“Se eu tivesse mais tempo, teria escrito uma carta mais curta.”, afirmou Blaise Pascal em sua obra “Lettres Provinciales”, em 23 de janeiro de 1657. Acontece que ele não estava, neste caso específico, filosofando sobre a existência ou o passar das horas, mas pedindo desculpas ao seu destinatário pela extensão da missiva. Isso exige edição, clareza, concisão ou síntese, processos que consomem tempo e energia mental. Dizia, indiretamente, que ser prolixo é muito mais fácil.

Fazer uma síntese – o que se faz geralmente com relação a textos de outros – ou produzir um texto conciso – esse de nossa própria lavra – é desafiador porque nos cobra muito em termos de processamento cognitivo. Para sintetizar é preciso compreender o tema profundamente, separar aquilo que é essencial de tudo o que é secundário e, de certa forma, reescrever mental e/ou fisicamente com uma precisão maior. A concisão, por sua vez, não é apenas escrever menos. Ser conciso é, em última análise, transmitir o máximo de significado com o menor número de palavras possível, o que demanda maior planejamento e esforço do que escrever livremente.

Lutar contra a tendência de explicar demais, uma inclinação natural de quem é detalhista, mas também de quem acumula preocupação e ansiedade, se torna uma necessidade imperiosa, em ambos os casos. Algo que jornalistas precisam enfrentar todos os dias. Entretanto, a experiência permite que se entenda melhor a situação e até que se dê alguns conselhos, que não são, de modo algum, uma “receita de bolo”, mas que podem ser bastante úteis.

No caso da síntese a primeira dificuldade a ser enfrentada é identificar o essencial, como foi posto logo acima. Com uma relativa frequência há insegurança para distinguir as ideias centrais dos exemplos e detalhes, o que frequentemente leva à inclusão de informações de baixo valor. Também há o risco do apego ao texto original, quando de terceiros. A tentação de copiar trechos do original em vez de parafrasear e sintetizar com as próprias palavras impede a produção de um texto novo e coeso. O receio contrário está na possibilidade de, ao cortar palavras, levar a mensagem a perder sua essência ou nuance. E há ainda o medo de se estabelecer redundâncias, com a desnecessária repetição de ideias.

Agora falando sobre produção própria, depois de escrever, revisar com cuidado e lapidar é o modo correto. Esta etapa não deve ser pulada, uma vez que nela se retira os termos desnecessários, adjetivos e advérbios redundantes, e se tenta evitar a voz passiva. Entretanto, seja por tédio ou pressa, pelo automatismo ao escrever ou pela falta de tempo e de paciência para editar, seguido mantemos uma primeira versão do texto produzido, mesmo sendo ela menos qualificada.

Como dicas para a realização de uma síntese mais adequada, talvez se deva estar atento a quatro pontos. São eles entender o todo, identificar os tópicos frasais, cortar com critério mas sem dó e conectar as ideias. Ou seja: ler o texto original com toda a atenção e tentar resumi-lo tanto mentalmente quanto no papel ou tela; focar no que é central o livrando do resto; remover palavras que não adicionam valor e também todas as repetições; e fazer uso de termos de transição, para dar fluidez ao texto mais curto.

Como dicas para a concisão, aqui vão mais quatro pontos. Prefira usar a ordem direta, elimine advérbios e muletas verbais, substitua locuções por verbos fortes e use uma técnica prática para fazer cortes. Ou seja: uma estrutura clássica com sujeito mais verbo mais complemento é o mais curto caminho entre sua ideia e a mente do leitor. Escrever “a decisão, embora tenha sido tomada de forma tardia pelo comitê, foi correta” é ser prolixo, enquanto optar por “o comitê tomou a decisão correta, embora tardia” é ser conciso.

O segundo ponto é que muitas vezes nós usamos expressões que não adicionam conteúdo, apenas “gordura” ao texto. Verifique se você não está usando palavras como os indefectíveis advérbios terminados em “mente” ou se apoiando em demasia em estruturas óbvias. “Eu acredito que nós precisamos, de certa forma, analisar seriamente os dados” se trata de exemplo do que deve ser eliminado e substituído pelo tão melhor “precisamos analisar os dados.”

As locuções verbais (usar dois ou três verbos quando um bastaria) são grandes vilãs da concisão. Elas deixam o texto “lento”. Por exemplo, fica melhor escrever medir ao invés de “realizar a medição”, pretender no lugar de “ter a intenção de”, analisar no lugar de “fazer uma análise” e o direto executar, substituindo “pôr em execução”. E finalmente a quarta dica é ao finalizar um rascunho, revisar com o objetivo de reduzir o texto em dez por cento, sem perder nenhuma informação relevante. Conseguir isso é garantir clareza.

Quando o texto é de nossa própria autoria existe ainda um normal apego emocional às palavras, fator que dificulta a concisão, pois parece que cada frase é essencial para expressar o nosso pensamento. Então, não se acanhe de seguir mantendo coisas que são apontadas como “erros”. Não se pode tomar sugestões de melhoria como sendo uma exigência imperiosa. Eu mesmo seguido não sigo isso que estou dizendo ser importante seguir. Escrever é também ser autêntico e ter estilo. Regras são indicativos e não devem ser usadas como camisa de força. Ou tudo se tornaria obrigação, peso e controle, enquanto que escrever, mesmo que profissionalmente, tem que ter boa dose de alegria, liberdade e leveza. Ou não vale a pena.

11.06.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é a música Metade, de Oswaldo Montenegro.


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