Pela primeira vez na história, em 2017 astrônomos identificaram um objeto que veio de fora e cruzou todo o nosso sistema solar, rumando outra vez para o espaço sideral. Mais do que esse fato até então inédito, outras coisas chamaram muito a atenção, como o formato pontiagudo, o que é totalmente incomum, sua cor avermelhada e uma velocidade absurda. Isso tudo levou cientistas e pesquisadores de todo o mundo a discutirem e formularem diversas teorias sobre sua procedência e formação. Talvez a mais controversa dessas hipóteses tenha sido a dos astrônomos Abraham Loeb e Shmuel Bialy, ambos professores da Universidade de Harvard, nos EUA, formulada no ano seguinte. Mesmo assim, ela não conseguiu ser totalmente refutada até agora. Eles afirmaram que se tratava de uma estrutura artificial, algo construído.

Batizado de Oumuamua, expressão que no idioma havaiano significa “mensageiro do passado distante”, ou ainda “aquele que vem de longe”, ele só foi percebido quando esteve relativamente perto da Terra. Mas não houve tempo hábil para que observações mais precisas fossem feitas, devido ao fato de que se deslocava a absurdos 112 mil km/h, acrescido de que sofria variações na sua velocidade. Não era um cometa, por falta de um rasto gasoso. Também não poderia ser um asteroide, visto que não seguia os padrões de trajetória orbital. Com a tecnologia disponível hoje em dia foi possível determinar com relativa precisão o seu tamanho – cerca de 400 metros de comprimento por 40 de largura – e ainda confirmar que sua superfície tinha cobertura dura, orgânica e rica em carbono.

Segundo Loeb e Bialy, a própria aceleração excessiva constatada já seria indício suficiente para ser avaliada a condição de artificialidade. No entender deles, a estrutura seria uma espécie de veleiro que “flutuaria” pelo espaço. Algo como a própria NASA já realizou, mas com uma tecnologia totalmente diferente. Mesmo admitindo o risco de sua teoria ser considerada um tanto exótica, pela comunidade científica, eles permaneceram fiéis à ideia de que seria uma sonda operacional, enviada de modo intencional. Os opositores trataram de apontar outras alternativas, tendo sido a mais defendida a que dizia que todas as suas propriedades observadas poderiam ser explicadas, contendo uma fração significativa do seu volume em gelo de hidrogênio molecular (H2). Mas isso foi rapidamente descartado por outros estudos, uma vez que esses “icebergs” não sobreviveriam à jornada tão longa, posto que evaporariam muito mais rapidamente do que o tempo gasto no percurso. Ou seja, a mais promissora das sugestões caiu por terra quando sobre ela vários pesquisadores se debruçaram.

Um livro lançado por Loeb, agora em fevereiro de 2021, volta a reforçar sua posição de ter se tratado de um visitante. Ele escreve, na introdução, que descobrir vida inteligente além do nosso planeta seria com certeza o evento mais transformador da história da humanidade. Mas que muitos cientistas seguem escolhendo ignorar evidências. “Pensar que somos únicos, especiais e privilegiados é arrogante. A postura correta seria sermos modestos admitindo que existam muitas outras culturas e que temos que encontrá-las”, afirma ele em Extrarerrestrial: The First Sign of Intelligent Life Beyond Earth (Extraterrestre: O Primeiro Sinal de Vida Inteligente Além da Terra). Loeb tem credenciais e credibilidade mais do que suficientes para se arriscar afirmando isso. É o profissional com mais anos de serviço em Harvard em sua área, publicou centenas de artigos inovadores e colaborou com grandes nomes, como Stephen Hawking, um gênio que faleceu há pouco tempo.

No texto ele destaca que o Oumuamua tremia de maneira estranha, além de tornar-se mais escuro e mais brilhante aos telescópios. Também cita ter o objeto acelerado depois de lançar-se ao redor do Sol, desviando da rota que seria esperada, impulsionado por uma força para nós misteriosa. Em um artigo publicado na Forbes, assinado pelo astrofísico Ethan Siegel, Loeb foi tratado com “um cientista que já foi respeitado”. Esse respondeu com um protesto contra o que chama de “cultura de intimidação” existente na academia, que pune quem questiona sua ortodoxia. E lembrou que Galileu foi execrado, por ter proposto que a Terra não era o centro do Universo.

13.02.2021

Trajetória, velocidade e aceleração do Oumuamua (em branco) não encontraram explicações no conhecimento astronômico que se tem atualmente
Formato e constituição do Oumuamua também são enigmas ainda não decifrados

No bônus de hoje, a banda gaúcha Nenhum de Nós com a cação O Astronauta de Mármore, que integra o seu DVD A Céu Aberto.

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