QUANDO A FÉ VALE MAIS QUE O CONHECIMENTO
Uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que está tramitando em Brasília pretende ampliar a imunidade tributária já concedida às instituições religiosas. Pelos cálculos divulgados, a renúncia fiscal poderá chegar a valores superiores ao que o governo federal destina anualmente para o orçamento discricionário de custeio e investimentos de todas as universidades federais brasileiras. Sim, todas elas juntas. As estimativas apontam para um impacto de até R$ 7 bilhões por ano.
A notícia causa estranheza. Não apenas pelos valores envolvidos, mas pelo contraste que estabelece entre aquilo que o país costuma proclamar como prioridade e aquilo que seus representantes efetivamente decidem privilegiar. Basta observá-la um pouco além da reação inicial para perceber que ela não trata apenas de uma proposta tributária. Ela revela uma escala de valores na qual as escolhas orçamentárias parecem seguir menos as necessidades do desenvolvimento coletivo do que as conveniências políticas de um Legislativo cada vez mais empenhado em converter recursos públicos em capital eleitoral.
Convém repetir. Estamos falando de uma renúncia de arrecadação que pode superar os recursos destinados ao funcionamento de universidades onde se formam médicos, engenheiros, professores, pesquisadores, cientistas, jornalistas e tantos outros profissionais responsáveis por produzir conhecimento, inovação e desenvolvimento.
Não se trata de discutir a existência ou não da liberdade religiosa. Ela é um direito fundamental e deve ser preservada. Tampouco se ignora que muitas instituições religiosas realizam trabalhos sociais importantes, acolhendo tantas pessoas em situação de vulnerabilidade e prestando serviços que muitas vezes o Estado não consegue oferecer adequadamente. A questão é outra.
O que causa perplexidade é perceber que, em um país onde as universidades convivem com laboratórios sucateados, prédios necessitando de manutenção, bolsas insuficientes e dificuldades orçamentárias recorrentes, a prioridade política pareça estar voltada para ampliar benefícios tributários cuja extensão, justamente por envolver recursos públicos, deveria ser objeto de permanente revisão.
Em qualquer sociedade, o discurso sobre prioridades costuma ser muito bonito. Governantes exaltam a educação em cerimônias oficiais. Parlamentares repetem que o futuro depende do conhecimento. Empresários afirmam que inovação é o caminho para o desenvolvimento. Tudo muito correto. Tudo muito inspirador. Mas as prioridades verdadeiras não aparecem nos discursos. Elas aparecem nas escolhas. Estão presentes naquilo que se financia e naquilo que se deixa de financiar. Nos incentivos que se ampliam e nos investimentos que se adiam. Nos privilégios que se preservam e nas necessidades que continuam esperando.
Talvez, porém, a questão mais importante nem esteja nos impostos. Eles são apenas a face visível de uma escolha muito mais antiga: o lugar que cada sociedade reserva ao conhecimento. Desde a Antiguidade, a humanidade avança porque existem pessoas dispostas a desconfiar das certezas estabelecidas, formular perguntas incômodas e aceitar que talvez as respostas de ontem já não bastem para explicar o mundo de hoje.
A fé parte da convicção. A ciência parte da dúvida. Foi assim quando Galileu Galilei apontou o telescópio para o céu e viu algo diferente do que todos acreditavam. Ele, ao defender publicamente suas conclusões, acabou julgado pela Inquisição e condenado à prisão domiciliar. Foi assim quando Giordano Bruno ousou defender um universo muito maior do que admitia a cosmologia oficial de seu tempo e acabou condenado à fogueira. São dois exemplos nos quais o conhecimento cobrou um preço daqueles que ousaram substituir a certeza pela investigação.
Não há incompatibilidade entre fé e conhecimento. A própria história demonstra que inúmeras universidades nasceram sob inspiração religiosa. Basta lembrar Bolonha, Paris ou Oxford, surgidas em um ambiente profundamente cristão. Também lembremos que incontáveis cientistas foram homens profundamente religiosos. O problema surge quando uma sociedade, obrigada a escolher onde aplicar recursos públicos, demonstra valorizar mais as instituições dedicadas a preservar convicções do que aquelas destinadas a produzir conhecimento novo. As sociedades não são definidas apenas por aquilo em que acreditam. São definidas, sobretudo, pelas prioridades que escolhem sustentar.
26.06.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é Oração ao Tempo, de Caetano Veloso. Lançada em 1979, no álbum Cinema Transcendental, ela é considerada uma das obras mais marcantes do repertório do artista. Combina poesia com reflexão filosófica e tem arranjo delicado. Embora o título sugira religiosidade, a canção é uma meditação poética sobre tempo, conhecimento, transformação e humildade diante do universo. Ela conversa muito bem com a ideia de que a ciência é construída pela dúvida e pela revisão permanente.