A campainha do telefone já não toca como antigamente. Ou ao menos o tipo de emoção que se pode esperar, ao atendermos suas chamadas, nem sempre são os mesmos. Aliás, o próprio termo “campainha” parece muito estranho hoje em dia. Entretanto, houve um tempo em que ela até nos soava bem, quando ter um aparelho daqueles fixos era algo tão raro quanto caro e prestava apenas o serviço de fornecer informações. Ele carregava urgência, afeto, notícia boa, convite, um jogar conversa fora ou mesmo e infelizmente alguma tragédia. Claro que essa última situação não sendo nada agradável. Agora, quando temos nas mãos aparelhos celulares, com frequência o que eles trazem é muita desconfiança.
O celular vibra, o número nos é desconhecido, atendemos e, logo após dizermos “alô”, do outro lado se recebe apenas silêncio. Quem de nós não passou por isso? Ocorre sempre, com todos, quase todos os dias. Mas, estes exatos três segundos de espera raramente se tratam de um vazio casual. Esse “ninguém falar” pode ser na verdade um mutismo técnico, proposital e programado. É um intervalo frio em que máquinas registram uma série de informações importantes. No mínimo, registram que a linha está ativa, havendo ainda a chance de ser avaliado se nossa voz merece ou não ser capturada por algum dispositivo. O que propicia depois uma grande variedade de fraudes, propaganda e manipulação.
A atuação das quadrilhas é complexa e funciona em etapas. Muitas das vezes os golpistas já possuem informações nossas, que foram obtidas em cadastros vazados, redes sociais e bancos de dados clandestinos. Como já revelei antes, a ligação é apenas um complemento: confirma a existência da linha ativa e pode, em estruturas mais complexas, inclusive capturar entonação de voz para uso posterior com inteligência artificial. Além disso, eles ficam sabendo que a pessoa naquela determinada hora está disponível para receber chamadas.
Softwares hoje acessíveis conseguem reproduzir timbre, ritmo e inflexões vocais com impressionante realismo, especialmente quando combinados com áudios públicos extraídos de vídeos e mensagens compartilhadas na internet. Ou seja, fornecemos em pelo menos dois locais informações a nosso próprio respeito, que depois são utilizadas contra nós. Isso pode, por exemplo, dar mais realismo para chamadas posteriores que simulam sequestros, narram acidentes, avisam sobre emergências hospitalares. Todas essas situações que podem pegar as pessoas desprevenidas o suficiente para que façam alguma transferência bancária. Há ainda a possibilidade de uma voz suave nos oferecendo a solução de nossos problemas financeiros, com um empréstimo bancário, por exemplo.
O terror maior está justamente nisso: durante décadas aprendemos a confiar na voz humana como sendo território da autenticidade. Hoje, até ela se tornou vulnerável. Até ela pode ser fraudulenta. Assim sendo, o mais perturbador talvez nem seja o golpe em si, mas a transformação cultural que ele produz. A nossa confiança vai sendo corroída através de pequenas experiências cotidianas. É assim que passamos a suspeitar de quem é desconhecido, depois do conhecido e, em certos momentos, até da própria comunicação. O “alô” deixa de ser uma saudação espontânea e se converte em palavra defensiva, pronunciada quase como quem verifica se existe alguém real do outro lado da linha.
Curioso perceber como o silêncio, antes associado à contemplação e à paz, ganhou outro significado na era digital. Hoje, ele pode esconder algoritmos em ação, sistemas identificando vozes ou centrais decidindo se vale a pena prosseguir com uma chamada. Até ele passou a servir à tecnologia.
Esse é um dos retratos fiéis e devastadores do nosso tempo. Nunca estivemos tão conectados, mas também nunca desconfiamos tanto de uma ligação, de uma mensagem, de uma imagem, um vídeo ou até da voz de quem fala conosco. Enquanto os silêncios necessários para pensar e sentir se tornam cada vez mais raros, bastam três segundos de silêncio ao telefone para despertar um alerta. É pouco tempo no relógio, mas o suficiente para revelar o tamanho da desconfiança em que todos estamos sendo ensinados a viver.
28.06.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é The Sound of Silence (O Som do Silêncio), canção composta por Paul Simon, da dupla Simon & Garfunkel, entre os anos de 1963 e 1964. A versão aqui postada é a mais impactante, com a banda Disturbed. Tanto o título quanto a letra parecem prever o isolamento que a era tecnológica iria gerar. Versos como “People talking without speaking. People hearing without listening” (Pessoas falando sem nada dizer. Pessoas ouvindo sem escutar) e “And no one dared disturb the sound of silence” (E ninguém ousou perturbar o som do silêncio) dialogam muito bem com o parágrafo da crônica onde é citado que o silêncio pode esconder algoritmos.
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