PARABÉNS, CATÓLICOS!

Primeiro ponto: O Círio de Nazaré, que ocorre em Belém, a capital paraense, é uma das mais importantes manifestações da religiosidade católica que acontecem em nosso país. Em devoção à Nossa Senhora de Nazaré, a celebração se realiza desde 1793, sempre no segundo domingo do mês de outubro. No início ela era vespertina ou noturna, quando faziam uso de velas. Mas, desde 1854, passou a ser realizada pela manhã. Essa tradição começou devido à influência dos portugueses, que iniciaram culto à santa ainda em 1653, na cidade de Vigia, em Portugal, local onde existe registro da ocorrência de círio em 1697. Atualmente, sua ocorrência em Belém atrai mais de dois milhões de pessoas em suas romarias e procissões, algo sem similar em todo o Brasil. Também existem em Macapá, Rio Branco e Manaus, com menor magnitude.

Para quem não sabe – eu mesmo não sabia – o termo círio é dado para uma vela grossa de cera. Por alusão, terminou sendo também usado em festas ou procissões de romaria ou romagem, que significa caminho percorrido, em homenagem a santos. Isso porque nesses eventos havia ou ainda há o hábito de levar a frente uma dessas velas.

Segundo ponto: Foi no ano de 1717 que três pescadores encontraram, nas águas do Rio Paraíba do Sul, próximo de Guaratinguetá (SP), uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Eles haviam lançado as redes sem sucesso, por diversas vezes. Após a retirada da imagem das águas – ela teria vindo em dois momentos: primeiro apenas o corpo e depois a cabeça, que se encaixou perfeitamente –, passaram também a apanhar peixes de modo abundante, mesmo não sendo a época mais apropriada para a pesca. A peça tem 36 centímetros de altura e pesa 2,5kg. O nome Aparecida foi acrescentado ao original justamente pela forma como ela surgiu. Tornou-se assim Nossa Senhora da Imaculada Conceição Aparecida. Confeccionada em terracota, ela tem cor escura e está coberta pelo característico manto azul.

A devoção pela santa só cresceu, nos anos seguintes, sendo a ela desde então atribuídos vários milagres. O ato que a tornou Padroeira do Brasil, no entanto, foi assinado em 16 de julho de 1930, pelo Papa Pio XI. O que foi oficializado em missa solene, em 31 de maio de 1931. Apenas em 1980 foi assinada a lei federal decretando ser 12 de outubro um feriado nacional, em sua homenagem. O mesmo documento a reconhece de forma oficial como a Protetora do Brasil.

A primeira capela feita para a santa foi concluída em 1745. Em abril de 1822 o imperador Dom Pedro I a visitou com grande comitiva. As obras da Basílica Velha começaram em 1834, com ela sendo consagrada em 08 de dezembro de 1888. Com o crescimento constante dos romeiros, foi necessário ser projetado aquele que hoje é o mais majestoso templo do catolicismo no Brasil. Suas dimensões são 168m de largura por 173m de comprimento. As naves atingem 40m de altura e a cúpula central alcança 70m de pé direito. Uma celebração eucarística solene, conduzida pelo Papa João Paulo II, a consagrou em 04 de julho de 1980. O Santuário de Nossa Senhora Aparecida é a maior basílica de todo o mundo dedicada à Maria Mãe de Deus.

Terceiro ponto: O Círio de Nazaré de 09 de outubro de 2022 teve uma presença não anunciada, que deixou muito desconfortável boa parte dos fiéis. Jair Bolsonaro, candidato à reeleição como presidente, fez uso da Corveta Garnier Sampaio, embarcação da Marinha que levava a imagem peregrina, sem que tivesse permissão para isso. O “carteiraço” eleitoreiro constrangeu de tal forma a Arquidiocese de Belém que ela emitiu nota informando que não o havia convidado. O Arcebispo Metropolitano de Belém, Dom Alberto Taveira Corrêa, foi enfático ao afirmar que “não desejamos e nem permitimos qualquer utilização de caráter político partidário nas atividades do Círio”. E o prefeito da cidade afirmou que isso “ameaçou a paz social e a tradição de mais de 200 anos”. Detalhe: Bolsonaro pretendia fazer , diretamente, a entrega da imagem da santa ao final do percurso, no lugar do bispo, o que não foi aceito. Ele também postou nas suas redes sociais que estava no “Sírio”, assim, com a letra “esse” – mais tarde a gafe foi corrigida. Contaminada pela campanha eleitoral, a procissão fluvial era uma das 13 romarias do Círio de Nazaré.

