A historiografia sul-rio-grandense está firmada sobre a existência de um personagem cujo próprio nome tem origem controversa: o gaúcho. O que ninguém questiona é a sua formação, enquanto identidade. Ele sempre foi um indivíduo desgarrado, que vagava num território tão amplo quanto aberto, os campos platinos distribuídos agora como áreas de Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai. Como tipo social, surgiu por volta de 1540, pouco depois da fundação de Buenos Aires. Cavaleiro com grande habilidade na montaria, esse homem não tinha raízes, vivia do roubo de gado, bebendo aguardente, cultuando a própria liberdade e não sendo muito afeito às leis e à moralidade então vigentes. Do gado pilhado consumia a carne e vendia o couro para grupos que o contrabandeavam para a Europa.

Não eram eles os primeiros peões das estâncias existentes no sul brasileiro. Nessas propriedades tal trabalho era desempenhado normalmente por índios guaranis, que amansavam e vigiavam os rebanhos dos patrões. Os gaúchos mesmo eram a ralé, homens irresponsáveis com mais apego aos bolichos, locais onde jogavam cartas, cantavam e consumiam muito trago, do que às famílias. Os gaúchos eram guerreiros sem bandeira, sabendo manusear tanto boleadeira e laço quanto facões e lanças. Rudes e sem modos, dormiam ao relento. Consta que a maior parte deles nascera filhos de índias com europeus, sendo fruto indesejado e destribalizado.

Dessa situação descrita viria o termo gaúcho, na acepção mais aceita atualmente. Seria corruptela da palavra “huagchu”, da língua indígena quéchua que ainda hoje é falada por grupos étnicos desde a Colômbia até a Argentina. Significaria “órfão”, o que se explica uma vez que seus pais portugueses e espanhóis nunca os assumiam como filhos. Se bem que o memorialista e folclorista Augusto Meyer relatou existência de alguns registros nos livros de batismo dos curas missioneiros, nos quais havia o nome atribuído à criança juntamente com “filho de fulano de tal com uma china das Missões”. O que mostra outro tipo de discriminação, pois o pai que não o criava punha nome no documento, enquanto a mãe que assumia essa tarefa por bom tempo, não existia legalmente.

Num determinado momento da narrativa histórica, no entanto, ocorreu como que a decretação do fim desse gaúcho real. E se optou por uma nova identidade, do sul-rio-grandense romanceado. Esse veio da junção da coragem do homem que era livre com a servidão do homem que era trabalhador. O ladrão de gado, sem lei e sem chefe, sede características convenientes ao assalariado que vendia sua força de trabalho para os estancieiros. Assim começa o mito do bom gaúcho, o homem íntegro, leal e simples, uma homogeneização que a lida atribuiria às classes sociais, patrões e peões lado a lado no imaginário – quem preside hoje um Centro de Tradições Gaúchas é chamado de patrão. Para tanto era necessário suprimir os defeitos nas narrativas e preservar, acentuando inclusive, todas as qualidades. Outra coisa muito interessante de ser examinada é a circunstância geográfica: o gaúcho cheio de defeitos ficou do lado de lá da fronteira, no lado castelhano. Esse que encarna a perfeição absoluta, fala português.

A literatura romântica teve papel fundamental nisso. O primeiro exemplo veio com o professor e jornalista Apolinário Porto Alegre, com textos em 1868. Contista, poeta e dramaturgo, foi um dos fundadores do Partenon Literário, naquele mesmo ano. Outro nome importante para isso foi o do romancista e boticário José Antônio do Vale Caldre e Fião, que falava francês e latim, considerado o patriarca da literatura gaúcha. Nessa associação, seus membros discutiam política, filosofia e comportamento. Mas se o gaúcho real foi adulterado antigamente pela literatura, processo hoje realizado pela imprensa, a sua morte verdadeira veio quando do surgimento do latifúndio. Com os campos cercados, a partir de 1870, o roubo do gado antes tão livre como o homem que dele se apropriava, passou a ser abigeato. Quem não respeitava esses novos limites demarcados podia afinal ser preso e condenado. Mas, agora, muito importante é que não fiquemos nós condenados e presos nessa visão incompleta e equivocada sobre nossas próprias origens e história.

22.09.2020

5 Comentários

  1. Nunca fui um grande consumidor da história da cultura e tradições gaúchas, mas confesso que você está me deixando bem informado sobre alguns assuntos que eu não tinha grandes conhecimentos. Parabéns professor Solon, vivendo e aprendendo com seus textos sempre muito bem elaborados! Grande abraço, meu amigo!

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