Trata-se de uma obviedade matemática: a pessoa que gasta menos do que ganha, PODE enriquecer; a pessoa que gasta mais do que ganha, VAI empobrecer. Não há como ser diferente. A primeira das possibilidades está na condicional porque a imensa maioria de nós tem salários que são baixos, não se podendo garantir o que foi posto. Mesmo assim, nesses casos ao menos fica assegurada uma vida com sobressaltos menores. A segunda das possibilidades está afirmada porque a cada 30 dias estaria sendo cavado um buraco mais fundo, sem perspectiva alguma que não seja o agravamento da situação.

Acontece que entender de números não é uma coisa fácil. Quando eles se referem ao dinheiro, parece que piora. Ainda mais que o apelo para que se consuma é diário e inescrupuloso. Tudo é movido à publicidade e essa não foi feita para que você se dê bem. No máximo ela consegue lhe oferecer meios de atender necessidades reais, sendo que na maioria das vezes nem isso. O sistema as cria artificialmente e depois lhe oferece os meios para resolver – ou pensar que resolveu.

Você compra roupas pelo simples fato de que não pode andar nu nem precisa passar frio. Mas atender toda e qualquer tendência da moda é desnecessário. É bom ter um automóvel, mas ele não precisa ser trocado a cada ano, apenas porque o modelo novo tem um friso lateral diferente. Nenhuma grife faz algo além de lhe dar uma falsa satisfação; nenhum modismo o valoriza pelo que você é, mas pelo que lhe garante sem provas ser mais interessante. E bens de luxo são ostentação, não representando necessariamente qualidade, utilidade ou usabilidade que sejam superiores.

Voltando à nossa falta de noção sobre quantidades e valores, posso dar outro exemplo que não aquele constante em contracheques. Se alguém muito generoso, assim do nada, lhe oferecesse para escolher entre receber na hora R$ 1 milhão de presente ou ter à disposição no mês seguinte o montante que resultasse de um único centavo hoje, que dobrasse a cada dia, por 29 dias – ou seja, completar o mês –, o que você e a imensa maioria das pessoas escolheriam? Parece ser muito óbvio que aquele milhão inteiro é muito maior e atraente. Pois, ao fazer isso, se estaria abrindo mão de mais de R$ 4,3 milhões. Isso porque aquele quase nada inicial nesse pouco tempo chegaria a exatos R$ 5.368.709,12.

Sem dúvida, mesmo pequenas quantias, quando acumuladas de forma regular, podem se tornar relevantes. Não tanto quanto essa brincadeira que expus, mas se pode ter um bom dinheiro sendo responsável e racional. Agora, é muito fácil recomendar que alguém guarde 10% do seu salário quando os outros 90% são suficientes para assegurar moradia, alimentação, saúde, educação, transporte e algum lazer. Para quem vive no limite, entretanto, 10% não é uma abstração financeira: pode ser a conta de luz, o supermercado ou um medicamento. No primeiro caso, trata-se de um bom hábito adquirido; no segundo pode ser imenso sacrifício. E isso desmonta aquela literatura financeira simplista segundo a qual qualquer pessoa consegue enriquecer desde que tenha “disciplina”.

Outro detalhe: é razoável poupar dinheiro, quando possível. Mas também é preciso poupar-se. Trabalhar incessantemente, abrir mão do descanso, da família, dos amigos e do prazer de viver não garante riqueza. Pode apenas assegurar exaustão. E afinal, nós também ganhamos um número limitado de dias para viver e os vamos gastando. Esses não rendem juros nem podem ser recuperados. Depois que terminam, não voltam no contracheque seguinte.

13.08.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje abre com Ouro de Tolo, de Raul Seixas. Depois temos Comida, dos Titãs.


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