Eu tive um vizinho, quando morava em conjunto residencial na Anita Garibaldi, em Porto Alegre, um bom amigo, que possuía um carro fabricado na época pela Volkswagen, chamado TL. Acho que ainda se consegue imagens, pesquisando no Google. O automóvel dele tinha uma peculiaridade ímpar: era todo de um roxo metálico como jamais vi outro. Nem eu e acho que ninguém mais. Evidente que a pintura não era original de fábrica, que o modelo com essa cor não tinha similar. Mas o dono também era alguém especial, podem acreditar.

O Volkswagen TL foi um modelo que passou a ser aqui fabricado em 1970, depois de 12 anos em que a montadora alemã estava em nosso território. Antes dele eram produzidos apenas o Fusca, o Karmann-Ghia e a Kombi. Foi o quarto veículo da linha, portanto. Este veio junto com a Variant, mas terminou tendo uma vida curta por aqui. Era derivado do Typ 3 germânico, só que chegou tarde demais e foi logo superado pela evolução, com a fábrica passando por transformações na época. Acabou descontinuado em 1975, um ano após a chegada do Passat.

O seu Itamar era proprietário de um apartamento dois prédios atrás do meu. No total eram cinco os edifícios, com pátio em comum servindo de corredor e de estacionamento. Ele era motorista de ônibus e a empresa onde trabalhava atendia também o nosso bairro. Assim, várias vezes tive oportunidade de viajar tendo ele como condutor, nas idas para o colégio e depois o trabalho e a faculdade. Se portava como aqueles educados mesmo, as raridades que esperam com paciência cada passageiro mais velho e com menos mobilidade entrar e se acomodar; ou sair e alcançar a segurança das calçadas. Cumprimentava todo mundo e sorria sempre, tornando as viagens muito mais agradáveis, pouco importando como estava o trânsito. Mas minha afinidade era com a família toda e se deu, entre outras boas razões, pelo fato de seis gremistas residirem naquele endereço: ele e a esposa, dona Nely, tinham quatro filhos. E o tal TL que eu contei antes.

Não sei se o carro possuía seguro contra furto e roubo. Mas acredito que nem precisaria. Nenhum ladrão com um mínimo de bom senso arriscaria levar ele. Em poucos minutos, bastando um alerta para as viaturas da Brigada Militar ou para as cooperativas de táxi – naquela época não existiam as empresas de aplicativos –, ele seria localizado. Visto de longe mesmo, reconhecido na hora. Sairia do TL para um camburão, num estalar de dedos: nem daria tempo para chegar ao endereço de algum desmanche. Ser inconfundível ajudaria o verdadeiro dono a manter a posse do carro.

Muito do que temos e do que somos na vida são coisas assim, bem evidentes. Outras são mais discretas, ficam escondidas. Mas entre as que integram o primeiro ou o segundo grupo, sempre existirão aquelas que ninguém pode tirar da gente nunca. Mais fáceis são os exemplos não materiais. Podem ser as nossas memórias, boas amizades feitas ao longo dos anos, conhecimento acumulado, gentileza e generosidade compartilhadas. Quem cobiça essas coisas invisíveis, todas imateriais, pode ter cada uma delas sem tirar de ninguém. Não exatamente as mesmas, uma vez que cada uma delas nos dá peculiaridades. Sempre há algo que sabemos e ninguém mais sabe; um acontecimento ímpar que ficou registrado em nossa memória afetiva; um sorriso trocado ou um afeto sincero. Tudo isso será eternamente único, como aquele TL. Mas, todos podemos construir histórias igualmente valiosas.

O seu Itamar e sua esposa há muito não estão mais entre nós. O carro soube mais recentemente que também não. Me contaram que ele o vendera anos atrás e o novo proprietário o demoliu num acidente. Espero sinceramente que sem vítimas. O meu amigo se eternizou nas três filhas, no filho e nos oito netos. E também na memória de pessoas como eu, que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Seguem a vida e o ciclo natural das coisas, com lembranças e descendência.

25.07.2021

Volkswagen TL

O bônus de hoje é uma música que tem um automóvel como tema. É Simca Chambord, de Marcelo Nova. Sua banda, a Camisa de Vênus, trouxe humor e temas políticos em suas letras, pondo dedo na ferida também quando se tratavam de críticas ao comportamento vigente. O que rendeu ódio dos censores da época da ditadura militar: até o nome adotado pelo grupo era considerado uma afronta. Essa canção, gravada nos anos 1980, relembrava a história da compra de um carro pelo pai de Marcelo, que os jovens usavam inclusive para namorar. Até que o mesmo foi destruído pela repressão. O relato está no trecho (…) Tudo isso aconteceu há mais de vinte anos/Vieram jipes e tanques que mudaram os nossos planos/Eles fizeram pior: acabaram com o Simca Chambord”

3 Comentários

  1. Muito lindo, Solon!!

    Diria que realmente cada um de nós tem uma missão. O importante mesmo é a herança que será distribuída, não somente aos nossos filhos, netos, bisnetos…também aos nossos amigos.
    Se deixarmos saudades, carinho, amor, ensinamentos, amizade e tantos outros sentimentos bons na memória daqueles que conviveram conosco, certamente teremos realizado com sucesso nossa missão.
    Sr. Itamar e sua esposa gabaritaram neste quesito, nesta prova de Vida.

    Saudades eternas meu Pai, minha Mãe…ambos AnjosdeAmor.
    Amor de Todas as V I D A S

    O i t o netos que os amam guardados no coração.

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