É RARA A MESA ONDE NÃO FALTE ALGUÉM
O jornalista e compositor carioca Sérgio Bittencourt (1941-1979) era filho do extraordinário bandolinista Jacob do Bandolim, que morreu de infarto em 13 de agosto de 1969, aos 51 anos. Talentoso e sensível, Sérgio converteu sua dor e luto em poesia, com esta depois se tornando a letra de um dos melhores sambas de nossa história. “Naquela Mesa” é muito mais do que uma homenagem: se tornou a materialização da saudade, a expressão absoluta do que faz o respeito, a reverência e o amor.
A mesa da canção existia de verdade. Era um espaço real que marcava o convívio diário da família e, frequentemente, dos amigos. E que, depois da morte do dono da casa, ficou mais vazio, menos referência. Ao seu redor já não se tocava tanta música quanto antes, se jogava menos conversa fora e se comentava com menor assiduidade os assuntos do dia. Entretanto, sua presença se tornou símbolo de um tempo que deixou marcas positivas e recordações inesquecíveis.
Como não se comover com a exaltação sensível desta letra? Um dos seus trechos mais marcantes relata: Eu não sabia que doía tanto/ Uma mesa num canto, uma casa e um jardim/ Se eu soubesse o quanto dói a vida/ Essa dor tão doída não doía assim/ Agora resta uma mesa na sala/ E hoje ninguém mais fala do seu bandolim/ Naquela mesa ‘tá faltando ele/ E a saudade dele ‘tá doendo em mim. Assim, simples e direta, intensa e certeira. A voz de Nelson Gonçalves eternizou esses sentimentos com notável precisão interpretativa.
A gravação original deste samba-canção é de 1972, por Elizeth Cardoso, que a registrou em dueto com o próprio Sérgio Bittencourt. Mas a versão que viria a se tornar um marco, com sucesso nacional e identificação imediata com o grande público é a que foi citada antes. Esta teve um caráter definitivo. Mas a música ainda ganhou uma versão instrumental do maestro francês Paul Mauriat, além de dezenas de regravações ao longo de décadas.
Embora tenha sido escrita para Jacob do Bandolim, ela rapidamente conseguiu ultrapassar essa “dimensão biográfica”. Como expressa um sentimento comum e uma perda relativamente frequente, ficou universal. Agora, como curiosidade, convém destacar o que muitos ouvintes sequer percebem: em nenhum momento a letra menciona a palavra “pai”. Foi isso que permitiu transmitir de maneira tão intensa a percepção do vazio deixado por essa perda. Ela não precisa ser identificada, bastando ser sentida.
Historicamente, até meados dos anos 1960, a fronteira entre samba, samba-canção e bolero era bastante fluida. Desse modo, intérpretes como Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, Miltinho e Ângela Maria gravaram canções que transitavam facilmente entre esses três universos. “Naquela Mesa“, composta em 1969 e lançada em 1972, herda justamente essa tradição. Do ponto de vista melódico, a canção também se destaca. A linha vocal acompanha o caráter narrativo da letra: começa contida, quase como uma conversa, e vai ganhando amplitude até atingir o ponto culminante em versos comoventes.
Raros entre nós não têm um lugar vago em suas mesas. Décadas depois eu ainda sinto falta do meu pai. Mesmo que as mesas da minha infância e da minha adolescência tenham se perdido no tempo e nas mudanças. Na que possuo hoje, na qual ele jamais sentou, me faria muito feliz vê-lo dividir uma refeição e alguns conselhos. No próximo domingo, Dia dos Pais, vou dedicar algum tempo para ouvir com atenção a obra-prima de Sérgio Bittencourt.
07.08.2026

O bônus de hoje é a música Naquela Mesa, de Sérgio Bittencourt, com violão e voz de Marina Aquino.