Em 1934 estávamos vivendo uma situação muito semelhante à atual, em termos políticos. O fascismo se alastrava e a Itália, que seria a sede da segunda Copa do Mundo da história, tinha Benito Mussolini como seu governante – não eleito, diga-se de passagem. Ao mesmo tempo, a Fifa ainda claudicante concordou com uma série de exigências para que o evento acontecesse. Aceitou até mesmo que os italianos elaborassem o calendário dos jogos e que escolhessem os árbitros, algo impensável nos dias de hoje.

Com muito mais inteligência do que escrúpulos, Mussolini se deu conta de que tinha nas mãos um instrumento eficiente para fazer propaganda do seu governo. As dimensões internacionais garantiriam demonstrar ao mundo tanto a identidade nacional quanto os valores defendidos pelo fascismo. A “nova Itália” teria que mostrar-se superior, tanto moralmente quanto no aspecto físico. Então, assumiu o controle de detalhes como elaborar uma segunda taça, maior e mais vistosa do que a Jules Rimet, que também seria entregue ao selecionado vencedor. E este teria que ser o italiano, é claro. Ganhando, ficaria com a Coppa Del Duce.

Havia um problema a mais a ser resolvido. Como o “escrete” da Azzurra não era o melhor, precisaria de algum modo ser reforçado. Então, foi feita a “importação” de três argentinos, que haviam sido vice-campeões do mundo, quatro anos antes. Luisito Monti, Raimundo Orsi e Enrico Guaita, por terem sobrenomes italianos, foram cooptados em troca de pequenas fortunas em valores da época. Além disso, o fato de o Uruguai sequer ter aceitado ir lutar por mais um título, devolvendo o boicote feito pela Itália quatro anos antes, também facilitou.

Como refém dos desejos de Mussolini, a Fifa viu sem reagir a presença de árbitros mais do que suspeitos em todos os jogos dos italianos. Como o sueco Ivan Eklind, no enfrentamento contra a Áustria, que se tornara a sensação do torneio, pela vaga na decisão final. A partida da Itália foi em um campo totalmente impraticável, devido às chuvas. Isso atrapalhou sobremaneira o estilo de jogo austríaco, que tinha atletas excepcionais, como o lendário e extremamente hábil Mathias Sindelar, conhecido como o “Mozart do Futebol”. O único gol da partida foi marcado por Guaita, aos 19 minutos do primeiro tempo, em completo impedimento segundo relatos da época.

No dia 10 de junho de 1934 o Stadio Nazionale recebeu nada menos do que 55 mil espectadores. Estes viram a vitória da Itália por 2×1 sobre a Tchecoslováquia, na prorrogação. E, adivinhem quem estava outra vez com o apito: o mesmo Ivan Eklind, do alto da enorme experiência trazida pelos 28 anos bem vividos até então. Não há registros sobre ele ter ou não permanecido no local, enquanto era entoada a “Giovinezza”, o hino fascista. Como esse veneno já circulava nas veias e atingia ainda o cérebro inclusive dos jogadores, na Copa da França, quatro anos mais tarde, a Azzurra perfilada para enfrentar a Noruega, em Marselha, no seu então primeiro jogo, fez para os presentes a saudação fascista, sendo fortemente vaiada.

Em deboche ainda maior do que apenas esticar os braços, nas quartas, contra os donos da casa, também por ordem expressa de Mussolini, os jogadores italianos usaram a Camicia Nera (camisa negra). Estas foram vestimenta dos primeiros esquadrões fascistas criados em 1919, os Squadre d’Azione, para atacar socialistas, católicos, republicanos e sindicalistas, matando centenas de pessoas. Os italianos passaram pelo Brasil, na semifinal (2×1) e foram bicampeões contra a Hungria (4×2).

Os títulos de 1934 e 1938 continuam na galeria de conquistas da Itália. Nem haveria razão para que dela eles fossem tirados. Já quem tentou se apropriar deles para eternizar projetos de poder e glória imerecida, esse entrou para a história por razões bem diferentes. Talvez essa seja a lição mais duradoura daquelas Copas: mesmo sem conseguir escapar de governantes que o usam para propósitos distantes dos ideais esportivos – algo que se repetiu em outros tempos e lugares –, o futebol é mais forte e sobrevive a eles.

15.06.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial. 

O bônus de hoje é Bella Ciao, música que era entoada como verdadeiro hino pela resistência italiana na luta contra o fascismo de Mussolini e, depois, contra a ocupação nazista alemã. Esses guerrilheiros eram os chamados partigiani – ou partisans, em português. Foi muito importante o papel que desempenharam na libertação de cidades como Milão e Turim. Foram eles que capturaram Mussolini, em 28 de abril de 1945, quando tentava fugir para a Suíça, e o executaram junto com sua companheira Claretta Petacci. A canção tem várias gravações e versões distintas.


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