ESQUERDA, VOLVER

Em entrevista concedida em março deste ano, o presidente Joe Biden admitiu que chamava a América Latina de “quintal dos Estados Unidos”, durante seu tempo na universidade. Agora em junho, em função da Cúpula das Américas, acabou fazendo uma pequena correção e tratou de assegurar que somos o “terreno de entrada”. Ou seja, mudamos dos fundos para a frente, ficando agora como um local de passagem, para ser pisoteado. Isso que para todos nós foi mais interessante a sua eleição do que ser reconduzido o fascista do Trump. Entretanto, coisas como essa apenas demonstram que a única diferença entre democratas e republicanos, para seus “irmãos do sul”, é que os primeiros usam vaselina.

Mas, algo está mudando nos últimos tempos. E esse jardim do Biden e dos seus arrogantes conterrâneos está ficando repleto de rosas, todas vermelhas. Verdade que pelo menos uma delas já está nele há muito tempo, sendo um doloroso espinho a lembrar a surra que o gigante da bandeira estrelada levou da anãzinha corajosa. Falo de Cuba. Também a rosa Nicarágua incomoda muito e é relativamente mais antiga, assim como a Venezuela. Essa terceira os jardineiros passaram a respeitar mais, subitamente, depois de iniciada a Guerra da Ucrânia. Ela sumiu do noticiário que colocava lupa diária nos problemas locais, uma vez que o petróleo que oferta no mercado ganhou importância lá na parte alta do mapa. Esqueceram até de chamar Juan Guaidó de presidente, cargo para o qual ele jamais foi eleito.

Eleitos foram outros, avermelhando o jardim. Em 2019, quem abriu essa porta foi Alberto Fernández, ao vencer Maurício Macri, que buscava sua reeleição, com a esquerda então ocupando a Casa Rosada. Conseguiu isso ainda no primeiro turno das eleições na Argentina. Seguiu-se a tendência com o Peru: o professor da área rural, Pedro Castillo, venceu em junho Keiko Fujimori, filha do ex-presidente direitista Alberto Fujimori. Em dezembro ocorreu resultado semelhante no Chile, onde o deputado e ex-líder estudantil Gabriel Boric venceu o advogado José Antônio Kast. E também no final de 2021, Xiomara Castro chegou ao poder em Honduras.

Não se pode deixar de citar um caso que teve simbologia especial. Na Bolívia, um ano depois do esquerdista Evo Morales ter sofrido um golpe, o povo conseguiu pressionar por novas eleições, voltando às urnas no final de 2020 e devolvendo o controle do país para a esquerda. O eleito foi Luis Arce, do Movimento ao Socialismo, ainda no primeiro turno e com enorme repercussão regional. Naquele país, ex-ministros golpistas, como Luis Fernando López e Arturo Murillo, com ordens de prisão emitidas pelo Ministério Público após o novo pleito, fugiram para os EUA. O Brasil teria auxiliado, sendo rota de fuga para várias pessoas envolvidas na derrubada do presidente anterior, que fora eleito pelo voto popular.

A mais recente aquisição para o grupo foi a Colômbia, que pela primeira vez em sua história está colocando no poder um governo de esquerda. Foi no último domingo a vitória de Gustavo Petro sobre o candidato da extrema-direita Rodolfo Hernández, em um segundo turno bastante acirrado. Esse ineditismo, alcançado em uma sociedade extremamente conservadora e que sofre forte e direta influência dos EUA há décadas, comprova o fracasso da política neoliberal, que vinha conseguindo apenas aprofundar as desigualdades sociais naquele país e em todo o continente. Deste modo, são agora nove os países que se alinham numa tentativa de oferecer governos democráticos, voltados aos reais interesses da maioria da população. Todos eles com propostas que, reconhecidas suas peculiaridades locais, valorizam mais os programas sociais de combate à desigualdade, com geração de emprego e renda; o desenvolvimento sustentável; questões humanitárias; sua cultura; habitação e transporte; educação e saúde pública.

