UMA ORAÇÃO QUE ATRAVESSA SÉCULOS
Recentemente encontrei na Internet uma versão da oração basilar do cristianismo, o Pai-Nosso. Mas em aramaico, língua associada à região onde teria vivido Jesus. Não sei dizer se aquelas palavras reproduzem exatamente o que foi pronunciado há dois mil anos. Aliás, ninguém pode. O tempo costuma ser impiedoso com as certezas e generoso com os mistérios. Ainda mais quando nos oferece apenas visões através de brechas, de aberturas para um tempo no qual não existiam os registros tecnológicos que temos hoje.
Mesmo sem convicção absoluta da exatidão do que foi encontrado, há algo de comovente em ler aquelas linhas compostas por sinais estranhos aos nossos olhos. Assim, mais do que compreender seu significado, somos levados a imaginar a sonoridade. Como teria sido ouvir aquelas palavras sendo pronunciadas pela primeira vez? Que ritmo teriam? Que pausas? Que inflexões? Tradução eu consegui, obviamente. Ou nem saberia do que se trata. Entretanto, a prece nos chega sem a vivência emotiva de um contato então recém estabelecido entre o humano e o divino, se considerarmos uma visão ocidental. E isso nos impossibilita entender toda a sua real extensão na época.
Acostumados a recitar a oração em português, muitas vezes de forma automática, quase mecânica, esquecemos que ela nasceu em outro mundo. Foi voz antes de ser texto impresso – não se pode esquecer que o chinês Bi Sheng só desenvolveria um sistema de tipos móveis de cerâmica por volta do ano 1040. Gutemberg, por sua vez, criaria a prensa apenas em 1440. Deste modo, antes de ser doutrina, foi conversa que aproxima, foi comunhão. E habitava apenas a memória de homens e mulheres que a transmitiam oralmente.
Talvez por isso exerçam tanto fascínio as interpretações que procuram recuperar sentidos escondidos nas palavras originais. Algumas seguem o rigor acadêmico. Outras preferem caminhos bem mais poéticos, como a famosa leitura difundida por Neil Douglas-Klotz, que transforma com muita propriedade o tradicional “Pai nosso que estás nos Céus” em algo próximo de uma invocação à própria respiração da vida.
Os estudiosos discutem a fidelidade dessas interpretações. E, acredito, fazem bem. O conhecimento precisa desse cuidado. Mas talvez exista uma questão paralela, menos científica e mais humana. O que buscamos quando voltamos a textos tão antigos? Será a precisão das palavras ou a emoção que elas ainda são capazes de despertar?
Não deixa de ser curioso que, numa época dominada por telas, algoritmos e inteligência artificial, tantas pessoas se sintam atraídas por uma oração formulada em uma língua que quase ninguém fala no cotidiano. Como se procurassem, naquela sonoridade distante, alguma ponte com aquilo que permanece essencial. E sobre ser o aramaico supostamente uma língua morta, isso não é verdade. Estima-se que ainda existam entre algumas centenas de milhares e cerca de um milhão de falantes, consideradas as suas diferentes variantes modernas, espalhados pelo mundo.
A versão que contei ter encontrado é a seguinte, em uma forma litúrgica do siríaco, uma variante do aramaico utilizada há séculos por igrejas cristãs orientais: Abwoon d’bashmaya — Ó Pai-Mãe da vida, respiração e fonte de toda existência — Nethqadash shmakh — Que teu nome desperte em nós a consciência do sagrado — Tethe malkuthakh — Que teu reino de unidade e plenitude floresça entre nós — Nehwe sebyanach aykanna d’bashmaya aph b’arha — Que tua vontade de harmonia se realize na Terra como já se realiza nos planos da luz — Hawlan lachma d’sunqanan yaomana — Concede-nos hoje o alimento material e espiritual necessário para nossa caminhada — Washboqlan khaubayn aykana daph khnan shbwoqan l’khayyabayn — Liberta-nos dos erros, culpas e amarras que carregamos, assim como procuramos libertar aqueles que nos feriram — Wela tahlan l’nesyuna — Não permitas que nos percamos nas ilusões, nos medos e nas provações que nos afastam de nossa essência — Ela patzan min bisha — E livra-nos de tudo aquilo que obscurece a verdade e impede nosso crescimento — Metol dilakhie malkutha wahayla wateshbukhta l’alam almin — Pois teu é o reino, teu é o poder e tua é a glória que se manifesta através de todas as eras — Ameyn — Assim seja. Que assim se cumpra.
Importante considerar que a tradução se trata de uma paráfrase espiritual e poética em português, que busca explorar alguns possíveis significados simbólicos das palavras aramaicas. Mesmo assim, não há como ficar indiferente. Por isso compartilho hoje esse achado com os meus leitores e minhas leitoras. Não está faltando fé nos dias atuais. O que falta é se ter a fé correta, nos valores reais. O que falta é uma aproximação verdadeira com a essência do que seja divino. Talvez seja por isso que palavras tão antigas continuem encontrando abrigo em corações tão modernos.
07.06.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é o famoso Adagio for Strings, de Samuel Barber, com o violoncelista croata Hauser, em gravação feita no Museum of Fine Arts, de Budapest. Esta tornou-se uma das músicas mais emocionantes do século XX. Ela tem caráter contemplativo, melancólico e meditativo, de modo que frequentemente é utilizada em cerimônias, homenagens e momentos de reflexão por transmitir uma sensação de solenidade, recolhimento e transcendência. Portanto, também pode ser percebida como uma verdadeira oração.