Assuntos pesados, dramas realmente intensos, podem ser retratados com sensibilidade? Se você estiver buscando uma resposta positiva para essa pergunta, encontra ao ver o filme Eu Sou Todas as Meninas. Ele está disponível na plataforma Netflix, sendo uma das recomendações que merecem ser seguidas. A produção teve lançamento mundial agora no mês de maio. Nela, o diretor Donovan Marsh consegue ser direto quando necessário, mas deixa muitas outras coisas implícitas, permitindo às pessoas se darem conta de que o horrível pode falar por si mesmo.

O filme é sul-africano e baseado em fatos reais. Envolve o trabalho de uma investigadora que busca desmantelar uma rede criminosa que foi estabelecida para a realização de tráfico humano. Esse crime é um dos mais brutais e indecentes, com estimativas acanhadas apontando para cerca de 50 mil casos ocorrendo a cada ano, em todo o mundo. Atinge em sua imensa maioria mulheres e crianças que são tiradas de suas famílias e negociadas para exploração sexual, uso de órgãos para transplante, escravidão ou simplesmente, no caso dos pequenos, para adoções irregulares.

Numa narrativa na qual vários momentos são de perder o fôlego, tudo tem início com a história de seis garotas sequestradas. O objetivo dos criminosos era realizar negociação com estrangeiros, havendo bem fundamentada suspeita de pedofilia. Em função disso, uma investigação policial é iniciada. O suspense segue a vida de Ntombizonke Bapai – papel vivido pela atriz Hlubi Mboya – uma mulher que foi raptada ainda menina, para o tráfico sexual. Na vida adulta, ela se dedicou à prevenção e ao combate desse crime hediondo. Ela trabalha junto com a detetive Jodie Snyman – Érica Wessels, no filme –, que descobre um caso recente de assassinato que tem conexão com o sumiço de Bapai, ocorrido ainda nos anos 1990. A partir disso, ambas seguem na busca da verdade e da justiça, evidentemente enfrentando a corrupção e alguns adversários que deveriam ser improváveis.

A obsessão de Jodie e a vontade de Bapai em compreender tudo o que havia acontecido com ela, transformam a história num drama de fato envolvente. Surpreendente é que o assassino do presente no fundo é um parceiro invisível da dupla, uma vez que ao cometer seus crimes deixa de propósito pistas que apontam para detalhes da ação da organização criminosa responsável pelos raptos. Evitando ao máximo dar spoilers, posso antecipar que no terço final a narrativa reforça a conturbada relação da detetive com seu chefe, ressaltando não apenas aspectos dos procedimentos policiais mas também a dolorosa e extrema desigualdade social vivida na África do Sul. Aqui entre nós, nada muito diferente do que se vê no Brasil.

Como se pode antever com facilidade, há envolvimento de políticos e de grandes empresários com a criminalidade – olhem só, outra coincidência com a realidade brasileira –, o que demonstra o tamanho do problema e a dificuldade no seu enfrentamento. Assim, esse é um registro muito importante para que se abra os olhos e veja uma realidade cruel, que é muito pouco iluminada pelas luzes da mídia e da razão. Não se trata de uma obra-prima, mas as atrizes estão convincentes em seus papéis e o filme funciona. Serão 107 minutos bem aproveitados diante da telinha.

09.06.2021

Cartaz do filme lançado pela NETFLIX

No bônus de hoje, a música Não é Não, com Ana Costa, Zélia Duncan, Teresa Cristina, Marina Íris, Manu da Cuíca e a percussionista Lan Lanh. Ela faz parte do álbum Eu Sou Mulher, Eu Sou Feliz, lançado pela Biscoito Fino em 2019. Essa é uma gravadora independente, com forte compromisso com a produção musical de qualidade. Trata-se de projeto de Olivia Hime e Kati de Almeida Braga.

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