Não se pode hoje em dia pensar em um mundo sem imagens, se é que em algum momento isso foi possível. O registro constante dos fatos, da história da coletividade e dos indivíduos, não prescinde disso. É mesmo inimaginável vivermos sem fotografia, vídeos e cinema, sem as artes plásticas, o grafite e as ilustrações, sendo gráficas ou não. Também o design e a arquitetura, de certa forma, integram esse mundo visual. Nossa civilização é imagética. Esse termo mesmo é novo o suficiente para que se identifique com ele a chegada de um tempo no qual a facilidade de obter e transmitir fotos e vídeos em alta resolução é imensa, com acesso a número crescente de pessoas, em quase todos os locais do mundo. Mas o foco principal que quero dar com esse texto é sobre o jornalismo, que explodiu quando conseguiu ir além do relato escrito ou falado.

O texto jornalístico, quando dirigido à notícia, sempre foi uma narração informativa ou interpretativa. Com o surgimento da fotografia, o leitor de jornais e revistas não mais precisava confiar apenas naquilo que relatava o profissional que servia como seu intermediário. Ele próprio tornou-se, de certa forma, testemunha dos fatos, ao ver impressos fragmentos destes eventos. Tal avanço foi conquistado quanto superaram a dificuldade técnica da reprodução das imagens fotográficas, que substituíram as ilustrações e desenhos antes utilizados. Essa “presença” do leitor na cena tornou mais verdadeira a afirmação de que “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

Não sei na verdade quantas palavras ela de fato substitui. Claro que isso dependeria de cada caso, assim como da sensibilidade de quem a obtém no local, de quem escolhe a imagem fotográfica na redação e também da pessoa que vê estampado o resultado final do trabalho. Nem tudo toca a todos e, quando faz isso, realiza de muitos modos diferentes. Mas, basta buscarmos nos arquivos algumas situações emblemáticas e se comprova seu potencial e sua força toda. O melhor método para fazer isso é avaliando as consequências dessas situações específicas. E lembro que, na maioria das vezes, muito mais importante do que a precisão, o enquadramento e a nitidez da imagem – que se determina pelo que chamei antes de resolução –, é a relevância do que ela registra.

O momento exato em que um combatente é atingido por tiro, na Guerra Civil Espanhola (foto de Robert Capa); a execução sumária, em plena rua, de um vietcongue pelo chefe de polícia vietnamita (foto de Eddie Adams); o marinheiro que beija uma jovem na boca, de surpresa, na Times Square, quando chega a notícia do fim da guerra contra o Japão (foto de Alfred Eisenstaedt); ou mesmo a cena quase pueril de Albert Einstein mostrando a língua (foto de Arthur Sasse); são bons exemplos. Mas quero lembrar aqui de outras três fotos que se tornaram icônicas. Duas delas em passado mais distante, mas a segunda na ordem das citações a seguir, de fato mais recente. Todas registrando situações dolorosas, cumprindo papel de “colocar o dedo na ferida”, mostrando o contraste do humano necessário com a desumanidade retratada.

A fotografia da menina vietnamita correndo nua por uma estrada, com o corpo ardendo em função de ataque norte-americano com bombas Napalm (foto de Nick Ut), precipitou o final da Guerra do Vietnã – a sequência mostrava suas costas, nuca e um dos braços em carne viva. Porque a opinião pública em todo o mundo se revoltou com aquilo e cresceu a pressão pela paz. Bem mais recentemente, o corpo sem vida de um menino sírio, de três anos, na areia de uma praia na Turquia (foto de Alan Kurdi), escancarou de vez a percepção do absurdo representado pela crise migratória. Ele era apenas mais uma entre tantas vítimas vindas do Oriente Médio e da África, buscando chegar à Europa, escapando da pobreza, de guerras e perseguições, com uso de embarcações precárias. Mas desta feita a inocência estava sendo morta: era como se fosse filho de todos nós.

Mesmo com esses dois exemplos, talvez ainda se pudesse votar em uma terceira candidata, entre centenas de possíveis, houvesse um concurso para apontar a imagem mais importante registrada pelo fotojornalismo. Ela foi tirada em 11 de março de 1993 pelo sul-africano Kevin Carter. Ele chegava ao povoado de Ayod, localizado no sul do Sudão, em avião da ONU que levava ajuda humanitária. O país enfrentava uma guerra civil há décadas. Milhares de pessoas já haviam morrido e a fome era a companheira mais fiel de boa parte da população. Centenas de esquálidos correram pela pista de pouso, buscando desesperadamente receber algum alimento. Entretanto, quem mais chamou a atenção do fotógrafo foi uma criança de uns cinco anos de idade que não foi em direção ao socorro. Ela permaneceu agachada e olhando para o chão, sem forças para nada. E um abutre, pousado pouco adiante, a observava. Como se o animal tivesse a certeza de que, muito em breve, ele também teria alimento.

Essa última foto saiu na capa do New York Times – o autor ganhou com ela o Prêmio Pulitzer – e se espalhou pelo mundo todo, provocando reação impressionante. A ajuda para o Sudão se multiplicou e nações poderosas, antes indiferentes, passaram a agir no sentido de resolver o impasse político naquele país. Carter, que já enfrentava outros problemas pessoais, no entanto, entrou em depressão profunda. Talvez acreditando que poderia ter feito algo mais do que registrar o momento. Em 1994, com 33 anos, levou seu carro até o local onde passara a infância e, com uma mangueira, usou o monóxido de carbono do escapamento para tirar sua própria vida. Deixou uma nota se dizendo destruído por não ter dinheiro para ajudar crianças; perseguido pelas lembranças de crimes que cobrira ao longo da vida profissional; repleto de raiva e dor pela fome alheia. Concluiu dizendo-se perplexo com a vida, com a existência de “homens malucos com o dedo no gatilho”. Seus dedos, nos obturadores das câmaras, foram muito melhores e mais humanos, com certeza.

21.07.2021

A criança e o abutre – Foto de Kevin Carter (Sudão – 1993)

No bônus de hoje a música We Are The World (Nós Somos o Mundo), composta por Michael Jackson e Lionel Richie. Ela foi o “carro-chefe” de uma grande campanha de arrecadação mundial de fundos para auxiliar no combate à fome endêmica na África. A gravação foi feita em 28 de janeiro de 1985, sendo uma união surpreendente de 45 celebridades, na época. As vendas e a participação popular em outros eventos propostos pelo grupo permitiram 100 milhões de dólares em doações. Está legendada em português.

5 Comentários

  1. Genial abordagem com essa música apoteótica inesquecível ! Só não gostei do verbo oportunizar! Tira a poética do texto!

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  2. Teu texto lembra histórias muito significativas que desencadeiam emoções fortes. Lembram também cenas cruéis do cotidiano de nossas ruas. E precisamos encobri-las na memória para não fazer como Carter. Ou, no mínimo, não sair de casa. Muitas vezes, um gesto solidário resgata nossa humanidade. Valeu lembrar, obrigada.

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  3. Texto minuciosamente pensado, reflexivo. E o que chama atenção a imagem desta criança do Sudão. Quanta miséria. Era 1993 e o que mudou?

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