A vida anda competitiva. E muito difícil para grande parte das pessoas. Hoje mesmo eu encontrei, em um cruzamento aqui em Porto Alegre, o Homem-Aranha vendendo mandolates e paçoquinhas. O seu olhar triste e o uniforme puído confirmam a afirmação que fiz agora, na abertura. Ele usava aquele recurso de prender nos retrovisores dos carros os pacotes e voltar depois, na esperança de que alguma janela se abra e alguém ao menos compre um. Enquanto via a cena, de longe, ele não teve sucesso algum na empreitada.

O aracnídeo enfrentou várias outras mudanças, nos últimos anos. Depois de sair dos gibis para as telonas, já teve três atores diferentes vivendo o papel. Particularmente, eu prefiro o primeiro deles. Tobey Maguire foi o protagonista nos três filmes que abriram a série, entre os anos de 2002 e 2007. Ele me pareceu correto na interpretação de alguém que ingressa na vida adulta, cheio de traumas e dúvidas. Um jovem que não foi criado pelos pais e que, de modo indireto, ainda causou a morte de seu tio Ben. Isso acaba sendo crucial, terminando de moldar a personalidade tímida de um Peter Parker perplexo diante da realidade que nem ele nem ninguém consegue controlar plenamente.

Nos dois filmes seguintes, entre 2012 e 2014, quem assumiu o seu lugar foi Andrew Garfield, que manteve quase o mesmo nível. Mas, a partir de 2017, com Tom Holland, a coisa não foi mais a mesma. O personagem se tornou mais adolescente, com aquele tom que todos nós tivemos um dia, meio confuso. Até sua relação amorosa ficou diferente. Na trilogia original, Mary Jane Watson foi interpretada por Kirsten Dunst – todos os três filmes dirigidos por Sam Raimi – e tornou-se uma versão muito reconhecida e aceita. Nos filmes mais recentes ela é chamada apenas de MJ, como uma referência ao nome da primeira, mas sendo as iniciais de Michelle Jones. E a atriz é Zendaya, distante demais até mesmo da personagem Gwen Stacy, vivida por Emma Stone nos filmes intermediários. Essa que cito agora foi inspirada nos quadrinhos, uma vez que neles esse era o nome do primeiro grande amor de Peter, antes de Mary Jane assumir o posto definitivamente.

Focando apenas nas três jovens e suas personalidades, Kirsten Dunst representou o romance clássico e idealizado de Peter Parker; Emma Stone trouxe uma Gwen Stacy mais independente e cientificamente brilhante; enquanto Zendaya reinventou a “MJ” para uma geração mais recente, com humor sarcástico, inteligência e protagonismo próprio. Se o foco retorna para o protagonista, Tobey Maguire construiu um Peter Parker introvertido, gentil e algumas vezes inseguro. Ele transmite enorme humanidade, vulnerabilidade e senso de dever. A interpretação faz o espectador acreditar que aquele jovem realmente carregaria o peso do mundo nas costas. Andrew Garfield é o rebelde brilhante, muito mais autoconfiante, emocionalmente intenso e socialmente menos retraído. É impulsivo e tem forte senso de humor. Mas isso reduziu um pouco aquele contraste que deveria existir entre o rapaz comum e o super-herói. E Tom Holland é um típico aprendiz, que vem tentando se tornar um herói, mas ainda comete muitos erros. Isso o torna dependente de outros, como na ligação com Tony Stark, o Homem de Ferro. Ou seja, houve um exagero no esforço de rejuvenescer o personagem, que se tornou quase um coadjuvante nas suas próprias histórias.

Nossas sinaleiras estão repletas de coadjuvantes, nos últimos anos. Eles rivalizam em número com aqueles desassistidos que dormem embaixo de marquises. O que os difere é que, naquele momento específico, estão buscando trocar um produto singelo por atenção. E por algumas moedas que ajudem na sobrevivência. São trabalhadores. Eles não têm identidade secreta, porque nem mesmo nome próprio a gente consegue imaginar que tenham. Então, por que não usar aquele uniforme? Vai que a sorte os coloca no caminho de alguém que goste do herói e dos seus filmes.

27.07.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial. 

O bônus de hoje é Signal Fire, música do Snow Patrol presente na trilha sonora oficial de Homem-Aranha 3 (2007). Se trata de uma balada de rock alternativo marcante, com um tom de melancolia e esperança que vai crescendo, falando sobre ser um sinal na escuridão.


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