Essa camisa amarela que toma conta do país de quatro em quatro anos, quando ocorrem as Copas do Mundo, nem sempre foi a utilizada pela nossa seleção. Até 1953 o Brasil entrava em campo de branco, com golas e punhos em azul, ou de azul, com golas e punhos brancos. Mas, o trauma causado pela derrota para o Uruguai, na final de 1950, que foi disputada no Maracanã, levou ao desejo de que a alteração pela qual o futebol brasileiro estava precisando passar, incluísse inclusive aquele até então tradicional uniforme.

Em 1953, a então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), em uma parceria com o jornal carioca Correio da Manhã, promoveu um concurso nacional para escolher o novo visual. O regulamento exigia que o projeto utilizasse as quatro cores da bandeira brasileira no traje completo: verde, amarelo, azul e branco. Foram inscritas cerca de 300 sugestões, vindas do país todo. E o vencedor foi o desenho feito por um gaúcho de apenas 19 anos, natural de Jaguarão e residente em Pelotas.

Aldyr Garcia Schlee era caricaturista. Usando as figuras de jogadores de futebol então existentes – foram quatro – ele os “vestiu” com uma camisa amarelo-ouro, com golas e punhos verdes. Ou seja, usou as duas cores que antes estavam fora, que voltaram no calção azul e no par de meias brancas. Esta proposta, que foi aprovada, estabeleceu um padrão que até hoje é seguido, com pequenas e temporárias variações introduzidas pelas empresas de material esportivo.

Uma curiosidade que nem todos sabem é que Schlee, um fronteiriço de nascença, nunca escondeu que torcia pelo Uruguai. Algo que só pode ser bem compreendido por quem vive assim tão perto dos “Hermanos”, separado da uruguaia Rio Branco apenas pela Ponte Internacional Barão de Mauá. Este monumento arquitetônico foi tombado pelo Brasil e, em 2015, tornou-se o primeiro Patrimônio Cultural do Mercosul.

Além deste trabalho, que sem dúvida o notabilizou, Aldyr Schlee também teve uma carreira literária de enorme prestígio. Ele foi escritor, jornalista, tradutor, professor universitário e venceu importantes prêmios literários, entre eles duas edições da Bienal Nestlé e cinco do Prêmio Açorianos de Literatura. Também foi vencedor de um Prêmio Esso de Jornalismo, por anos o mais importante do país. Em mais de uma oportunidade, durante entrevistas, chegou a lamentar que isso era menos perguntado e visto do que a camiseta canarinho. Não que a desprezasse, mas entendendo que aquela vitória fora muito menos expressiva. Preferia ser lembrado pelo seu trabalho como romancista e contista.

A estreia da camisa amarela ocorreu em 28 de fevereiro de 1954, pouco mais de três meses após o anúncio do projeto vencedor. Foi na partida Chile 0x2 Brasil, disputada no Estádio Nacional, em Santiago. O público presente foi de 25.085 espectadores, que viram de perto os dois gols marcados por Baltazar. Aliás, esse foi o primeiro jogo da história da Seleção Brasileira válido pelas eliminatórias para uma Copa do Mundo, uma vez que antes as vagas eram distribuídas por outros critérios, ao invés de um torneio classificatório. O primeiro uso em uma Copa do Mundo não demorou a acontecer: foi alguns meses depois, em 16 de junho de 1954, quando o Brasil venceu o México por 5×0 em Genebra, na Suíça.

A camisa original era extremamente simples. Suas características eram o amarelo-ouro no corpo, a gola em “V” na cor verde, a mesma usada nos punhos estreitos, feita em tecido 100% algodão e relativamente pesado, com uma numeração simples nas costas. Nos anos 1970 é que surgiram pequenos refinamentos no corte. E, a partir dos anos 1990, começaram as alterações comerciais: diferentes tons de amarelo, golas em formatos variados, grafismos, texturas, recortes, tecidos tecnológicos e aplicações que nunca fizeram parte do projeto de Schlee.

Paradoxal é que na era da simplicidade, não apenas dos trajes como muito mais ainda do jogo, éramos vencedores. Hoje, quando o preço de uma camisa oficial feita pela Nike bate nos R$ 799,00 – as de torcedores ficam em torno de R$ 500,00 –, chegamos à disputa como azarões, como alguém que segue sonhando, mas sabe que as chances reais de título estão tão distantes quanto os anos 50 da canarinho original. Mas, quem sabe? Tanta coisa vintage faz sucesso.

04.07.2026

P.S.: A ilustração que acompanha essa crônica é uma caricatura de Aldyr Garcia Schlee (1934-2018), com a camiseta que idealizou. Ela foi criada pelo autor do texto, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é O amor e o meu país, de Ivan Lins. Lançada originalmente em 1970, a música marcou a projeção nacional do autor ao conquistar o segundo lugar no V Festival Internacional da Canção, tornando-se um dos primeiros marcos de sua carreira. Ela fala do amor como um ideal que transcende fronteiras. Na época, chegou a ser interpretada como uma canção ufanista, leitura que depois foi relativizada.


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