Hoje em dia não compro mais jornais impressos, a edição de papel. Agora leio mesmo as digitais, apesar de em passado não muito distante ter afirmado que nunca faria essa troca. Só adquiro mesmo exemplares quando viajo para qualquer lugar, isso para conhecer o que é feito nas cidades visitadas. E outro hábito que mantenho é ler notícias antigas, para fazer um paralelo com o que acontece atualmente. Ou, o que também acontece com relativa frequência, busco me divertir com relatos inusitados. Mas esses últimos não estão apenas em publicações de outros tempos. Explicando, gosto das antigas e das hilárias.

Pois na Folha Online, em outubro de 2007, teve uma destas matérias que se enquadram em ambos os grupos. O jornalista Felipe Bachtold relata a prisão de um comerciante, ocorrida na cidade de Penedo, no interior das Alagoas – distante 170 quilômetros de Maceió –, por ter batizado lanches que vendia na sua lanchonete com nomes que referiam diversas patentes militares. O comandante da Polícia Militar da localidade sentiu-se ofendido e conduziu o cidadão para a delegacia, recolhendo também o menu impresso e fechando o estabelecimento. Essa história teve repercussão em vários outros meios de imprensa, o que me permitiu buscar mais detalhes sobre o caso.

No cardápio era possível escolher entre sargentos, tenentes e capitães, por exemplo, com a sofisticação e o preço dos pratos subindo conforme aumentava a hierarquia militar. Um coronel era feito com generoso filé acompanhado de presunto. Se a opção recaísse sobre o comandante, viria também calabresa, numa receita bem temperada. Destemperado ficou o comando da PM local, ao imaginar a possibilidade de as pessoas saírem comentando ter gostado muito de comer qualquer um deles. Foi assim que ele justificou a decisão radical de “conduzir aos costumes” o senhor Alberto Lira, então com 38 anos, proprietário do Mister Burg.

A Polícia Civil estava em greve naquela data: sim, juro que é verdade. Assim, o delegado de plantão optou por resolver rapidamente a situação e liberou o cidadão após poucas horas preso. Por segurança, este decidiu contratar um advogado, que tratou de entrar com habeas corpus preventivo, para evitar que o cliente viesse a ser reconduzido pelo mesmo motivo. Incrível é que o cardápio não tinha nada de novo: estava em vigor a pelo menos uma década, tendo Lira contado que ele próprio tinha parentes na Marinha, onde ele mesmo havia servido, e também no Exército. Portanto, segundo seu relato, isso teria sido uma homenagem e jamais uma ofensa. Com o que não concordou o mau humorado oficial, mesmo sabendo que existiam outros pratos além dos que causaram o incômodo. Com a carne de sol nordestina, por exemplo, os clientes podiam escolher um “batalhão” ou mesmo um “tiro de guerra”. Mas se a preferência recaísse sobre o charque gaúcho, tinham alternativas como o “titanic” ou o “salva vidas”.

O advogado Francisco Guerra assegurou à imprensa que iria também entrar com uma denúncia por abuso de autoridade contra o comandante da PM. “Se o argumento dele fosse válido, nenhuma festa de criança poderia ter brigadeiro”, exemplificou. Isso porque esse nome, além de ser dado para um delicioso doce de chocolate que quase todo mundo adora, também é o que refere a mais alta patente da Aeronáutica. “Aqui em Penedo comer brigadeiro pode, mas coronel fica proibido”, brincou ele ao final da matéria. Pena eu não ter conseguido saber o que aconteceu depois. Se o incidente mudou ou não os hábitos alimentares dos cidadãos penedenses. Mas o autoritarismo, esse segue dando indigestão.

18.09.2020

Cardápio do Mister Burg, que foi apreendido.

Bônus: música Comida, composição de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sergio Britto, em apresentação ao vivo no Rio de Janeiro, em 2008, com Titãs e Os Paralamas do Sucesso.

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