O MOMENTO DA CRIAÇÃO

Não, eu não bebi nem fumei nada hoje. Aliás, raramente bebo e jamais fumei. Mas isso não impede que meus pensamentos tomem, vez por outra, rumos um tanto alterados. Uma imaginação turbinada por si só, sem necessitar de aditivos. Como aconteceu agora à tarde. Do nada fiquei imaginando como teria sido o momento da criação. Não uma dessas que são muito interessantes, de artistas plásticos, músicos, poetas ou escritores. Me refiro à CRIAÇÃO assim, com todas as letras maiúsculas, para deixar bem claro que era aquela dos primórdios, a primeira. Ou seja, dessa vez me superei mesmo. Talvez uma falta absoluta do que fazer.

Vejamos se consigo expor o caminho dos meus pensamentos. Vou começar do princípio – e não foi intenção alguma de fazer qualquer trocadilho. Tudo o que começa tem uma causa. O Universo teve um começo e, portanto, teve uma causa. Supondo que essa causa foi Deus, ele certamente não estava no Universo naquele instante, ou teria criado a si próprio. Mas, se Deus não poderia estar no Universo quando de sua criação, onde Ele estava? E, pensando em outro detalhe, se agora ele habita o Universo – se não estiver nele, todas as suas criaturas estarão sozinhas nessa imensidão –, que lugar habitava antes da sua criação? E segui pensando: se o Universo é infinito, não pode existir nada depois dele. Pelo simples fato de que ele não acaba. Mas se ele não for infinito, tendo então limites, o que existe depois desses limites?

Deixando um pouco o espaço de lado, parti então a imaginar questões relativas ao tempo. Que também é algo que não se compreende direito, mesmo sabendo que estamos presos e mergulhados nele. A ciência já provou, por exemplo, que ele nem sequer passa do mesmo modo, em lugares diferentes. Essa descoberta é incontestável, o que complica ainda mais quaisquer possibilidades de se buscar uma conceituação. Mas, evidentemente, se pode tentar a alternativa do delírio. Se ele for contínuo, por exemplo, como existem cientistas que acreditam, tudo acontece simultânea e eternamente. Abordei isso aqui, ligeiramente, em outra postagem. Cada um de nós está nascendo, vivendo e morrendo em um único mesmo momento e para sempre, mesmo que se perceba isso de maneiras distintas. Se bem que nesse caso nem o termo “momento” poderia ser aplicado.

Minha filha Bibiana simplifica um pouco – ou será que dificulta ainda mais as coisas? –, me repetindo que o tempo nem sequer existe. Se bem que algumas vezes na vida ela também me disse que eu não existia e estava errada. Inclusive cheguei bem antes do que ela e isso já faz muito tempo – vejam que não consegui fugir das expressões “antes” e “tempo”. Tanto que os meus cabelos ficaram brancos e uma camada de gordura abdominal veio me fazer uma visita e não foi embora. Isso para citar apenas duas das tantas transformações indesejadas.

O que não se transforma nunca é a nossa imensa capacidade de termos dúvidas. Falo em nós porque não é minimamente plausível que isso só aconteça comigo. Esses exemplos de hoje, sobre espaço e tempo, são apenas duas entre tantas outras que vez por outra me acometem. Como em tardes de chuva e vento nas quais ficamos olhando tudo pela janela e nos resta apenas pensar. Por que razão eu nasci; por que cargas d’água todos morrem; por que a saudade dói tanto, até quando é de coisas boas? Que raios de entidade é essa que alguns chamam de destino? Se todos nascemos bons, por que a maldade humana aparece tão seguido e com tanta força? Por que muitas vezes estamos sós, mesmo no meio de tanta gente? Como se faz para diferenciar desejo e necessidade? Onde está estabelecido o limite entre aceitação e subserviência?

Algumas dessas questões nos acompanham desde a infância – falo outra vez no plural, para ao menos me sentir acompanhado –, quando estavam ao lado de outras mais singelas. Novas vão se somando a elas no decorrer da vida, em geral sem que nenhuma das anteriores tenha sido resolvida de modo plenamente satisfatório. Mudamos o jeito de pensar sobre elas, deixamos de ser atingidos por algumas, mas seguem por perto, via de regra com enorme potencial de reprodução. Ainda mais nessas tardes assim, tapadas de frio, nas quais até o pôr do sol parece ser melancólico.

12.08.2021

Essa é a obra A Criação de Adão, pintada por Michelangelo na Capela Sistina, localizada no Vaticano.
Simboliza o momento no qual Deus cria o primeiro homem

Hoje temos bônus em duplicidade. Primeiro o poema Tempo que Foge, de Mário de Andrade, na voz do ator e diretor de teatro paulista Antônio Abujamra (1932-2015), que era conhecido por sua irreverência, pela qualidade de suas encenações e pela crítica que fazia em relação aos tabus sociais. Depois, uma canção tão suave quanto merecemos, após tamanha divagação. Com uma letra que fala, entre outras delícias poéticas, “pela falta que nos faz, a nossa própria luz a nos orientar”. Trata-se de mais uma excelente música de Oswaldo Montenegro, Estrelas, que desta feita ele canta ao lado da doce Clarissa.

