Quando eu era muito pequeno, ainda na fase aquela de poder pedir colo sem nenhum constrangimento, me lembro que adorava pegar a fronha do meu travesseiro, bem numa dobrinha da costura, onde fica volumoso o tecido, para ficar movendo entre o polegar e o indicador. Fazia isso sempre na hora de dormir e chamava esse movimento de “doma”, apesar de não haver nada de selvagem no objeto onde repousava a cabeça para dormir. Minha atenção ficava concentrada nessa ação, sumindo o medo do escuro. A sensação do tato era bem agradável e eu repetia várias vezes até ser vencido pelo sono. Mesmo com esse recurso, algumas vezes minha mãe também estava por perto, o que era melhor ainda.

O Linus, das histórias em quadrinhos, adorava segurar seu cobertor com a mão esquerda, encostando na cabeça, enquanto chupava o dedão da mão direita. Outras vezes apenas o acariciava. Naquele momento não era uma coberta, simplesmente. Simbolizada o aconchego, a segurança e o carinho, que no fundo crianças e adultos passamos a vida inteira tentando encontrar. O personagem integrava as tirinhas Peanuts, que chegou a ser também conhecida como Minduim, no Brasil. Foi publicada com inéditos entre 1950 e o ano 2000, conseguindo a proeza de ocupar páginas de 2600 jornais em 75 países, com traduções para 40 idiomas. O criador foi o cartunista Charles Schulz, nos EUA. Também faziam parte o azarado menino Charlie Brown; seu cachorro Beagle chamado Snoopy, que tinha um passarinho como amigo, de nome Woodstock; a menina mal-humorada Lucy; e vários outros.

O mundo é um lugar assustador. Para crianças na hora de dormir o perigo pode estar embaixo da cama, sair da porta do armário, entrar por fresta na janela. Não tem rosto, não tem forma e sabe-se lá qual sua razão de existir. Mas não apenas diante de situações imaginárias a presença do outro é necessária. A proximidade e o contato físico asseguram condições para um desenvolvimento saudável. São manifestações concretas de amor, de querer bem, de empatia e de afeto verdadeiro. O que não invalida o necessário incentivo à independência. A gente cresce e o perigo segue existindo, mas se materializa na luta pela sobrevivência. Ganha as múltiplas faces do emprego ou da falta dele; das contas; dos riscos que não estão mais difusos no quarto, mas no trânsito, no medo de assalto, na poluição, em possíveis doenças de pais e de filhos, ou até mesmo na desesperança.

Nessas horas todas nem sempre há “doma” que resolva. Nem tampouco existe a chance de beijo e de carinho de mãe, que em geral já não está mais conosco. Aliás, dormir pode ser bem mais difícil, mesmo quando se está acompanhado de outra espécie de carinho. A “vida moderna” parece odiar a “vida real”. E manifesta isso nos afastando daquelas coisas muito simples, que acalentam. Amizades estão saindo da sala e entrando no celular e no computador. Cada vez é mais fácil e possível de se fazer tudo à distância, desde compras até assistir aulas; desde consultas médicas até visitar museus. Para piorar tudo, ainda veio esta pandemia e os shows viraram lives; o supermercado e a feira livre passaram a frequentar as nossas casas e não mais o contrário. Sem chance de irmos ao cinema, tudo agora gira em torno do streaming. Pôr do sol na orla, nem pensar. E eu estou quase esquecendo o número da minha cadeira lá na Arena do Grêmio. Bom, para ser sincero, esse último ítem é bastante improvável que venha a acontecer.

O ser humano não pode prescindir do afeto. Acho mesmo que é ele que nos humaniza. Se não estamos conseguindo evitar que se transformem as formas como ele pode ser manifestado, atualmente, temos que agir no sentido de manter os contatos que no momento são possíveis. Se torna mais importante do que nunca conversar, mesmo que apenas por telefone. Tem um valor incalculável dizer o quanto o outro é importante. Relembrar bons momentos, fazer planos para o futuro, exercitar a capacidade de ouvir com calma, também são coisas fantásticas. Se não pode pegar na mão, busque tocar a alma. No mais, resta acreditar que tudo vai passar e que não vamos esquecer as lições de agora. E, em último caso, ainda é possível examinar se existem costuras salientes na fronha do travesseiro.

10.04.2021

Linus, personagem criado por Charles Schulz

No bônus musical de hoje, o clip oficial de Laços, de Gabriel Moura, com Nando Reis e Ana Vilela. A composição foi feita a pedido da gravadora Musickeira, para homenagear profissionais da saúde que têm enfrentado a pandemia do Coronavirus. É um tributo afetivo a esse pessoal que está se mostrando imprescindível. 

6 Comentários

  1. Teu texto é um bálsamo para estes tempos ácidos e lembra de nós conectarmos com o nossos afetos. Linda homenagem aos profissionais da saúde. Precisam ser lembrados sempre.

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