O termo estrangeirismo é empregado quando se está diante do uso de palavras de outros idiomas, empregadas concomitantemente com outras da língua portuguesa. Ele não pode ser utilizado, por não ser a mesma coisa, quando a palavra ou expressão já foi incorporada com o tempo ao nosso vocabulário, muitas vezes sofrendo alterações na grafia, para compreensão e enquadramento nas nossas normas. Um ótimo exemplo é o amado futebol, de óbvia origem no inglês football. Mas há centenas de outros: xampu (shampoo), uísque (whisky), tíquete (ticket), sanduíche (sandwich), surfe (surf), pôquer (poker), piquenique (picnic), iate (yacht). Não se pode esquecer que o próprio português também veio de fora, não sendo língua nativa em nosso país e sim a trazida pelos colonizadores. Portanto, assimilação é aceitável; estrangeirismo é subserviência.

Do francês herdamos quantidade absurda de palavras, talvez o maior número das vindas do exterior, exceto as de Portugal, obviamente. Boa parte delas em áreas como gastronomia e moda, que eles dominam tão bem, mas ainda referentes a objetos de uso diário e locais: baguete (baguette), bufê (buffet), canapé (canape), suflê (soufflé), champanhe (champagne), crepe (crêpe), croquete (croquette), filé (filet), glacê (glacé), maionese (mayonnaise), omelete (omelette), patê (pâté), purê (purée), batom (bâton), bijuteria (bijouterie), boné (bonnet), bustiê (bustier), chique (chic), crochê (crochet), echarpe (écharpe), lingerie (lingerie), maiô (maillot), sutiã (soutien), tricô (tricot) e tantas outras. Também abajur (abat-jour), ateliê (atelier), avenida (avenue), bibelô (bibelot), bidê (bidet), boate (boíte), buquê (bouquet), cachê (cachet), camelô (camelot), carnê (carnet), cassetete (casse-tête), chantagem (chantage), cupom (coupon) e dossiê (dossier), ficando nas letras iniciais do alfabeto. Achei algumas centenas, em pesquisa breve. Até a greve (grève), essa “coisa de comunista”, veio da França. Que também nomeou algumas de nossas cores, como bege (beige), bordô (bordeaux) e marrom (marron).

Todo idioma é um organismo vivo. Sofre alterações com o passar do tempo, não apenas incorporando expressões. Há outras que caem em desuso até a “atrofia” final e morte. Ocorrem também contrações, com a simplificação da língua falada chegando à escrita. Nosso antigo pronome de tratamento vossa mercê foi se tornando vosmicê, vancê, você e já está chegando em uma única sílaba, o cê. Sinais de economia, de pressa, mas também de simplificação positiva.

O recente acordo ortográfico assinado entre os nove países que falam e escrevem em português no mundo – Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Timor-Leste, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial e Moçambique –, que não foi o primeiro firmado, comprova que alterações ocorrem também pela distância geográfica, os hábitos e influências regionais. Por aqui existiam pelo menos 250 idiomas falados pelas diversas etnias que já habitavam nosso território muito antes da chegada de Cabral. Do tupi-guarani herdamos também muita coisa. Nomes de locais e de animais, principalmente: capivara, tamanduá, guanabara, carioca, guaíba, jacuí, jiboia, tatu, perereca e urubu. Mas outras palavras, como mingau, muamba, peteca, guri, pitanga, canoa, capim, pindaíba e tocaia. E até doenças, como catapora, que os europeus trouxeram, mas eles nominaram.

Agora, o que me deixa possesso é o estrangeirismo sendo usado por imitação, por modismo, por falta de conhecimento, de educação. Dias atrás, percorrendo determinada avenida de Porto Alegre, contei nada menos do que nove lojas distintas em duas quadras seguidas, talvez menos de 150 metros, com nomes que não adotavam o português. Isso sem contar os inúmeros delivery e todos os drive-thru que se tem pelo caminho. Nos shoppings – olhem só o que estou escrevendo, ao invés de centro de compras, por exemplo – são dezenas de lojas fazendo sale ou oferecendo produtos com off. Juro que não entro, a não ser que seja imprescindível. Como diz na música de Carlos Silva e Sandra Regina, que está na sequência, tem gente falando happy e jurando que é feliz.

23.08.2020

No bônus, a música Estrangeirismo, de Carlos Silva e Sandra Regina, apresentada em performance com dublagem. A letra usa ironia para criticar o uso absurdo e indiscriminado de termos estrangeiros, em nosso idioma. O que demonstra, segundo os autores, um claro propósito de invasão cultural. Convêm assistir até o fim, porque a parte cantada demora para iniciar.

ESTRANGEIRISMO

Eu gostaria de falar com o presidente
Pra cuidar melhor da gente que vive neste país.
Nossa gramática está tão dividida
Tem gente falando happy, pensando que é feliz.

Acabaria com esse tal estrangeirismo
Que deturpa nossa língua e muda tudo de vez,
Como os mendigos que hoje vivem nas calçadas.
Ensinaria ao brasileiro, que aqui se fala o português.

Sou simples, sou composto, oculto, indeterminado,
Particípio, eu sou gerúndio, sou fonema sim senhor.
Adjetivo, predicado, eu sou sujeito, ainda trago
No meu peito este país com muito amor.

Lá no centro da cidade, quase que morri de fome.
Tanta coisa, tanto nome, eu sem saber pronunciar.
É fast food, delivery, self-service, hot dog, ketchup,
E eu só queria almoçar.

Lá no centro da cidade, quase que morri de fome.
Tanta coisa, tanto nome, eu sem saber pronunciar.
É fast-food, delivery, self-service, hot dog, ketchup,
Meu Deus! Onde é que eu vim parar?

4 Comentários

  1. Excelente abordagem sobre a Língua Portuguesa. E o Bõnus então? Parabéns novamente. Tuas crônicas são além do tempo.

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  2. Uma análise ampla e importante sobre a triste realidade da adoção de palavras estrangeiras como modismo ou ilusão de conhecimento. O bônus, fantástico.

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