Muitas pessoas inocentes morreram, no atentado de 11 de setembro, mas a vítima mais conhecida foi a democracia. Especialmente por isso, não se deve esquecer o dia de amanhã. A ação de um país estrangeiro, que tinha agentes infiltrados naquele que foi vítima do ataque, agindo como cúmplices do absurdo, aponta para gravidade maior do fato. E isso deveria ter recebido repúdio unânime da comunidade internacional, o que lamentavelmente não aconteceu.

Mal tinha amanhecido o dia e havia algo estranho no ar. O presidente foi alertado e tratou de localizar um membro importante do seu gabinete, sem sucesso. Naquele momento não imaginava que este sumido estava envolvido numa conspiração que mudaria os rumos do país. Vasos de guerra dos EUA estavam de prontidão, no limite das águas territoriais, perto o suficiente para interferir de imediato se fosse necessário. Ao mesmo tempo, 33 dos seus caças e aviões de observação estavam em base aérea de país vizinho, muito próximo de vindimas de reconhecida qualidade, mas sem que seus pilotos pudessem provar quaisquer dos vinhos ali produzidos. Enquanto isso um WB-575, que é um verdadeiro centro de telecomunicações voador, sobrevoava as proximidades da capital sem constrangimentos do tipo “espaço aéreo invadido”.

A organização terrorista de tendência neofascista Patria y Libertad, patrocinada financeiramente pela CIA, que também providenciava o treinamento militar de seus membros – uma espécie de milícia – já havia assassinado um general que se recusara a associar-se ao golpe que estava sendo gestado. Este era planejado por grupos de ultradireita, aglutinados em torno do Partido Nacional, que não havia engolido a devastadora derrota nas urnas, quando as tendências de esquerda somaram esmagadores 64% dos votos, elegendo um presidente que prometia profundas e necessárias reformas. Mas, se não tinham competência para amealhar votos na população, estes contavam com o apoio de generais conservadores, muito interessados em cargos, mesmo que ao custo da subserviência a uma potência estrangeira. Antes do dia fatídico, com desinformação, ameaças e ações pontuais, era semeado o medo na população e criado clima para justificar intervenção.

No palácio, sabedor de iminente possibilidade de golpe, o presidente recebeu apoio dos carabineiros, que lhes asseguraram lealdade. Uma hora depois, duas das principais emissoras de rádio começaram a transmitir mensagens de uma junta militar que era formada por três comandantes, sendo seu líder justo o membro do gabinete que não se apresentara antes ao chefe da nação, quando chamado. Nessas notas, pediam a rendição do eleito afirmando que, se não a obtivessem, atacariam por terra e ar. A maior parte dos militares que defendiam a constituição preferiram defender a própria vida, se retirando. Apenas alguns franco atiradores permaneceram nas posições, o que se revelaria insuficiente para deter os primeiros tanques que cercaram o local, às 9h55min. Atendendo o desejo do povo, que tentava se organizar em bairros industriais, o presidente resistia. Às 11h52min aviões Hawker Haunter, da Força Aérea, iniciaram o bombardeio ao palácio, que começou a ser consumido pelas chamas, e à residência oficial. Por volta de duas da tarde, as portas são derrubadas e o exército invade o local. Por ordem presidencial, todo o aparato que ainda resistia, evacua as dependências. O líder permanece e é metralhado. Uma autópsia realizada 17 anos depois garante que ele se matou, mesmo com aquele absurdo número de tiros. Às 18 horas começava oficialmente mais uma ditadura na América Latina, com a decretação de estado de sítio e a sumária supressão de direitos e liberdades individuais. Cerca de mil mortos tingiram de sangue as ruas de Santiago naquele dia e nos seguintes, numa resistência popular infrutífera.

Salvador Allende, que ousou querer atender vontades do seu povo, buscando realizar sonhos de desenvolvimento harmônico e diminuição da desigualdade, pagou com a vida. Nos dias seguintes ao 11 de setembro de 1973, os militares criaram centros de detenção e tortura; estabeleceram censura à informação; fecharam organizações civis; arrasaram com o sistema de educação, com a cultura e a arte; cercearam a justiça; atacaram templos religiosos, mesmo de grupos que os apoiavam; ampliaram privilégios da elite; e entregaram boa parte do patrimônio nacional. O Chile contabilizou cerca de 4 mil mortos e desaparecidos, além de 200 mil exilados. Até que, no início dos anos 1990, depois de lenta reorganização das forças democráticas e progressistas, se reconciliou com a própria história e baniu o general Augusto Pinochet para o merecido lugar na lata de lixo da história. De fato, não convêm que se esqueça dessa data, nem lá nem aqui.

10.09.2020

O palácio bombardeado

Bônus: Música Gracias a La Vida, da chilena Violeta Parra, nas vozes de Las Tres Grandes (Guadalupe Pineda, Tania Libertad e Eugênia León), gravação feita no México em 2015. Violeta Parra foi a compositora e cantora que criou o conceito de música popular no Chile. Foi também a fundadora do Museu Nacional de Arte Folclórica daquele país.

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