Quarto ponto: Apenas três dias depois, uma outra afronta – e desta vez muito pior – foi cometida em Aparecida, São Paulo. Bolsonaristas, vários deles com canecas de chopp e cerveja nas mãos, ocuparam a parte externa do santuário, provocando brigas e gritando “mito”. As cenas estão registradas em inúmeros vídeos. Em um deles um homem mostra que a caneca na qual consome bebida alcoólica há uma imagem de Jair Bolsonaro, para a qual ele aponta gritando “Deus está aqui, olha”. Além disso, fiéis que por acaso estivessem usando qualquer peça de roupa na cor vermelha passaram a ser hostilizados abertamente. Um homem chegou a ser perseguido e agredido. O mesmo ocorreu com jornalistas: o cinegrafista da TV Vanguarda e até mesmo a equipe de profissionais da TV Aparecida, que é da própria igreja, foram impedidos de trabalhar, com empurrões e uma série de palavrões proferidos.

No exato instante em que Jair Bolsonaro adentrou no templo (15h) seus seguidores, dentro e fora do ambiente, passaram a gritar “mito, mito”, interrompendo a Consagração à Nossa Senhora Aparecida, momento de fé e de oração. O padre Eduardo Ribeiro, que conduzia a cerimônia, teve que pedir silêncio e ficar aguardando para dar início à missa. Durante a homilia, o arcebispo Dom Orlando Brandes ressaltou que o Brasil está precisando “vencer muitos dragões”, fazendo referência à fome, miséria e desemprego. Foi vaiado pela horda de verde e amarelo, que entende serem esses assuntos e preocupações que revelam ser qualquer pessoa um esquerdista. Me deixem repetir: pela primeira vez na história, dentro de uma igreja, um arcebispo foi vaiado, justo por um grupo que vem se apropriando do cristianismo, fazendo uma releitura da fé com os mais sórdidos interesses partidários. Tão ou mais inacreditável do que isso é o fato de muitos católicos, que ao longo de suas vidas se mostraram cristãos sinceros e verdadeiros, estão sendo cooptados. A lavagem cerebral a que estão sendo submetidos os está conduzindo para a negação de tudo aquilo no qual eles acreditaram a sua vida toda.

Quinto ponto: Como a memória das pessoas nem sempre é muito boa, quero lembrar alguns dos tantos incidentes com desrespeito e também perseguição religiosa, protagonizados por pentecostais contra católicos. A mais antiga entre as que lembro tem 27 anos. Foi de autoria do bispo Sérgio Von Helder – um daqueles pastores que adoram se apropriar desse termo da hierarquia católica –, em 12 de outubro de 1995. No programa “Palavra da Vida”, da TV Record, ele chutou e quebrou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Hoje ele trabalha fortemente na campanha de Bolsonaro, postando sistemáticas críticas ao PT em suas redes sociais.

Em 2014, evangélicos invadiram a igreja matriz da cidade de Sacramento, em Minas Gerais, e quebraram oito imagens de santos. Em maio de 2020 aconteceu o mesmo, em Nova Alvorada do Sul, que fica distante 118 km de Campo Grande (MS). Em maio de 2021 foi a vez de igreja de Osasco, em São Paulo, com sete imagens quebradas. Dia 11 de outubro deste ano agora (2022), na véspera do feriado de Nossa Senhora Aparecida, portanto, o fato se repetiu. Foi na Paróquia São Mateus, em São Mateus do Sul, a 150 km de Curitiba. Lá foram 28 imagens sacras destruídas. Quero registrar que nem me dei ao trabalho de fazer uma pesquisa mais apurada, que muito provavelmente me levaria a encontrar inúmeros casos semelhantes a mais.

Eu também posso incluir aqui uma série de atentados perpetrados contra outras correntes religiosas, como os umbandistas. Há relatos de várias invasões, na Bahia, no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro. Em todas, praticamente, com destruição de altares e agressões físicas a adeptos. Na Baixada Fluminense existe o “Bonde de Jesus”, que se organiza e se arma para fazer isso. Em maio de 2022 um evangélico armado invadiu terreiro de candomblé em Planaltina (DF) e o depredou. Esse parêntesis, incluindo religiões de matriz africana, é apenas para reforçar o perigo que se está correndo com isso tudo. Para reforçar que a cegueira precisa ser combatida com urgência e que a intolerância está se agravando. Ao longo de 2021 foram feitas 571 denúncias de violação à liberdade de crença no Brasil, mais de 90% dos casos se relacionando com pentecostais, que trabalham firmemente para se tornarem hegemônicos no país, como autores desses fatos.

