Tenho acompanhado, na medida do possível, algumas das transmissões dos jogos olímpicos que estão sendo disputados no Japão. Confesso que em geral me agradam mais os esportes coletivos, que vejo também em outras ocasiões, tipo futebol e vôlei. Mas é inegável que disputas como a ginástica e as provas do atletismo, possuem encantos muito especiais. Se torna impossível não vibrar com alguns desempenhos e resultados; não comemorar cada vitória improvável e superação pessoal. Evidente que tudo isso associado com uma torcida para os brasileiros, mesmo que se possa reconhecer e aplaudir competidores que brilhem com outras cores que não as nossas. E essa oportunidade, que só acontece a cada quatro anos e que foram cinco agora, nos põe em contato com modalidades que muito raramente se vê na televisão. Esgrima, polo aquático, vela, remo, hóquei, rugby e tantas outras que se conhece, mas vivem meio que nas sombras. São 50 delas, no total.

Entretanto, tão aguardadas quanto as competições são as cerimônias de abertura e encerramento. Essas dão um tom de espetáculo, grandeza e peculiaridade. Na primeira, sempre buscam nos mostrar um mosaico da cultura do país sede e do congraçamento proposto; na outra, destacar o próximo local escolhido e toda a informalidade e descontração que em geral caracterizam momentos de despedida. Uma espécie de alívio, com saudades prévias e esperança de reencontro. No meu modo de ver, as aberturas são sempre como portais, que podem ser vistos como uma chance de acesso a tempos melhores. Todas as bandeiras são levadas em igualdade de condições, ao nível do chão e sem quaisquer regalias e destaque. São como indicações claras que não serão permitidas desavenças graves, mas apenas disputas mediadas de imediato por uma arbitragem que se espera justa.

Tóquio fez uma abertura que diferiu um pouco das tradicionais. Foi sem dúvida mais simples, muito em função das circunstâncias advindas do adiamento que se fez necessário, mas também porque realizou uma louvável opção por valorizar aspectos humanos em detrimento dos tecnológicos. A exceção foi a extraordinária apresentação de 1824 drones que fizeram verdadeiro balé no ar, formando um globo terrestre com luzes. No mais, houve um equilíbrio apropriado entre as tradições daquele país com a sua inserção, com todos os demais, num mundo globalizado. O tão esperado desfile das delegações foi rápido e com a maioria levando poucos integrantes, devido aos cuidados necessários em virtude da pandemia. O Brasil teve apenas quatro, dos mais de 300 atletas que lá nos representavam. E as bandeiras das nações, desta feita e com ineditismo, eram levadas por um homem e uma mulher, juntos.

Foi o primeiro sinal do esforço coletivo despendido para identificar esses como jogos afirmativos. Antes disso, jovens e idosos percorreram a pista do Estádio Olímpico de Tóquio, lado a lado. Por lá também desfilaram trabalhadores da saúde – homenagem aos que combatem a pandemia –, estudantes e artistas. Pela primeira vez na história programaram provas mistas, no atletismo. As comissões técnicas e os competidores, como sempre, são de etnias e religiões as mais variadas. Mas a escolha de uma mulher negra para acender a Pira Olímpica, foi algo de fato muito marcante. Naomi Osaka tem mãe japonesa e pai haitiano, uma excelente tenista que já foi quatro vezes campeã de Grand Slams, estando agora como a número dois do ranking mundial.

Enfim, uma abertura que pode ser chamada de digna e elegante, que teve inclusive uma oportuna pitada de espiritualidade como tempero, o que é algo muito forte nos países orientais. As coreografias deram destaque a esse último ingrediente, com símbolos e canções referindo coexistência, reconstrução e futuro. Triste para nós é que esses três aspectos, tão necessariamente valorizados no momento pelo qual a humanidade está passando, estão distantes da realidade brasileira.

A mais recente disputa pelo poder político teve como vencedor o grupo que pregava justamente a ruptura, o conflito, o desrespeito, a violência e a defesa da supremacia sobre a coexistência. Reconstrução será tarefa árdua, mas apenas para quando esse grupo for retirado de Brasília, pela força da lei ou pela força do voto. Por enquanto o que se assiste é a destruição de instituições, de organizações essenciais para a sociedade ser mais justa e igualitária. Perdas irreparáveis no meio ambiente, na educação, na cultura, nos direitos civis, com a venda de patrimônio público e com o extermínio vão deixar cicatrizes severas no tecido social. E, quanto ao futuro, o que estão nos deixando de herança é um povo empobrecido, desesperançado, refém de grupos que não têm qualquer compromisso verdadeiro com o Brasil.

Como para enfrentar e resolver esses problemas ainda irá demorar, nos resta aproveitar os bons exemplos que os canais de TV estão trazendo para dentro de nossas casas, direto de Tóquio. Com o esforço, a resiliência, a dedicação sendo demonstração constante na busca da superação de limites. Vendo sob a ótica nacional, devemos aplaudir a raça de Mayra Aguiar, no judô, que também premiou Daniel Cargnin; a técnica apurada de Ítalo Ferreira, no surf; a leveza de Rayssa Leal, a “Fadinha”, no skate street, mesmo esporte pelo qual Kelvin Hoefler também chegou ao pódio; a maturidade e a incrível consciência de Rebeca Andrade, na ginástica artística; e o surpreendente desempenho de Fernando Scheffer, na natação.

Cito aqui apenas sete dos atletas brasileiros, por serem esses os medalhistas até o momento em que escrevi essa crônica. Mas, com certeza, outros virão somar-se ao grupo. Uma oitava já está assegurada pelo boxe. E os que não alcançarem a láurea também terão marcado presença e realizado o feito histórico de chegar lá, representando um país que tão pouco faz pelo esporte e pela educação. Mais do que vencer o outro, cada atleta no fundo busca vencer a si mesmo, ir além, tornar-se melhor. Se as medalhas materializam os melhores resultados que são alcançados, não substituem as verdadeiras vitórias, que são íntimas. E essas buscamos todos, atletas ou não.

31.07.2021

Naomi Osaka acendeu a Pira Olímpica

No bônus de hoje temos We Are the Champions, de Freddie Mercury. Gravada pelo Queen em 1977, a canção tornou-se um dos maiores sucessos da banda inglesa. E também terminou sendo adotada como uma espécie de hino de equipes esportivas de todo o mundo, quando de suas vitórias.

2 Comentários

  1. citar: “Evidente que tudo isso associado com uma torcida para os brasileiros, mesmo que se possa reconhecer e aplaudir competidores que brilhem com outras cores que não as nossas.”

    No entanto, nem todas as nações são tão gentis e afetuosas, acredite em mim. Vocês brasileiros são conhecidos no mundo inteiro pela sua gentileza e simpatia nos gestos e nas ações. As pessoas falam sobre isso, os estrangeiros que vivem entre vocês e a história também. Bravo você!

    Curtido por 1 pessoa

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