Uma faceta até então esquecida da Guerra das Malvinas, iniciada em abril de 1982, entre Argentina e Reino Unido, ganhou agora visibilidade com a estreia de um documentário, dirigido por Federico Strifezzo. Com 39 anos passados, alguém deu voz para mulheres que também tiveram participação no conflito. Nosotras Tambien Estuvimos (Nós Também Estivemos) relata a dolorosa luta de três das 14 enfermeiras da Força Aérea Argentina, cuja missão era atender os jovens soldados que chegavam feridos, na cidade de Comodoro Rivadavia, no sul do país. Corpos que traziam marcas de maus tratos, lhes sendo entregues congelados, desnutridos, mutilados. Até então nenhuma delas pode fazer isso: contar o que haviam vivido. Isso porque houve ordem de silêncio absoluto, imposto pela ditadura militar que governou o país entre 1976 e 1983. Aliás, sua queda ocorreu também devido ao fracasso nesse embate inglório, contra um inimigo muito mais forte, melhor armado e equipado.

Os milhares de soldados mortos, em sua imensa maioria argentinos e de pouca idade, terminam sendo o foco em quase todas as narrativas até então feitas. Mas os horrores foram além do campo de batalha, deixando muitas marcas. Essa foi a primeira vez que Alicia Reynoso, Ana Masitto e Stella Morales puderam retornar, todas juntas, ao local onde havia sido estabelecido o acampamento, quando da guerra. O campo agora aberto foi outra vez regado com lágrimas, que brotaram junto das memórias. Tanto tempo depois, isso ainda é tão forte que Ana revelou ter escondido do próprio marido, por dez anos, que estivera trabalhando no conflito. E Alícia não deixou que seus filhos sequer ligassem a TV, na noite de apresentação do documentário, semana passada. De qualquer modo, o relato foi para elas a oportunidade ímpar de compartilharem esse fardo pesado.

Federico conta que soube da existência delas vendo uma capa de revista da época. A matéria, “No meio da guerra, com coragem e perfume de mulher”, tratava de uma forma ufanista os acontecimentos. E repetia uma das mentiras postas desde o início, dizendo que foram voluntárias. Todas as 14 eram profissionais da Força Aérea. Os depoimentos trazidos pelo documentário não apenas desmentem situações como essa, como também conseguem, segundo o diretor, dar uma mostra “mais próxima, humana e emocional” sobre a guerra. Sem contar os muitos feridos que elas trataram, oficialmente 649 outros jovens argentinos foram trazidos de volta sem vida. Britânicos mortos, mesmo com o Reino Unido jamais confirmando, foram cerca de 300.

No ano seguinte ao conflito, que durou apenas três meses, caiu a Junta Militar que governava a Argentina. E a primeira-ministra britânica Margareth Thatcher conseguiu que seu Partido Conservador tivesse vitória nas urnas. As enfermeiras jamais foram consideradas veteranas de guerra, ficando sem esse status e os parcos benefícios que ele traz. As Malvinas continuam ocupadas, como estão desde 1833. Mesmo ficando a 500 quilômetros da costa do país sul-americano e a mais de 14 mil quilômetros da Inglaterra, sua manutenção é como o estertor de um império que reluta em aceitar que acabou. Custa caro, mas é o preço pago pelo orgulho. Isso claro, além das vidas que já cobrou.

06.04.2021

Alicia Reynoso, Ana Masitto e Stella Morales

O bônus musical de hoje é trecho da música Sobreviviendo, do cantor e compositor Victor Heredia, com a banda de rock La Beriso. Ela é uma homenagem aos soldados argentinos que participaram da guerra. As fotos são reais, de soldados que estiveram no contingente de retomada das Malvinas.

2 Comentários

  1. Obrigado Solon,
    Pela memória de todos estes homens e pela memória deste esforço de guerra que estas mulheres realizaram. Eu era pequeno quando estourou essa guerra, mas me lembro muito bem.
    Não entendi todas as questões, mas senti um profundo sentimento de injustiça em relação à Argentina.
    Era longe da Europa, mas pelas notícias, pude ver que a troca de violência foi terrível.
    até logo Solon

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  2. toda guerra é cruel, o planeta Terra é tão grande que todos que desejam trabalhar e viver com dignidade encontrarão um lugar nele. Quem quer ter tudo de uma vez, porque o outro gosta de tudo, vai lutar com ele para tirar. Ainda somos pessoas rudes, não somos diferentes daqueles que começaram a luta, a luta pelo fogo …

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