Durante décadas, os brasileiros se acostumaram a ouvir e a repetir que nosso país estava sempre atrasado. A mesma lenga-lenga de que faltava tecnologia, faltava eficiência, faltava competitividade. Quando alguma inovação surgia em outros países, passávamos anos tentando copiá-la ou esperando que aqueles que a detinham se dignassem a se interessar também por nosso mercado – o que foi acontecendo cada vez em menor tempo, porque o capitalismo tem ânsia de conquistar mercados. Por isso é curioso observar o que acontece agora. Pela primeira vez em muito tempo, possuímos uma ferramenta financeira criada aqui, adotada em massa pela população e admirada por diversos países que, inclusive, estudam copiar.

O PIX entrou silenciosamente na vida de todos os brasileiros. Não chegou acompanhado de discursos patrióticos nem de campanhas ufanistas. Ele foi o resultado prático de um longo trabalho desenvolvido pelo Banco Central. E que funcionou, ao ser posto em prática. Sua implantação tornou mais simples pagar contas, transferir dinheiro, comprar um produto ou receber por um serviço que tenha sido prestado. Em poucos anos, passou a fazer parte do cotidiano de ricos e pobres, jovens e idosos, comerciantes e consumidores. Nas esquinas é aceito até por quem vende alguma fruta, assim como por quem apresenta sua arte em sinaleiras.

Talvez por isso muitos não percebam a sua importância. Infelizmente nós costumamos notar o valor das coisas apenas quando elas correm o risco de desaparecer. E agora, uma potência estrangeira aponta o dedo para o sistema brasileiro e sugere que ele cria obstáculos para suas empresas. Não é preciso ser um especialista em finanças para entender a lógica. Se o PIX desaparecesse amanhã, parte dos pagamentos voltaria a passar por estruturas controladas por gigantes como Visa, Mastercard, American Express, PayPal, Stripe e outras organizações que vivem da intermediação financeira. Aquelas que tiveram queda nos seus rendimentos em nosso território, a partir do surgimento do sistema brasileiro.

Importante salientar que não há crime nisso que elas faziam antes e continuam fazendo agora, com muito menor retorno. Afinal, na lógica capitalista, na qual todos nós vivemos, elas existem para obter lucro para seus acionistas. Estranho seria se não o buscassem. Entretanto existe uma pergunta incômoda: por que alguns brasileiros parecem mais preocupados em proteger os interesses dessas corporações do que em preservar uma ferramenta que reduziu custos e deixou mais recursos nos bolsos de milhões de compatriotas seus?

Naturalmente, as empresas defendem os seus negócios e os países defendem os seus interesses. Sempre foi assim e dificilmente deixará de ser. O que chama a atenção é ver brasileiros dispostos a aplaudir pressões externas que podem tornar a vida mais cara para seus próprios compatriotas e enfraquecer uma ferramenta que reduziu custos para milhões de pessoas.

Não se trata de gostar ou não gostar do governo atual. Governos passam e o país permanece. O PIX não pertence a um presidente, a um partido ou a uma corrente ideológica. Ele pertence ao aposentado, ao pequeno empreendedor, ao trabalhador, aos estudantes que dividem despesas e ao consumidor que evita taxas desnecessárias nas suas compras.

A discussão, portanto, é muito maior do que aparenta. Quando um país estrangeiro tenta influenciar decisões internas de outro para proteger interesses econômicos próprios, estamos diante de algo que vai além da tecnologia ou das finanças. Estamos falando de ataque à soberania. Em uma ingerência inaceitável. Está correndo um prazo que foi unilateralmente dado pelos EUA para que o Brasil “negocie”, como forma de evitar sobretaxas aos produtos que se exporta para eles – termina no início de julho. Entretanto, do ponto de vista deles, esse negociar significa nós fazermos concessões.

Uma delas, talvez a que mais lhes interesse no momento, ao lado do acesso exclusivo ou no mínimo preferencial às terras raras que temos, é acabar com o PIX. Ou, o que seria mais fácil, taxar suas operações, dando fôlego à concorrência de empresas estadunidenses. Aliás, ambas as coisas já estão inclusive prometidas por um candidato a presidente do Brasil. Se ele ganhar, essas coisas serão favas contadas. O alerta está dado.

17.06.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial. 

O bônus de hoje é Querelas do Brasil, música composta por Maurício Tapajós e Aldir Blanc. Foi lançada em 1978 e ganhou enorme projeção nacional na interpretação de Elis Regina, no álbum Transversal do Tempo. Mas, a gravação oferecida hoje está na voz de Luísa Maita.


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