O “camisa dez” desse time deverá ser o Brasil, considerando que Lula está bastante à frente nas pesquisas eleitorais. Caso isso se confirme, outubro marcará o retorno do país ao período de real prosperidade vivido recentemente. E com a virada do ano haverá uma virada na vida da população. Ou uma “revirada”. Deve diminuir outra vez o número de famintos, que tem crescido; voltar a esperança do filho do porteiro do prédio chegar à faculdade; da classe C adquirir passagens aéreas; da gasolina deixar de ter seu preço alinhado ao dólar. As universidades públicas terão sua autonomia respeitada; as ilegalidades amazônicas serão enfrentadas; não haverá risco dos atendimentos via SUS passarem a ser cobrados; cessará a sanha privatizante, a tempo da Petrobrás e do Banco do Brasil serem salvos. A era da pós-verdade chegará ao fim, com combate efetivo ao disparo de fake news, sendo a justiça apoiada na punição dos responsáveis. A pesquisa será outra vez incentivada; a ciência terá respeito e, com isso, a terra plana novamente se tornará esférica e nenhum vacinado vai se transformar em jacaré. A era da pós-verdade chegará ao fim, com combate efetivo ao disparo de fake news. Outubro pode inclusive devolver aos brasileiros o direito de usar camisetas verde-amarelas com fins meramente esportivos, para quem sabe comemorar uma outra vitória, na Copa do Mundo que ocorre em novembro, no Qatar. Por fim, nossa bandeira voltará a ser de todos. E o Brasil não estará acima de tudo, mas ao lado de cada um de nós.

22.06.2022

Gustavo Petro, eleito domingo presidente da Colômbia, ao lado de sua vice Francia Márquez:
mulher negra, advogada e ativista ambiental

O bônus de hoje é o clipe com a música Sem Medo de Ser Feliz. Essa gravação foi feita com base na versão original do jingle de Hilton Acioli. E foi feito para presentear Lula, em surpresa preparada por sua esposa Janja. Dele participam vários músicos e artistas brasileiros.

DICA DE LEITURA

A ELITE DO ATRASO: da escravidão a Bolsonaro, de Jessé Souza

(272 páginas – R$ 22,84 – edição revista e ampliada)

Quem é a elite do atraso? Como pensa e age essa parcela da população que controla grande parte da riqueza do Brasil? Onde está a verdadeira e monumental corrupção, tanto ilegal quanto “legalizada”, que esfola tanto a classe média quanto as classes populares?

A elite do atraso se tornou um clássico contemporâneo da sociologia brasileira, um livro fundamental de Jessé Souza, o sociólogo que ousou colocar na berlinda as obras que eram consideradas essenciais para se entender o Brasil.

Por meio de uma linguagem fluente, irônica e ousada, Jessé apresenta uma nova visão sobre as causas da desigualdade que marca nosso país e reescreve a história da nossa sociedade. Mas não a do patrimonialismo, nossa suposta herança de corrupção trazida pelos portugueses, tese utilizada tanto à esquerda quanto à direita para explicar o Brasil. Muito menos a do brasileiro cordial, ambíguo e sentimental.

Sob uma perspectiva inédita, ele revela fatos cruciais sobre a vida nacional, demonstrando como funcionam as estruturas ocultas que movem as engrenagens do poder e de que maneira a elite do dinheiro exerce sua força invisível e manipula a sociedade – com o respaldo das narrativas da mídia, do judiciário e de seu combate seletivo à corrupção.

Basta clicar sobre a imagem da capa do livro, que está logo acima, para adquirir o seu exemplar. Caso isso seja feito usando esse link, o blog será comissionado.

PÁSSAROS SAGRADOS

Desde os primórdios da humanidade, os pássaros desempenham um papel importante. Talvez a primeira das conexões tenha sido estabelecida pela simples inveja da sua capacidade de voar, da liberdade aparente, de ver tudo do alto como que pairando sobre as demais existências. Depois disso foram integrando lendas, fábulas e mitos nos mais diversos lugares de todo o mundo. Alguns aparecem estampados em bandeiras nacionais; outros são símbolos de povos e integram sua mitologia própria; havendo ainda os sagrados. Vejamos alguns deles.

No Chile temos o Alcanto, que é tão estranho e misterioso quanto o lugar que habita: o Deserto de Atacama. Ele também pode ser encontrado em outras partes, não apenas daquele país como em outros vizinhos seus aqui na América do Sul. Mas é lá onde mais se concentra e onde surgiram as histórias que o diferenciam de qualquer outro. Dizem que ele se alimenta de alguns minerais que existem em abundância nas proximidades, o que lhe daria a característica de brilhar à noite, em especial suas asas. O brilho e a cor dependeriam do alimento consumido: dourado, sendo ouro o “prato” principal; prateado, quando prata; ou avermelhado, na hipótese de cobre. Outro detalhe é que ele não teria sombra. E também ficaria mais tempo no solo do que voando, devido à dieta pesada. Seus ovos seriam também de metal.

Segundo o folclore, os garimpeiros tentavam seguir o pássaro, durante as noites, com a esperança de serem levados a algum veio ainda não conhecido ou a algum tesouro lendário. Mas o Alcanto percebia essa situação e então “apagava” suas luzes, deixando os seguidores na mais completa escuridão. Ou, ainda pior: se percebesse que era alguém mau caráter que estava tentando fazer isso, o guiava para algum penhasco e a consequente morte. Quem teria tido sucesso nessa empreitada foi um mineiro chamado Juan Godoy. Uma lenda local assegura que foi graças a ele e a um pássaro que foi desencadeada, em maio de 1832, a Corrida da Prata do Chile, que enriqueceu muita gente.

