Uma série televisiva produzida pela Rede Globo nos anos 1980 foi precursora na abordagem de um assunto que, hoje em dia, tem recebido muito maior destaque, se não nas artes certamente na vida cotidiana das pessoas. Mesmo sem ter deixado de ser um tabu. Armação Ilimitada fez sua estreia dois meses após o último presidente militar ter apeado do poder e trazia a história de uma relação mantida entre três pessoas. Os amigos Juba (Kadu Moliterno) e Lula (André de Biase) conviviam com Zelda Scott, uma jornalista vivida por Andréa Beltrão. Este arranjo amoroso era apresentado de uma forma muito menos discreta do que se poderia imaginar, considerando a época e a censura que ainda estava vigente, apesar de bem mais branda.

A transgressão era como uma vingança contra o controle extremo até então exercido. Um sopro de liberdade em textos que eram escritos por várias mãos, com revezamento a cada episódio, mas a maioria deles por Antonio Calmon e Patrícia Travassos. A linguagem conseguiu fazer uma mescla bem interessante, com traços trazidos dos quadrinhos – balões com símbolos gráficos substituíam o som, quando algum palavrão escapava –, filmes de ação e videoclips. A ideia original foi proposta pelos dois amigos que eram surfistas na vida pessoal e trouxeram isso para seus personagens, assegurando cenas com muita adrenalina. Mas o bom humor também era marca registrada. Havia inclusive preocupação em dar uma pitada de temas sociais mais relevantes, como o trazido com a presença de Bacana, um menino órfão vivido por Jonas Torres, que termina sendo adotado pelo trio.

O tema das relações poliamorosas hoje causa menos estranheza porque elas se tornaram uma realidade maior do que se pensa. Apesar destas continuarem sendo, em sua imensa maioria, mantidas no sigilo exigido pela sociedade. O recurso do avestruz, que coloca a cabeça no buraco: se eu não estou vendo, não existe. Mas, antes de explicar que existem vários tipos de arranjos que se enquadram nesse guarda-chuva, temos que lembrar que mesmo os laços monogâmicos passaram por uma profunda reformulação, nas últimas décadas. Eles se atam e desatam, na medida em que a possibilidade do divórcio foi assegurada em lei. Essas pessoas divorciadas casam outra vez, moram juntas, têm filhos de relações anteriores, geram e adotam outras crianças. Também passou a ser realidade casamentos entre pessoas do mesmo gênero, tendo essas últimas também o direito à adoção. Ou seja, as definições de família e de relacionamentos estão mais elásticas e esse é um fato contra o qual não adianta o conservadorismo e mesmo a fé religiosa se indisporem e levantarem. Porque a reação é inútil.

Em todas as sociedades, não importa local e época, mesmo com todo o impedimento legal e ameaças de punição, os limites do matrimônio nunca impediram mulheres e homens – esses, muito especialmente – de adotarem a infidelidade, clandestina ou não, como forma de escapar da monogamia. E a poligamia (um homem casar com mais de uma mulher) ou a poliandria (uma mulher casar com mais de um homem), que são oficialmente aceitas em alguns países, não resolvem isso porque favorecem um gênero apenas, permanecendo a relação de domínio e de controle. Não pode haver ainda a confusão entre formas de poliamor e relacionamentos abertos. Esses últimos se caracterizam pela liberdade consentida de ambos os membros do casal iniciarem e manterem intimidades com outras pessoas, mas de modo individual e privativo. Uma espécie de salvo conduto para a prática de sexo extraconjugal sem a tradicional culpa e preservando a dimensão amorosa como o parceiro original.

No poliamor três ou mais pessoas, não importa de que gênero, têm uma ligação que vai muito além do sexo, sem o excluir. Ou seja, estabelecem vínculos afetivos, românticos e inclusive de responsabilidade social. São características básicas deste envolvimento a consensualidade, a não exclusividade e a equidade. O termo trisal – como contraponto ao tradicional casal – identifica o grupo quando formado por dois homens e uma mulher, ou por duas mulheres e um homem. Mas há situações com quatro ou cinco parceiros. Pode haver coabitação ou não. E os arranjos são limitados apenas pela imaginação, o desejo e o afeto. Seja qual for a relação proposta e aceita, ela requer muita coragem e os envolvidos na certa adorariam não enfrentar julgamentos e preconceito.

O poliamor já é um movimento organizado e mais visível nos EUA, havendo casos desde os anos 1950, assim como na Alemanha e no Reino Unido, entre outros locais. No Brasil chegou-se inclusive a estabelecer jurisprudência reconhecendo as relações poliamorosas, com o respeito a suas implicações legais. Em 2012, na cidade de Tupã, interior de São Paulo, foi lavrada a primeira escritura pública de união estável entre três pessoas. Várias outras se seguiram, até 2016, quando o Conselho Nacional de Justiça, atendendo pedido da Associação de Direito de Família e Sucessões, suspendeu essa prática. E não existe decisão final da Justiça sobre tal situação. O que não a impede de acontecer, nem muito menos silencia discussões sobre essa realidade. Tem acontecido inclusive encontros, em âmbito nacional, congressos nos quais os adeptos buscam apoio para a defesa de seu direito de viver como entendem correto. Ninguém precisa ser favorável a isso e os casais tradicionais sempre vão continuar existindo. Mas a intimidade de ninguém deveria ser problema para terceiros, sendo a estranheza mais fruto da hipocrisia do que qualquer outra coisa.

28.01.2021

O bônus de hoje vem com Estrela Leminski e Téo Ruiz, apresentando o vídeo clip oficial de sua música Poliamor. Ela é escritora e compositora, filha dos poetas Paulo Leminski e Alice Ruiz; ele é compositor e produtor muito atuante. Ambos são paranaenses e têm mestrado em Música pela Universidade de Valladolid (Espanha). 

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