Ainda tenho o meu autorama – para quem está acostumado apenas com brinquedos eletrônicos, trata-se de uma pista de corrida física e desmontável, onde correm carrinhos de verdade, movidos por motores elétricos. Na realidade, comprei ele já adulto: na infância, as raras ocasiões nas quais brinquei com algum foram sempre na casa de amigos. Não tínhamos como pagar pelo brinquedo. Hoje ele está na caixa, faltando filhos pequenos ou netos para eu ter a desculpa de voltar a armar a pista. Fiz poucas vezes isso, menos do que deveria ter feito. Pensando bem, vou fazer num final de semana desses, mesmo que não tenha com quem disputar a corrida. Ponho um dos carros no automático e corro com o outro. São duas Ferrari vermelhas, réplicas muito bem feitas. E controles com os quais se acelera com grande possibilidade de vitória e chance zero de algum acidente. Quando o carrinho sai da pista, por alguma barbeiragem, basta recolocar e seguir acelerando.

A vida passa ainda mais depressa. Um dia se está correndo em algum autorama desses, ou atrás de uma bola. No outro, são os compromissos que correm atrás da gente. E estes sempre nos alcançam, nos tomam tempo, dinheiro, paciência e até esperança, sem dar em troca nem sequer a sensação boa de uma vitória efêmera. Chegar na frente ou fazer um gol é coisa de momento. Aconteceu e já foi embora, sendo sutil, evapora, desaparece. Mas dura para sempre em emoção, no registro impreciso das memórias. Viver as responsabilidades de adulto com certeza é muito menos prazeroso, se bem que necessário. Então o segredo é mesclar as coisas. Crescer sem deixar de ser criança. Ser prático sem deixar o lado sonhador esquecido num canto.

Minha filha Bibiana, quando mais jovem, muitas vezes me disse que eu não crescia nunca. Que bom que ela tinha certa dose de razão. Agora ela está adulta também, mas corre atrás de seus sonhos, para minha alegria – e corre literalmente, pois se tornou maratonista. Talvez no fundo ela me agradeça por eu ter servido de exemplo nesse caso, de fidelidade à infância e à adolescência, considerando o quanto ela é criativa e que nessas fases da vida essa característica mais se desenvolve. Não dá mesmo para a pessoa ser um adulto saudável se não mantiver bem vivo um lado infantil, levemente ingênuo. E outro tanto adolescente, levemente irresponsável.

Peter Pan era um menino que não crescia. Mas sua luta contra o Capitão Gancho foi séria como as batalhas adultas cotidianas. E o crocodilo estava por perto, esperando que um dos dois, o derrotado, se tornasse a sua próxima refeição. Portanto, não era aconselhável perder. Criado pelo escritor escocês J.M. Barrie – em 1904 como uma peça teatral, em 1911 como um romance – e considerado um dos maiores clássicos da literatura, do teatro e do cinema, o menino além de não crescer também voava. No início sem precisar do tal pó milagroso – e bastante suspeito – das fadas, o que foi mudado depois porque muita criança começou a se machucar, imitando ele e se atirando de lugares altos.

Eu nunca me joguei de lugar nenhum, mas confesso que tinha uma queda gigantesca pela Sininho. Dessas que quase todos têm pelas primeiras professoras. Aliás, essa personagem na criação original de Barrie era um espírito de luz, sem forma e sem rosto. Foi humanizada apenas em 1953, atendendo pedido de Walt Disney, para o lançamento da animação feita pelos seus estúdios. Outra curiosidade sobre a obra, revelada pelo próprio autor, é que o pirata vilão foi inspirado no Capitão Ahab, de Moby Dick, romance publicado por Herman Melville, em 1851. Não bastasse isso, sua pós-graduação em maldades teria sido como aprendiz do lendário Barba Negra, outro vilão dos mares e o único que era temido pelo Capitão Long John Silver, de A Ilha do Tesouro, escrita pelo britânico Robert Stevenson em 1883. Na infância, como contei antes, não consegui ter o autorama que hoje possuo. Mas li esses livros citados, além de muitos outros. Com eles minha imaginação percorria caminhos de fato fantásticos, com velocidade maior que a de qualquer Fórmula 1.

14.07.2020

7 Comentários

  1. Perfeito!
    Em Porto Alegre, na avenida João Pessoa, passando a Panambra, em frente ao Centro Comercial havia uma ‘baita’ pista montada onde juntávamos a gurizada e, juntos, alugavamos determinado tempo para juntos viver os sonhos de infância como um grande piloto, muiro antes da era Senna, quem sabe TB não foi um autorama que instigou esse que se tornou um símbolo nacional.

    1. Esses grandes eram outro sonho. Muitas pistas, competições acirradas. O problema continuava sendo conseguir pagar o preço da brincadeira. E o Senna, acho que esse seria veloz em qualquer pista. Abraço!

  2. Vendo agora a foto das Ferrari senti uma vontade imensa de brincar! Sempre quis, mas nunca tive condições de ter um autorama na infância, nem na adolescência. Foi um brinquedo que marcou muito. Excelente texto, faz a gente refletir sobre de muitas coisas da vida!!! Quando for montar a pista, me convida para brincar, Solon. Grande abraço!

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