PODE HAVER ALGO DE PODRE
A expressão “Há algo de podre no Reino da Dinamarca” tem origem na peça Hamlet, escrita por William Shakespeare por volta de 1600. E, curiosamente, a frase mais conhecida em português não corresponde exatamente ao original. Quem a pronuncia no texto, em inglês, é o personagem Marcellus, logo após a aparição do fantasma do rei morto. Ele diz, literalmente: “Something is rotten in the state of Denmark.” Então, uma tradução mais literal seria “Algo está podre no Estado da Dinamarca”. É preciso considerar que, naquela época, a palavra state não significava apenas “Estado” no sentido político moderno. Podia designar a situação geral do reino, o governo ou a ordem institucional. Por isso, muitas traduções optaram por traduzir do modo como ficou conhecido aqui.
No contexto da peça, a frase sugere que existe uma corrupção profunda escondida sob a aparência de normalidade. O rei foi assassinado pelo próprio irmão, que tomou o trono e se casou com a rainha viúva. Embora a população ainda não saiba disso, Marcellus percebe que algo está errado no coração do poder. E seu uso atual segue nessa linha: sendo uma forma metafórica de que algo está errado, que existe conspiração, irregularidades nos bastidores ou deterioração moral.
Aos 19 anos, Endrick há algum tempo vem sendo considerado uma das principais promessas do futebol brasileiro. Mesmo jovem, não é absurdo dizer que já se tornou realidade. Revelado pelo Palmeiras, onde chegou com apenas dez anos, o atacante se transferiu para o Real Madrid após marcar mais de 160 gols nas categorias de base do time paulistano e ter sido protagonista, por exemplo, no título brasileiro conquistado em 2023, com seu time chegando dois pontos na frente do Grêmio. É um atacante de uma forte explosão física, canhoto e com uma enorme capacidade de finalização. No ano passado foi emprestado pela equipe madrilenha para o Lyon, da França. Em 21 jogos fez oito gols e deu oito assistências. Vai retornar logo depois da Copa do Mundo.
Convocado para jogar na Seleção Brasileira, estreou com 17 anos, em novembro de 2023, sob comando de Fernando Diniz. Com a camisa amarela marcou contra Inglaterra, Espanha e México, quando treinado por Dorival Júnior. E mais um recentemente, contra o Egito, já durante a era Carlo Ancelotti. O atual treinador do Brasil o dirigiu por dez meses no clube. O jovem marcou gols das estreias da Liga Espanhola e também da Liga dos Campeões. Participou de 37 partidas e fez sete gols.
No jogo da estreia brasileira na Copa do Mundo, contra Marrocos, todo o nosso time esteve muito mal. Especialmente na primeira meia hora da partida. A defesa estava atrapalhada, o meio de campo era um imenso buraco e o ataque se mostrou inoperante. Igor Jesus e Matheus Cunha não conseguiram uma conclusão sequer. Mas Endrick continuou entre os reservas o tempo todo. Foi uma decisão tão surpreendente que inúmeros comentaristas esportivos e ex-jogadores manifestaram sua estranheza. A torcida com certeza também não entendeu nada. Mas, infelizmente, se pode suspeitar que não se tratou apenas de uma decisão técnica.
Endrick nasceu em Taguatinga, no Distrito Federal, e cresceu na região de Valparaíso de Goiás. Sua família enfrentava momentos de extrema vulnerabilidade. Mudaram-se para a capital paulista porque o Palmeiras assegurou uma casa e emprego para o pai. Com uma inteligência bem acima da média, o menino já se virava bem no inglês e no espanhol antes de ir morar na Europa. E nos últimos meses, em Lyon, conseguia dar entrevistas em francês. É um atleta exemplar, tem rotina regrada, cuida do sono e da alimentação, gosta de videogame mas não de festa, se recusa a fazer propaganda de bets e tem Bobby Charlton como seu ídolo.
Entre seus pecados está não ser “parça” do Neymar. E ter assinado um patrocínio com a New Balance, deixando a Nike que tem um contrato milionário com a CBF e, dizem as más – ou bem informadas – línguas, influencia inclusive em algumas convocações da Seleção Brasileira. Aliás, oito dos integrantes do grupo que está disputando a Copa 2026 são também patrocinados por ela: Vinícius Júnior, Rodrygo, Alisson Becker, Gabriel Magalhães, Marquinhos, Lucas Paquetá, Matheus Cunha e Bruno Guimarães. Por não integrar a panela, Endrick teve que ouvir de Casemiro que ele “ainda não era do grupo”. Por coincidência, o menino recebeu uma inexplicável e violenta entrada, em um treino pré-Copa, felizmente sem ter sofrido uma lesão que dela o retirasse.
Não são raras as histórias de jogadores preteridos apenas por não serem ou fazerem o que esperam deles. Por não baixarem a cabeça, se tornando “obedientes”. Endrick é tecnicamente genial, atleta no melhor sentido da palavra, responsável, poliglota e inteligente. Está pagando a conta por sua ousadia. Consta que a Nike teria exigido a convocação de Neymar, mesmo machucado, e que está trabalhando seriamente nos bastidores, para que ele entre em campo. A New Balance não tem como sequer sugerir que Endrick venha a ter uma chance no time titular. Mas, sabe que a concorrente não deseja que o menino tenha protagonismo, por interesses comerciais.
Com isso tudo, considerando ainda a qualidade muito maior de vários dos adversários, para a imensa maioria dos brasileiros não sobra nada além de uma crescente expectativa de novo fracasso e decepção. O que, aliás, pesquisas de opinião estão confirmando desde a fase preparatória. Torcer, no nosso caso, parece só ser possível se o ato for elevado para a condição de fé cega e incondicional, quase que de um delírio quixotesco.
18.06.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é O Sonho Impossível, versão brasileira de O Homem de La Mancha, composta por Chico Buarque de Holanda. A interpretação é de Murici Lima.