Voltando ao catolicismo, dias atrás vazou a informação de que membros da bancada evangélica no Congresso Nacional estariam se articulando no sentido de propor a revogação da Lei Federal 6.802, aquela que declarou feriado nacional o dia 12 de outubro e confirmou a santa como padroeira e protetora do Brasil. A alegação é de que ela não poderia ser assim tratada, por não “representar a totalidade do pensamento cristão”. A ideia seria substituir o texto legal por outro que a considerasse como a “Protetora dos Católicos” apenas. Tão logo isso chegou ao conhecimento público, também devido ao fato de pessoas começarem a atribuir essa proposta ao próprio Jair Bolsonaro – o que não parece ser mesmo de fato verdade –, sua campanha tratou de desmentir a participação dele. Essa ação direta pode ser mesmo fake news, mas o desejo de que isso venha a ser concretizado não é.

Ponto final: É muito estranho ver a mão que dá o tapa jurar que está estendida, propondo conciliação. Quem vê Bolsonaro na televisão, agora durante o horário de propaganda eleitoral gratuita, dizer que votando nele se terá um Brasil de paz, desconhece qual o grupo que está “propondo guerra”. A suavidade do sorriso deste homem, nas gravações, é tão falsa quanto uma nota de três reais. É tão falsa como é falso o cristianismo que defende quem também propõe armas e não se sensibiliza com a morte de ninguém.

Dou parabéns a todos os católicos pela grandiosidade do Círio de Nazaré e das Celebrações de Aparecida. Principalmente os saúdo pela força da sua fé. E deixo aqui um pedido: se vocês não conseguem perceber que votando em Bolsonaro estão colocando em risco o futuro do Brasil, ao menos se deem conta de que estão arriscando o futuro do catolicismo. Os pentecostais se tornarão algo como os xiitas em boa parte do mundo islâmico. Pensem em quem o Papa Francisco votaria, se fosse cidadão brasileiro e tivesse, portanto, essa obrigação e esse direito. E se não acreditam que só existe uma saída nesse segundo turno, para quem defende não apenas a fé como também a vida, a liberdade, o respeito humano, a democracia, o meio ambiente, a fraternidade cristã, a justiça e o desenvolvimento da Nação, façam então o favor de votar em branco. Para que pelo menos não se tornem coniventes com o desastre que será inevitável com uma possível reeleição.

19.10.2022

O bônus de hoje é Romaria, música de Renato Teixeira, na voz de Maria Rita.

Esse blog recomenda muito que seus leitores conheçam o site da Rede Estação Democracia. Acesso através do link abaixo.

https://red.org.br/

CLUBES DE DITADORES

Não existe documentação que comprove isso, mas consta que Adolf Hitler era torcedor do Schalke 04, time alemão da cidade de Gelsenkirchen, que fica no Vale do Ruhr. Talvez porque em propagandas do Terceiro Reich a imagem daquele time foi usada muitas vezes. O que também pode ter sido ocasionado pelo simples fato de o clube ter conquistado seis títulos nacionais durante a vigência do governo nazista – difícil saber o que foi causa e o que foi consequência. Entretanto, outro fator certamente preponderante é que ele fora fundado por um grupo de mineiros germânicos, legítimos arianos, ao contrário do Borussia Dortmund, por exemplo, que tinha raízes judaicas. O italiano Benito Mussolini, por sua vez, era fanático pelo Bologna, que por uma incrível “coincidência” também levantou seis taças nacionais durante o domínio fascista. Mas depois ele adotou a Lazio como sua segunda equipe, passando inclusive a frequentar o estádio em Roma.

Um terceiro governante extremista, o generalíssimo Francisco Franco, que ficou no poder por 40 anos na Espanha, levava o Real Madrid como seu time do coração, mesmo muita gente duvidando que ele tivesse um. E falo do coração, lógico. Ele teve envolvimento direto inclusive na contratação do craque argentino Alfredo di Stéfano, assim como na construção do estádio Santiago Bernabéu. Foi nessa época que o clube passou a empilhar taças, com os árbitros tendo uma dificuldade estranha em apitar suas partidas com a devida e necessária isenção. O Atlético de Madrid, por sua vez, sempre ocupou o lado oposto no espectro político, sendo os seus torcedores debochadamente chamados de “colchoneros” pelos madridistas, devido ao fato de sua camisa tradicional ter listras na vertical em vermelho e branco. É que o governo distribuía para a população pobre da capital espanhola, naquela época, colchões que tinham estampa semelhante, também listrada e com as mesmas cores. Vizinho de Franco e igualmente ditador por décadas, o português Antônio de Oliveira Salazar era torcedor do Benfica. Mesmo sendo muito mais discreto e aparentando não ter ligações mais profundas com o futebol, ele contribuiu bastante para que o clube alcançasse destaque na década de 1960.

