A FORÇA DAS PALAVRAS

A cada dois dias estou aqui, escrevendo. E não me pergunte a razão, se desejar de fato uma resposta. Porque eu não saberia explicar. Escrever pode ser um hábito, uma necessidade, uma paixão, um acalanto ou apenas desespero. Pode ser tarefa ou hobby, razão ou sentimento. Pode ser preencher a vida ou passar o tempo. Escrever é febre e serenidade. A palavra é ponte entre mundos de uma mesma pessoa e entre pessoas no mundo. É cordão umbilical, numa sagrada analogia. Não por acaso se comemora as primeiras palavras de uma filha ou filho. Também por isso nos deslumbramos, quando crianças, ao descobrirmos as letras, seu desenho e equivalência com o som da pronúncia. Na escola e não raras vezes muito antes dela, vamos reunindo esses sinais em grupos, criando sílabas, aprendendo a ler e escrever. Depois disso, nunca mais somos os mesmos.

A palavra é termo ou palavrão, plenitude ou vazio, palco e plateia, sonho ou pesadelo. Ela fere e ela cura. A gente diz sem querer e se arrepende; escreve sem pensar e eterniza. A palavra censura e libera, prende e liberta. A palavra conduz, acolhe, rechaça, repreende, repete, registra, relembra, dá vida. Ela é sim, não e na dúvida um talvez. Pode ser clara ou obscura, obscena, obcecada, obtusa, sábia e lúcida. A palavra é coerente e confusa. É loucura.

As palavras aquecem. Mas também podem ser hipotérmicas, hipotéticas, hipócritas, hipnóticas. Palavras podem ser imprecisas, impiedosas, impressas, impertinentes. Escrevemos diante da impotência, mesmo sabendo que até o escrito é impermanente. Tanto do que se faz é bastante incongruente; parte do que se imagina é delírio: por que a palavra seria diferente? Ela está presente na ação e no simples desejo. A palavra provoca o despejo, põe gente na rua. E constrói os mais seguros abrigos.

Não se briga com a palavra: melhor ser amigo dela. Quando ela é nossa parceira vem mais fácil. E se aglutina em frases que explicam tanto – ou não explicam nada. Mas vez por outra isso demora, ela se esconde, sai da mente, do foco. A questão é que conhece meandros do nosso cérebro que nem sabemos existir. Deve ficar por lá, rindo da gente. Não por maldade, acredito, mas por travessura, por no fundo não ser sempre adulta como infelizmente ficamos. Nessas horas ocorre um silêncio profundo, enquanto se espera que ela canse da brincadeira e volte a dar as caras. Antigamente se ficava parado olhando para uma folha em branco; hoje ficamos diante de uma tela vazia. Isso mudou, o restante é tudo igual.

Quando nos preparamos para escrever algo, como essas crônicas, em primeiro lugar existe o desafio do tema, do assunto a ser abordado. Isso que muitos chamam de “inspiração” pode vir de algo que lembramos, de um filme, uma conversa, um programa de televisão, de algo visto na rua. Pode ser concreto ou devaneio, mas precisa aparecer. Vem com um pensamento, seja completo ou mais difuso. E ela já vem formulada em palavras. A tarefa então é colocar todas estas em ordem, dar um sentido que seja minimamente coerente, fazendo um relato, defendendo alguma proposta existente ou sugerindo outra. Algumas vezes tudo isso flui repentinamente, como se só estivesse dependendo que se abrisse uma comporta para jorrar. Em outras ocasiões é parto demorado e doloroso, que requer o uso de fórceps.

Eu amo as palavras; sempre amei. De minha parte foi amor à primeira vista. Em algumas ocasiões até suspeito ser correspondido, em outras tantas fico em dúvida. Acho que é assim como acontece com todos os amores que temos na vida. E a graça, o valor maior, talvez venha mesmo dessa incerteza. Porque então precisamos trabalhar duro todos os dias, numa reconquista permanente, sem nos acomodarmos na presunçosa crença de que temos tudo sob controle, de que a fidelidade seja regra. Porque a palavra é como gente: também pode trair quem a escreve ou pronuncia sem a atenção que ela merece.

13.07.2021

No bônus de hoje a música Palavras Repetidas, com Gabriel O Pensador, um mestre da expressão verbal e escrita.