Próximo a um meio-dia qualquer, final dos anos 1970. Estou tentando engolir minha ração diária no Restaurante Universitário da UFRGS, na Avenida João Pessoa, em Porto Alegre. Fato absurdamente raro é eu não estar dividindo lugar com ninguém, se bem que ele não estava lotado naquele momento, sei lá por que razão. De repente, a cadeira que está em frente a minha é arrastada, alguém sobe sobre ela e dela alcança o tampo da mesa. Um pé de cada lado do meu prato – não exatamente ao lado, para ser honesto. Subo os olhos, percorrendo um par de pernas femininas enquanto ouço a moça bater palmas e gritar algumas palavras de ordem. Fico sabendo que seu objetivo é arregimentar parceria para um protesto contra o fato de a Casa do Estudante ter acomodações apenas para rapazes. Ela e outras querem ver atendido o seu justo direito de também usufruir daquele espaço.

Eu não a conheço, mas me solidarizo com a reivindicação. Acho mesmo que todos os ocupantes do local também adorariam que ele fosse misto. E olha que naquela época nem se imaginava que um dia um ministro da Educação ainda viesse a falar que os campus eram lugares de orgias; que em quaisquer canteiros se encontraria plantações de maconha; e outras sandices iguais. Agora, loucura mesmo foi o que aconteceu logo depois. Entraram no RU alguns daqueles ocupantes indesejados, muito amados pelos Ustra da vida. Gente que nunca havia prestado sequer um concurso vestibular, mas tinha lugar cativo em quaisquer das salas de aula, nos cursos que bem entendessem. Com eles vinham outros, que usavam fardas. Não pude terminar o meu parco almoço. Nem eu, nem muitos colegas. A única vantagem foi não ter que atravessar o ambiente para devolver a bandeja vazia. Ela ficou sobre a mesa mesmo. Ela, a bandeja, porque a moça aquela desceu. Nem tivemos tempo para uma apresentação formal, o que foi uma pena. E também não chegou, desta feita, a ocorrer nenhuma das agressões que às vezes aconteciam, o que foi ótimo. Mas a desocupação forçada do restaurante veio junto com o temporário silêncio sobre o que ela reivindicava.

Silêncio era uma das palavras mais em voga, naqueles tempos. Os golpistas queriam silenciar as vozes da oposição. Os prudentes tratavam de silenciar-se voluntariamente, em alguns locais e momentos. Autoridades do judiciário faziam “ouvidos moucos”, para não ter que falar nada. Quem achava alguma coisa, corria o risco de não ser mais achado. Era incrível o número de pessoas que tinham olhos e ouvidos, mas não possuíam boca. Algo assim quase como uma disfunção erétil: o órgão continuava existindo, mas com uma das funções prejudicadas.

A Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos, além de outras organizações, elaboraram listas contabilizando centenas de nomes. Gente que se foi, para nunca mais. Mas esse trabalho, mesmo minucioso, não dá certeza de que todas as vítimas estejam relacionadas. Doloroso saber que a grande maioria eram formada por estudantes, jovens que mal começavam a vida e conheciam até então mais sonhos do que realidade. Mas também foram vítimas professores, jornalistas, advogados, agricultores, artistas, bancários, operários, religiosos, médicos e militares, entre outros. Ações contra a educação e a cultura eram deliberadas, assim como contra a ciência. Um dos tantos exemplos foi o afastamento de dez pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Muitos educadores brilhantes foram aposentados na marra ou simplesmente destituídos; outros tantos acabaram presos e torturados. Os currículos foram alterados, para inclusão de ideologia de direita; Centros Acadêmicos foram fechados; a União Nacional de Estudantes (UNE) tornada ilegal; cursos como o de jornalismo não podiam mais sequer colocar seus estudantes em estágios; tudo o que se relacionava às Ciências Humanas foi descontinuado, sucateado, destruído.

Mesmo assim, quando a gente se refere ao passado, se torna muito comum acrescentar um “bons tempos” à frase escrita ou pronunciada. De fato, há mesmo essa tendência de atribuirmos ou lembrarmos mais das qualidades do que dos defeitos, mais das bem-aventuranças do que dos problemas. O que no fundo é muito bom, ao menos servindo para afogar mágoas e rancores, evitando que tomem conta de nossos corações e mentes. Assim, quando relembro da faculdade, dos estudos e dos colegas tenho mesmo muita coisa positiva para vasculhar na memória. Mas, aquela época de escuridão política, de sumiço de gente, de proibição de nos expressarmos livremente, de reuniões dificultadas e de medos nada infundados, também está lá nas mesmas gavetas, sendo recordação bem pesada, à espreita. Coisa nada parecida com as belas pernas daquela universitária.

04.01.2021

No bônus musical de hoje, Milton Nascimento e Wagner Tiso, com a excelente Coração de Estudante.

1 Comentário

  1. Em tempo:
    Que a sensualidade do título não ofusque a imagem da luta feminina pelo lugar das mulheres na Casa do Estudante, tema-chave da crônica.

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