi à Bahia?, que trouxe a música de Ary Barroso e João de Barro. E participou de alguns episódios de uma série de televisão apresentada nos EUA. Mas a verdadeira explosão mundial de sua popularidade ocorreu quando chegou aos quadrinhos. No início isso veio em tiras semanais, desenhadas por Bob Grant e Paul Murry, a partir de roteiros de Bill Walsh. Em todas as histórias Zé era aquele sujeito que escapa dos problemas cotidianos usando um “jeitinho”, que ainda nos identifica pelo mundo afora. Foi nesse período que também apareceram seus companheiros de aventuras: a namorada Rosinha, o melhor amigo Nestor e o antagonista Zé Galo.

Aqui entre nós a valorização maior do personagem aconteceu durante a década de 1970, quando a Editora Abril passou a publicar histórias que eram produzidas por brasileiros. Apenas nessa época ele superou a “contaminação” que carregava devido à visão externa do nosso modo de ser. Isso se deve muito ao trabalho de Moacir Rodrigues Soares, que o assumiu ainda em 1973. Até 1990 o Zé era um fenômeno, estando ele presente em cerca de um terço da produção editorial: sozinho, vendia 70 mil revistinhas por semana. Hoje, afetadas principalmente pelo advento dos celulares e a mudança no foco de interesse do antigo público que consumia HQ, a queda foi brutal. O que não nos impede de continuar reverenciando esse agora senhor de 80 anos de idade, mas que permanece tão jovem quanto nossas memórias.

29.08.2022

P.S.: Essa postagem teve que ser programada ANTES do debate entre os candidatos à presidência na Band, na noite passada. Comentário sobre isso virá na próxima crônica.

Reprodução de um dos cartazes de Alô, Amigos

O bônus de hoje é a música Papagaio, com Dudu Nobre.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s