O PARADOXO DO BOOTSTRAP

Uma série televisiva alemã chamada Dark, que está sendo veiculada na Netflix em sua terceira e última temporada, tem usado e abusado do que chamam “Paradoxo do Bootstrap”. Mas o que viria a ser isso? Paradoxo nada mais é do que uma figura de linguagem ou de pensamento, que também recebe os nomes de oximoro ou oxímoro. Ela consiste na expressão de uma ideia que seja contrastante, que traga em si mesma uma incoerência, uma espécie de armadilha intelectual. Mas o enunciado não é invalidado podendo, ao contrário, criar uma rara possibilidade de plurissignificar – ou seja, ir além do óbvio. No caso específico deste paradoxo da série, no momento em que ela cria um cenário fictício no qual é possível viajar no tempo, faz com que exista algo que nunca foi criado.

Calma! Sei que é muito provável que você esteja querendo desistir da leitura desta crônica, mal terminando o primeiro parágrafo. Mas vou tentar explicar usando um exemplo, que talvez ajude na compreensão disso tudo. Para mim ajudou, quando ouvi essa narrativa. Vamos imaginar que uma pessoa do nosso tempo, alguém vivendo agora em 2021, consiga fazer uma viagem para o passado. E ela leva consigo papéis com desenhos minuciosos do que seja um protótipo de lâmpada elétrica incandescente, tudo detalhado, com sugestões para a sua construção. Não por sorte, mas com tudo muito bem planejado, volta para 1879 e vai ao encontro de Thomas Edison, a quem entrega o projeto de presente. Esse percebe que tal invento é muito importante e o torna público. Assim, se estabelece o paradoxo. Porque a pessoa que viajou no tempo não inventou a lâmpada, tendo apenas usado algo que chegou até o presente como uma das tantas invenções desse norte-americano. Mas ele também não teria inventado, uma vez que recebeu o projeto pronto, vindo do futuro. Então, a lâmpada foi criada, mas ninguém de fato a criou.

É muito difícil solucionar logicamente essa questão, porque ela desafia nosso entendimento natural daquilo que seja o tempo. Tal situação, se acontecesse, tiraria a sua linearidade. O que se entende como real é que um evento A pode gerar um B, que pode gerar um C e assim por diante. Mas se uma viagem para o passado se tornasse possível, o mesmo evento A geraria o B que poderia voltar a gerar o A, se repetindo de modo infinito. Seria um ciclo que nos iria causar uma enorme confusão mental, por não ter começo nem fim. Ou seja, algo que para nossa atual estrutura de compreensão da realidade tem tudo para ser insano.

Existe ainda a teoria de que o tempo é uma linha constante e permanente, sobre a qual todos nós “deslizamos”, que até hoje não foi refutada. Ela estabelece uma outra situação paradoxal. Isso porque agora, nesse exato instante, eu ainda estaria nascendo; e, nesse mesmo momento, eu já estou morto. Nessa concepção, ao mesmo tempo em que tenho começo e término, sou finitude e eternidade, uma vez que estaria sempre lá, me repetindo entre esses dois momentos extremos. A liberdade absoluta, numa prisão da qual jamais conseguiria sair.

Em uma de suas cartas, Albert Einstein, um dos maiores gênios da história da humanidade, escreveu que “a diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma persistente ilusão”. Para os incas, povo que vivia em território que ia desde a atual Colômbia até o norte do que são agora Argentina e Chile, apesar de ser sempre mais identificado com o Peru, não é o futuro que estaria na nossa frente, mas o passado. Isso porque apenas podemos ver o passado, enquanto o futuro, ainda não visto, estaria nas nossas costas. E a professora Joan Vaccaro, que dá aulas na Universidade Griffith, na Austrália, mantêm trabalho desafiando a noção de que o Universo evoluiria do passado rumo ao futuro. Há uma série de pesquisas que garantem que o futuro influencia o passado e que a sequência de causa e efeito não faz sentido no reino quântico.

Em inglês boot é bota e strap significa tira ou cadarço. Mas a palavra composta é uma expressão que busca significar algo como “ser puxado pelos cadarços do próprio calçado”. Ela foi usada pela primeira vez numa história publicada por Robert Anson Heinlein, em 1941, com o título By His Bootstraps. Ele era norte-americano e escrevia ficção científica. No total produziu 30 romances e 56 contos, que ainda hoje têm vendagem significativa. Dark, por sua vez, é a primeira produção seriada original alemã que a plataforma de streaming oferece a seus assinantes. Relata os segredos e as conexões existentes entre quatro famílias que residem numa cidade fictícia de nome Winden – traduzindo para o português, Guinchos. Ela tem drama, suspense e explora uma sinistra conspiração que envolve viagem no tempo. Seus criadores são o diretor e roteirista Baran bo Odar e a produtora e roteirista Jantie Friese. Para quem gosta do gênero, recomendo assistir.

04.05.2021

O bônus musical de hoje tem a maravilhosa Maria Bethânia cantando Oração ao Tempo, de Caetano Veloso. Essa apresentação foi em show no qual a cantora comemorava 40 anos de carreira. Gravação no CIE Musica Hall, na cidade de São Paulo.