Tenho cumprido uma rotina de exercícios físicos mais frequentes, nos últimos tempos. Talvez em função da pandemia, tive melhores condições para reparar nos efeitos nocivos do tempo e na necessidade urgente de uma reação contra isso. Ter uma academia no prédio onde moro, ajudou muito, mesmo ela tendo permanecido fechada por alguns meses. Quando reabriu, com um rigoroso protocolo, voltei a usar mais do que usava antes do fechamento compulsório. Mas admito, não é fácil enfrentar os apelos para o não comparecimento. Muito frio, muito calor, sono, preguiça, estar produtivo justo naquele momento aqui no computador, além de muitas outras desculpas. Ou mesmo por razões mais plausíveis, como a minha lombar ser contra por pura birra e dor. Vencida essa etapa, a seguinte é fazer todos aqueles exercícios programados, sem pular nenhum. E cumprir uma distância que fica determinada previamente, na esteira.

Em virtude disso, adotei alguns métodos para enfrentamento. Ou, posso dizer, algumas formas de ir me enganando até chegar ao fim. Recursos que não precisam ser adotados todos os dias, uma vez que felizmente na maior parte das vezes – e cada vez mais – tenho cumprido tudo com prazer. De qualquer modo, vou dar aqui um exemplo. Vamos supor que precise percorrer determinados quilômetros de caminhada em ritmo constante. O painel vai mostrando o tempo gasto e a distância, além da velocidade e até mesmo as calorias gastas. Acho que essa última para quem busca perder peso, o que não é o meu caso. Também tenho como verificar os batimentos cardíacos, mas para isso confio bem mais no relógio que vai preso ao meu pulso.

Então, o que é que eu faço: mentalmente vou contando, na primeira metade do percurso, tudo o que já consegui fazer. Dez por cento, vinte, trinta por cento… E vou saboreando o progresso. Mas faço isso apenas até a metade, quando o fôlego ainda está mais em dia. Depois dela, passo a contar o quanto falta, de forma regressiva. Trinta por cento, vinte, dez por cento… Certo: sei que boa parte dos leitores pode estar dizendo que isso é uma bobagem, que tanto faz, que poderia adotar o tempo todo o percentual crescente ou o decrescente. E isso é verdade, do ponto de vista matemático. Só que não é igual, psicologicamente. Quando o cansaço pega, saber que falta cada vez menos para chegar ao objetivo, motiva. Ao contrário, se eu estivesse verificando que já cumpri setenta, oitenta por cento do total, poderia estar oportunizando me dar por satisfeito e parar. “Já fiz tanto, não importa deixar esta parcela menor de lado, apenas por hoje”.

Esse “apenas por hoje” é fatal. Ele se multiplica com enorme facilidade, apesar de não existir o plural “hojes”. E não apenas nos exercícios físicos o problema se manifesta. Se acomoda em nós e nos acomoda em muitas outras coisas. Fazer menos do que deveria, não levar uma tarefa até o final, acreditar que prazos podem ser prorrogados. Isso vai se tornando uma companhia constante e fardo desagradável até mesmo para quem desenvolve esse hábito. Para as outras pessoas com quem ele convive, então, fica algo insuportável. Pior que é meio patológico. E admito que sofro desse mal. Depois eu faço, mais tarde eu completo, depois eu resolvo. O nome que se dá é pomposo e você tem que cuidar quando for se referir em público, pois há boa chance de errar a pronúncia: procrastinação.

Está lá no dicionário. A palavra vem do latim procrastinare, que significa postergar, deixar para outro dia. Isso porque no latim crastinus é relativo ao dia seguinte; adjetivo ligado a cras, amanhã. O contrário disso pode ser antecipar, precipitar, abreviar. Mas tudo é sempre muito relativo. Por exemplo, antecipar é ótimo quando se trata de ganho, conquista, salário e qualquer bem estar. E péssimo caso se refira a derrotas. Precipitar pode ser um perigo, se for usado no sentido de derrubar ou cair. Algo do tipo, uma chuva muito forte. E antecipar se torna definitivo, se referido ao fim da vida. Deixando o jogo de palavras para outra ocasião, preciso mesmo me comprometer com essa mudança, que na certa me tornaria melhor. Ou no mínimo evitaria vários dissabores que enfrento. Não sei exatamente quando e como começar, mas vou fazer – cuidado que isso também pode ser procrastinar. O mesmo sistema adotado na esteira pode se tornar uma boa alternativa inicial. Na realidade tanto faz ser essa ou outra maneira, desde que a providência cumpra o requisito de urgência.

23.07.2021

No bônus de hoje a cantora Pitty, com a música Semana Que Vem. Ela foi lançada em 2004, sendo a letra um conselho aos ouvintes para que aproveitem o tempo e nunca deixem nada para depois.

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