O general Augusto Pinochet, que liderou golpe militar no Chile e chegou ao poder com o assassinato do presidente eleito Salvador Allende, era torcedor do pequeno Santiago Wanderers. Mas, na tentativa de dar algum toque popular ao seu governo, “adotou” estrategicamente o Colo-Colo como uma espécie de time oficial. Houve inclusive o repasse sistemático de recursos e outros tantos incentivos ao clube. O que rendeu ao ditador o título de presidente honorário, em 1984. Tal honraria foi cancelada em 2015, quando os sócios decidiram destituí-lo. E no Brasil, seguindo uma cartilha que recomendava “pão e circo”, os militares passaram a indicar presidente e outros cargos diretivos da antiga Confederação Brasileira de Desportos, a CBD. Não houve um clube único sendo privilegiado aqui porque existia um rodízio entre os ocupantes da cadeira presidencial. Ou seja, ao invés de um ditador se perpetuando no cargo, tivemos vários, o que aplacava as ambições pessoais e ao mesmo tempo dava uma falsa – mesmo que ridícula – aparência de normalidade.

O slogan “Onde a Arena vai mal, time no Nacional” era repetido por boa parte da imprensa e também pela torcida mais pensante, mesmo que isso tivesse que ser feito às vezes de forma discreta. A razão é que quanto mais caía a popularidade da ditadura, mais aumentava o número de participantes do campeonato que era disputado, fora os estaduais. Em 1979 o recorde foi batido, com 94 equipes. Mesmo assim, o formulismo permitiu que o campeão fosse apontado após ter disputado apenas 23 jogos. E aconteceram situações absurdas, como Santos, Corinthians e São Paulo não aceitando fazer parte do espetáculo circense armado – foram substituídos por Francana, Comercial e Quinze de Jaú – e com o Atlético Mineiro desistindo em meio à competição. Então, restaram postulantes clubes “gigantes”, como Colatina, Dom Bosco, Fast, Guará, Itabuna, Leônico, Potiguar e Rio Negro. Tinha até um clube com o nome CEOV, de Várzea Grande. O Internacional, de Porto Alegre, terminou invicto depois de superar algumas dessas potências, como Rio Branco, Desportiva, Caldense e Goytacaz. O Palmeiras, com sete pontos ganhos, terminou em quarto. O Novo Hamburgo somou oito e ficou na posição 74. Até hoje temos matemáticos fazendo cálculos para tentar entender como foi aquilo.

Voltando ao nosso tema central, o brasileiro que sonha ser ditador é um caso atípico. Morava no Rio de Janeiro antes deste período em Brasília, afirma torcer para o Palmeiras, mas veste qualquer camiseta que lhe alcançam. Já foram mais de 15 e o número com certeza irá continuar crescendo. Faz parte de um projeto de marketing para parecer um homem simples, do povo. Assim como usar chinelos e um agasalho bem pobrinho em algumas aparições públicas; ou comer cachorro quente na rua, se babando. E quanto às eleições de outubro, elas vão parecer muito um campeonato de futebol. Será por pontos corridos – os votos –, talvez tenha dois turnos e a imensa maioria dos brasileiros estará torcendo ardorosamente para que não ocorra um bicampeonato. E nem uma decisão final no tapetão.

20.03.2022

Seleção Italiana de 1934 e a saudação fascista, com Mussolini no poder

O bônus de hoje é duplo outra vez. Primeiro temos uma apresentação ao vivo do grupo mineiro Skank com sua conhecida Uma Partida de Futebol. Depois, num ritmo bem diverso da alegria da primeira música, Tributo a Mané Garrincha, de Moacir Franco, em áudio. O maior ídolo da história do Botafogo e segundo maior do futebol brasileiro também é homenageado com a sugestão de leitura feita hoje. Estrela Solitária é um livro que não se pode deixar de ler.

Áudio de Tributo a Mané Garrincha, de Moacir Franco

DICA DE LEITURA

ESTRELA SOLITÁRIA: um brasileiro chamado Garrincha

(Ruy Castro – 536 páginas)

Garrincha fez o mundo rir. Agora ele fará você chorar. Estrela solitária – Mm brasileiro chamado Garrincha conta a dramática história de um ídolo amado por uma mulher e por um povo inteiro, mas que acabou destruído por um inimigo implacável. Esta é mais que uma espantosa biografia. É um livro cheio de revelações até para os que julgavam conhecer Garrincha.

Para os brasileiros de hoje, que só conhecem o seu mito, Estrela Solitária será lido como um romance de paixão e desventura, tendo como cenário o Rio e o Brasil dos anos 50 e 60. Só que os personagens e os fatos são reais. Para descrever essa trajetória, Ruy Castro fez mais de 500 entrevistas com 170 pessoas. Garrincha renasce como um herói tragicamente humano e a obra ganhou o Prêmio Jabuti 1996 de Melhor Ensaio e Biografia. Vale muito a pena ler.

Clicando sobre a imagem da capa do livro, que está acima, você será direcionado para a possibilidade de aquisição. Se a compra for feita usando esse link, o blog será comissionado.