Com apenas 15 anos de idade e trabalhando como ajudante de obras, ele ganhou o apelido que o acompanhou a vida toda. Costumava fazer seu serviço usando um chapéu-coco, para não correr o risco de ter os cabelos atingidos pelo cimento, nas construções. A vaidade e o fato dos colegas não entenderem muito desse tipo de acessório, fizeram com que passasse a ser chamado de Cartolinha. Mais tarde, Angenor de Oliveira virou Cartola, com o crescimento do corpo e do talento.

Ele nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de outubro de 1908. Teve pouco acesso ao ensino formal, mas aprendeu muito com a vida. Bom aluno, transformou a vivência em composições inesquecíveis. Muitos críticos o consideram o maior sambista brasileiro de todos os tempos. Ainda menino, aprendera com o pai a tocar violão e cavaquinho. Na juventude mudou-se com a família para o Morro da Mangueira, onde começava a surgir uma favela, devido a dificuldades financeiras sérias que estavam enfrentando. Foi lá que fez amizade e parceria com Carlos Cachaça, entre outros que o iniciaram na malandragem e na boemia. Com esses amigos, foi um dos fundadores do Bloco dos Arengueiros, que terminou sendo o núcleo transformado na Estação Primeira de Mangueira, em 1928. O primeiro samba da nova escola foi ele que compôs: Chega de Demanda.

A partir dos anos 1930, foi consagrado pelas vozes de intérpretes como Carmen Miranda, Aracy de Almeida, Sílvio Caldas e Francisco Alves. Mas no meio da década seguinte, sumiu do cenário musical devido a uma série de problemas que enfrentou. Uma mudança na diretoria da sua amada Mangueira o afastou das disputas para escolha de sambas. Logo após contraiu meningite, ficando alguns dias em coma e passou um ano andando com muletas. Cheio de vergonha da sua condição, preferiu se mudar para longe, junto com a companheira Deolinda, que acabou morrendo por complicações cardíacas. Terminou sumindo por longos sete anos, como que exilado e anônimo em outra favela, no Caju. Vivia de trabalhos modestos, como o de lavador de carros e vigia em prédios da Zona Sul.

Em 1957 foi reconhecido em uma madrugada, muito magro e maltrapilho, pelo jornalista Sérgio Porto, conhecido como Stanislaw Ponte Preta. Este era sobrinho de um crítico musical que conhecia e respeitava o trabalho de Cartola, a tal ponto que anos antes o chamava de “Divino”. Essa foi a oportunidade de conseguir algumas apresentações na Rádio Mayrink Veiga e em restaurantes, além de matérias na imprensa. Um ano depois, Jamelão e Ari Cordovil gravaram dois sambas seus. E tudo foi outra vez entrando nos eixos. No início dos anos 1960, com a nova companheira Zica, uma exímia cozinheira, recebeu ajuda de amigos e abriu um local que tornou-se marco na história da música popular brasileira: o Zicartola. Sambistas, compositores classe média, jornalistas e intelectuais da época passaram a se reunir em torno da sonoridade e da sopa, ambas muito acolhedoras.

Apenas aos 66 anos de idade, em 1974, ele gravou o primeiro dos quatro discos-solo que iria produzir na vida. No segundo, produzido e lançado dois anos depois, estão pelo menos três clássicos que atingiram sucesso instantâneo, como O Mundo é um Moinho, Preciso Me Encontrar e As Rosas não Falam. A primeira é uma fantástica metáfora sobre problemas e dificuldades da vida, tendo sido composta para sua enteada Creuza. Ela, com apenas 16 anos de idade, saiu de casa e motivou os conselhos que a música oferece. Uma versão maldosa diz que fora se prostituir, enquanto outra garante ter se envolvido com um homem casado. Seja qual for a causa, isso resultou numa obra-prima.

Cartola faleceu em 30 de novembro de 1980, vitimado por um câncer. Tinha lançado no ano anterior o álbum Cartola 70 Anos e estava morando em uma casa bem mais sossegada, no bairro de Jacarepaguá, onde continuava compondo. Três dias antes da morte, recebeu uma última homenagem em vida, prestada por Carlos Drummond de Andrade. Quem gosta de samba continua o reverenciando, cada vez que tem a oportunidade de ouvir sua obra.

08.04.2021

Angenor de Oliveira, o Cartola

O bônus musical de hoje não poderia ser outro além de O Mundo é Um Moinho. A gravação escolhida é de Beth Carvalho. Além dela e do próprio Cartola (na original tem Guinga ao violão e Altamiro Carrilho na flauta), também a gravaram Cazuza, Crioulo e Ney Matogrosso, entre outros.

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