Na Europa há o Pássaro de Fogo, que povoa contos populares tanto russos quanto eslavos. Por lá ele é tido como mágico e desejado, mas tendo uma dupla reputação, podendo ser presságio de desgraça ou de bênção para quem consegue encontrar uma das suas penas. O nome viria de sua plumagem, que mistura as cores laranja e vermelha com um amarelo brilhante, dando ao conjunto uma aparência de chama. A pena essa, que é cobiçada, brilharia mesmo quando separada do corpo da ave, conseguindo emitir luz suficiente para iluminar uma grande sala. E, mesmo não sendo nem cruel nem agressivo, o Pássaro de Fogo leva consigo uma associação ao perigo.

Na mitologia, isso é associado ao herói que encontra a primeira dessas penas soltas e perdidas. Depois disso, mesmo satisfeito por tê-la encontrado, ele começa a associar sua presença com uma série de dissabores que passa a enfrentar. Mesmo assim, ao final de suas aventuras, casa com uma bela princesa e se torna o governante do lugar, a partir da morte do rei. Disso tudo se conclui que se trata de uma forma de estabelecer uma espécie de ritual de passagem. Os problemas que a pena não evitou seriam a forma de serem atingidas a sabedoria e a maturidade necessárias para tornar seu dono forte e capaz. Inclusive para poder governar um povo.

Entre os árabes existe a Anga, uma ave fêmea muito grande e misteriosa. Dizem que ela voa grandes distâncias e retorna ao seu lugar de origem apenas uma única vez, em muitas eras, sendo vista no momento do sol poente. Seu nome para muitos é Mughrib, que significa estranho ou estrangeiro. No livro As Maravilhas de Criação, Zakariva al-Qazwini a descreve como um ser lindíssimo, que ostenta quatro asas e um longo pescoço branco. Na mitologia local ela tem pequenas semelhanças com toda e qualquer criatura viva, sendo uma espécie de síntese da existência. Seriam também sábios disfarçados para ganhar experiência e sabedoria, vivendo cerca de 1.700 anos nessa situação. As Angas acasalariam com 500 anos, produzindo um único ovo. Após eclodir, o filhote permanece no ninho por 125 anos antes de partir. Imenso, sua dieta consistiria em quantidades significativas de peixes e até mesmo elefantes pequenos. Talvez por isso vivessem tanto: para ter tempo de digerir essas suas últimas presas.

Ainda existem o Boobrie, que é escocês e muda de forma; o Basan, da mitologia japonesa; o Benu, precursor da criação, segundo os egípcios; o Garuda, que tinha feições humanas e pertencia ao deus Vishnu, na cultura hindu; o Stringe, criatura da mitologia grega depois adaptada para a romana, que era um de dois irmãos que foram transformados depois de cometerem um crime hediondo, matando e devorando uma pessoa; o Hoopoe, um dos mais sinistros entre todos, sendo uma ave sobrenatural que tinha tanto poderes de cura quanto era associada à morte, por habitar cemitérios, tendo a estranha capacidade de prever acontecimentos – essa é muito semelhante ao corvo e existe em crenças que se espalham por muitos países diferentes. Enfim, é bom parar por aqui, mesmo existindo outros pássaros que poderiam ser ainda listados. É que a minha imaginação já está voando alto demais e temo pelas consequências.

19.05.2022

O estranho e misterioso Alcalante habitaria as proximidades do Deserto de Atacama, no Chile

O bônus de hoje é Pavão Mysteriozo, de Ednardo, nome artístico do cantor e compositor cearense José Ednardo Soares Costa Sousa. A música teve uma enorme repercussão no Brasil, por ter sido utilizada na trilha sonora da telenovela Saramandaia (1976), da Rede Globo. Era o tema do personagem João Gibão. Depois disso ela teve cerca de 20 regravações, feitas por diversos artistas. 

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA

O PESO DO PÁSSARO MORTO, de Aline Bei

(168 páginas – R$ 34,77)

A vida de uma mulher, dos 8 aos 52, desde as singelezas cotidianas até as tragédias que persistem, uma geração após a outra. Um livro denso e leve, violento e poético. É assim O Peso do Pássaro Morto, romance de estreia de Aline Bei, onde acompanhamos uma mulher que, com todas as forças, tenta não coincidir apenas com a dor de que é feita.

Clicando sobre a imagem haverá direcionamento para a possibilidade de compra. O valor pode ser parcelado em até sete vezes, sem juros. Faça isso usando esse link e o blog será comissionado.