Até 1968 a teledramaturgia brasileira se resumia a uma sucessão de títulos que contavam histórias de época, com tramas pesadas e uma ambientação que nada tinha a ver com a vida cotidiana de quem as assistia. A televisão mostrava um mundo distante do real e, mesmo já alimentando muitos sonhos, deixava claro que eles jamais passariam disso. Foi quando surgiu a surpreendente Beto Rockfeller, com texto de Bráulio Pedroso. Estimulado pelo então diretor artístico da TV Tupi, Cassiano Gabus Mendes, ele revolucionou as narrativas. E conseguiu afinal enfrentar as superproduções da maior concorrente, a TV Excelsior. A direção foi de Lima Duarte.

A história se passava no presente, os personagens percorriam as mesmas ruas nas quais as pessoas que acompanham os capítulos também se deslocavam para o trabalho, levar filhos na escola ou fazer compras. E mesmo que não fossem exatamente as mesmas, poderiam ser. Assim, os sonhos antes distantes no tempo e no espaço agora se mostravam passíveis de ser vividos de fato. As conquistas da ficção poderiam ser deles também, fossem elas afetivas, sociais ou financeiras. Os diálogos coloquiais permitiam identificação imediata. Isso foi tão marcante que dividiu a história das novelas na nossa televisão em dois períodos distintos: antes e depois de Beto Rockfeller. A sua enorme audiência a manteve no ar por 13 meses, até 30 de novembro de 1969.

O ator Luis Gustavo Sánchez Blanco – ele sempre usou apenas Luis Gustavo, como nome artístico –, a quem coube o papel principal, nasceu em Gotemburgo, na Suécia. Era filho de um diplomata espanhol e veio com a família para o Brasil quando ainda era criança. Perfeito no papel, ele encarnava uma malandragem sem maldade – mesmo tendo caráter duvidoso –, de quem deseja se dar bem sem necessariamente querer o mal para os outros. Beto era um suburbano que se fazia passar por rico com tanta maestria que esses o reconheciam e aceitavam como tal, financiando sem perceber a sua sobrevivência no meio. O sobrenome que ele adota não é um deboche: é uma identidade e modo de forçar pertencimento.

O sobrenome Rockefeller – a grafia usada na ficção tinha uma letra “e” a menos do que a real, talvez para evitar algum problema legal – passou a ser considerado uma espécie de sinônimo de fortuna, em função do enriquecimento estrondoso de John Rockefeller, norte-americano que fundou a Standard Oil em 1870. Ele chegou a acumular o equivalente a 1,8% do PIB dos EUA quando faleceu, em 1937. Com isso era o homem mais rico do mundo. Para se ter uma ideia mais aproximada dos valores que acumulou, atualizando para 2017 seriam inacreditáveis US$ 330 bilhões. Os números oficiais divulgados durante o governo Trump são menos confiáveis e, devido a isso, não estão sendo usados nesta atualização.

Na novela, Beto era um simples funcionário de sapataria em bairro de classe média. Observador e esperto, ele aprende e imita o que é referência para os ricos. A ambiguidade vinha do fato dele conseguir parecer, sem ser na realidade. Ele vivia em dois mundos e terminava não sendo de nenhum deles. Tinha uma namorada suburbana como ele, mas conquistou outra na sua versão “zona sul”. Moto, carro, roupas e tudo o que ele usava não eram de fato dele. E a questão central girava em torno do tema ascensão social, com o incentivo ao consumo. Foi nessa novela que usaram pela primeira vez o recurso do merchandising.

Importante salientar, entretanto, que a novela mais realista não contribuiu em nada para a percepção da enorme distinção entre as classes sociais. No fundo, era apenas como se a classe média brasileira e os mais pobres tivessem a oportunidade de espiar o mundo dos ricos por um simbólico buraco de fechadura. Neste caso, as telas dos televisores. A própria rebeldia mostrada na ocasião era dentro de um limite consentido. Essa novela mudou o mundo das novelas, ampliando sobremaneira inclusive as possibilidades de ganho que o mercado oferece. Mas não mudou a vida dos telespectadores. Para o sistema vigente, qualquer revolução pode ser aceita, desde que mude tudo sem nada mudar.

25.08.2020

Luis Gustavo e Bete Mendes, par romântico da novela Beto Rockfeller

2 Comentários

  1. Baita novela, assisti quando criança e vejo trechos sempre no youtube, mas concordo contigo meu amigo, não contribuiu em nada para a percepção da enorme distinção entre as classes sociais. Alíás, sobre a trilha da novela, tem uma das mais belas músicas francesas: Salvatore Adamo F Comme Femme de 1968. Belo texto. Abração.

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